Bosco Jackmonth*
Seguindo a marcha estampada no curso desta série de escritos posta nesta estação de artigos semanais, temos agora uma passagem em torno da longevidade colhida junto ao notório Woody Allen que fez uma carreira e tanto falando do medo da morte. Perguntou-se se ele esperava viver para sempre nas telas. Respondeu Allen: “Eu preferiria viver em meu apartamento”. E acrescentou: “Não quero atingir a imortalidade por meio do meu trabalho. Quero atingi-la não morrendo”.
Eterna glória, cerimônias comemorativas nacionalistas e sonhos com o paraíso são substitutos muito insatisfatórios para o que humanos como Woody Allen realmente desejam – não morrer. É que se as pessoas pensarem (com ou sem bons motivos) que têm uma boa probabilidade de escapar da morte, a vontade de viver se recusará a continuar empurrando a carroça da arte, da ideologia e da religião e se lançará à frente como uma avalanche.
Achando que fanáticos religiosos com olhos flamejantes e barbas esvoaçantes são cruéis, espere-se só para ver o que farão magnatas do varejo e estrelinhas de Hollywood envelhecendo quando pensarem que o elixir da vida está ao alcance deles. Se quando a ciência fizer um progresso significativo na guerra contra a morte, a batalha real sairá dos laboratórios para os parlamentos, os tribunais e as ruas. Os esforços científicos, uma vez coroados de sucesso, desencadearão confusões políticas amargos. Todas as guerras e todos os conflitos da história tornar-se-ão um pálido prelúdio da verdadeira batalha à nossa frente: a busca da juventude eterna.
A chave para a felicidade provavelmente é o segundo grande projeto na agenda da humanidade. No decorrer da história muitos pensadores e profetas, tanto quanto pessoas comuns, definiram a felicidade, e não a vida em si mesma, como um bem supremo. Sucede, na Grécia antiga o filósofo Epicuro explicou que o culto a deuses é um desperdício de tempo, que não há existência após à morte e que a felicidade é o único propósito da vida. Deu-se que embora o epicurismo tenha sido rejeitado na Antiguidade, aquele entendimento original tornou-se concepção-padrão. O ceticismo em relação a uma existência pós-vida impele o gênero humano a buscar a imortalidade, e igualmente a felicidade eterna. Quem gostaria de viver para sempre num eterno tormento?
Tem-se ainda que para Epicuro a busca da felicidade era uma procura pessoal. Modernos pensadores, em contrapartida, tendem a considerá-la um projeto coletivo. Sem planejamento governamental, recursos econômicos e pesquisa científica, ninguém conseguirá ir longe na busca da felicidade. Se seu país foi dilacerado por uma guerra, se a economia está em crise e se o acesso à saúde é inexistente, é bem provável que você seja infeliz. A propósito, no final do século XVIII, o filósofo britânico Jeremy Bentham declarou que o bem supremo é “a maior felicidade para o maior número de pessoas”. Ele concluiu que o único objetivo meritório do Estado, do mercado e da comunidade científica consistia em incrementar a felicidade global. E mais, que políticos deveriam assegurar a paz, homens de negócios deveriam estimular a prosperidade, e aos estudiosos caberia estudar a natureza – não para a glória maior de um rei, de um país ou de um Deus, e sim para que você e eu possamos usufruir uma vida mais feliz.
Durante ao séculos XIX e XX, embora muitos concordassem com a concepção de Bentham, governos, corporações e laboratórios focavam suas conquistas em metas mais imediatas e bem definidas. Os países avaliavam o sucesso pelo tamanho de seu território, o aumento de sua população e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) – e não pela felicidade de seus cidadãos. Nações industrializadas como Alemanha, França e Japão estabeleceram sistemas gigantescos de educação, saúde e bem-estar social, todos com o objetivo de fortalecer a nação, em vez de assegurar o bem-estar individual.
Segue, voltada para a missão de produzir cidadãos habilitados e obedientes que servissem à nação com lealdade, as escolas eram guiadas naquele sentido. Aos dezoito anos, os jovens tinham não só de ser patriotas, como também letrados, para que pudessem ler a ordem do dia do brigadeiro e preparar os planos para a batalha do dia seguinte. Tinham de conhecer matemática para calcular a trajetória dos cartuchos de bala na artilharia, ou para decifrar o código secreto do inimigo.
Precisavam dominar razoavelmente eletricidade, mecânica e medicina, para estarem aptos a operar equipamentos, dirigir tanques, e cuidar de companheiros feridos, Quando deixavam o exército, esperava-se que servissem à nação como funcionários, professores e engenheiros, construindo uma economia moderna e pagando muitos impostos. Era assim… (Continua).
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Advogado empresarial (OAB/AM 436). Ex-funcionário do Banco do Brasil, agências Manaus e Rio de Janeiro, designado como Fiscal Cambial junto a bancos locais, comissionado a ordem do Banco Central. Cursou Direito, Comunicação Social (Jornalismo), Contabilidade e lecionou História Geral.







