Abordagem histórica sobre o porvir (XXI)

Em: 31 de outubro de 2022

Bosco Jackmonth * 

Continuando o entendimento de Epicuro posto no artigo imediatamente anterior (XX), tem-se que o pensador percebeu que ser feliz não é algo que acontece com facilidade. Em que pese nossas conquistas sem precedentes nas últimas décadas, está longe de ser óbvio que os contemporâneos estejam significativamente mais satisfeitos do que os ancestrais. Certamente, como um sinal nefasto, apesar de mais prosperidade, conforto e segurança, a taxa de suicídios no mundo desenvolvido é muito mais elevada do que nas sociedades tradicionais.

Em países em desenvolvimento, onde grassam a pobreza e a instabilidade política, como no Peru, nas Filipinas e em Gama, menos de cinco pessoas em cada 100 mil cometem suicídio a cada ano. Em países ricos e pacíficos, como Suíça, França, Japão e Nova Zelândia, mais de dez em cada 100 mil pessoas tiram a própria vida anualmente. Sucede, em 1985 a Coreia do Sul era um país relativamente pobre, ligado a tradições rígidas e governado por um regime autoritário.

Mas hoje é uma das principais potências econômicas, seus cidadãos estão entre os mais instruídos do mundo e ela usufrui de um regime estável e comparativamente liberal e democrático. Contudo, em 1985 cerca de nove em 100 mil coreanos se mataram; atualmente a taxa anual de suicídios é de 36 em cada 100 mil, fenômeno colhido do porvir, passagem que se anota em sintonia com a finalidade deste longo estudo. 

Existem, é claro, tendências opostas e muito mais encorajadoras. O drástico decréscimo na mortalidade infantil certamente acarretou um aumento da felicidade humana e em parte serviu de compensação por todo o estresse da vida moderna, ditado também pelo porvir. Ainda assim, apesar de sermos um pouco mais felizes do que nossos ancestrais, o aumento do nosso bem-estar é bem menor do que o esperado.

Na Idade da Pedra o ser humano médio tinha à sua disposição 4 mil calorias de energia por dia. Além de alimento, esse número incluía a energia investida na preparação de ferramentas, vestimentas, arte e fogueiras. Hoje um americano médio usa 228 mil calorias diárias de energia para alimentar não apenas seu estômago, mas também seu carro, seu computador, sua geladeira e sua televisão. O americanos médio usa, portanto, sessenta vezes mais energia do que um caçador-coletor da Idade da Pedra. O americano médio é sessenta vezes mais feliz? 

Não há dúvida de que podemos ser bem céticos quanto a essas visões cor-de-rosa. As agruras do passado, mesmo as que as tenhamos superado, alcançar uma felicidade afirmativa pode ser muito mais difícil do que abolir completamente o sofrimento. Um pedaço de pão era suficiente para alegrar um camponês medieval faminto. Como alegrar um engenheiro entediado, muito bem remunerado e obeso?

A segunda metade do século XX foi uma era de ouro para os Estados Unidos. A vitória na Segunda Guerra Mundial, seguida de uma vitória ainda mais decisiva na Guerra-Fria, transformou-os na maior superpotência global. Entre 1950 e 2000, o PIB americano cresceu de US$2 trilhões os 12 US$12 trilhões.

A renda per capita sobrou. A então recém-inventada pílula anticoncepcional tornou o sexo mais livre do que nunca. Mulheres, homossexuais, afro-americanos e outras minorias finalmente ganharam um fatia maior da torta americana. Carros baratos, geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, aspiradores de pó, lavadoras de louça, máquinas de lavar, telefones, televisões e computadores transformaram a vida cotidiana e a fizeram ficar quase irreconhecível. Estudos no porvir revelam que os níveis de percepção subjetiva de bem-estar dos americanos ficaram mais ou menos os mesmos da década de 1950. (Continua).  

Advogado empresarial (OAB/Am 436). Ex-funcionário do Banco do Brasil, em Manaus designado como Fiscal de Bancos junto a agências bancárias locais, comissionado a ordem do Banco Central, depois lotado como escriturário na Agência Centro do Rio de Janeiro. Cursou Direito, Comunicação Social (Jornalismo); Contabilidade; lecionou História Geral. Editou o livro “O Ônus do Bônus”. 

Bosco Jackmonth

* É advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]
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