Líderes religiosos: Pajé Ubiratan

Em: 15 de setembro de 2026

O Pajé Ubiratan dedicou décadas de sua caminhada à sabedoria ancestral e ao fortalecimento do seu povo no bairro do Tarumã, na zona oeste de Manaus. Com o passar do tempo, sua atuação foi além dos cantos rituais e do sopro das ervas medicinais. Como líder espiritual e guia comunitário, tornou-se porto seguro para parentes afastados de suas terras, jovens sem rumo, anciãos e todos os que buscavam refúgio e cura em momentos de dor, especialmente durante a pandemia de Covid-19.

Para sua consciência, exercer o papel de pajé exige uma liderança fincada na escuta da terra, na fala verdadeira e no dever sagrado de resguardar a teia da vida. Distante de se limitar às defumações e aos cantos rituais, ele acompanha lares enfrentando a escassez, acolhe enfermos, orienta a juventude e encabeça lutas comunitárias em defesa dos direitos territoriais e culturais dos indígenas periféricos.

Num dia, ao término de uma mística espiritual, um jovem de sua etnia buscou uma orientação.

— Mestre, sinto que estamos nos perdendo. O ritmo da cidade grande está apagando nossa língua e nossa identidade.

Ubiratan contemplou a fumaça do breu-branco antes de transmitir seu parecer:

— A vida na cidade grande tenta nos tornar invisíveis, mas as raízes dos nossos antepassados continuam profundas. Você não precisa carregar o peso do nosso povo isoladamente.

Na visão do Pajé Ubiratan, acolher o silêncio e as dores da comunidade integra sua missão cósmica. Em muitas ocasiões, quem bate à porta da maloca não busca unicamente um remédio da mata, contudo necessita de um coração disposto a ouvir sem julgamentos e a reacender o orgulho de sua ancestralidade.

Sua autoridade também se revela na força de articular a vizinhança e promover a união entre dezenas de etnias distintas. Mutirões de saúde, cidadania, rodadas de conversas na língua materna e vivências comunitárias ditam o dia a dia no território urbano.

Para o pajé Ubiratan, a maloca, sob sua leitura, deve ser refúgio de fé ancestral, mas igualmente centro de acolhimento, resistência e celebração da vida.

Em suas orientações aos parentes, o Ubiratan faz questão de conectar a cosmovisão da floresta às urgências do meio urbano, enfatizando que os ensinamentos dos antigos precisam se traduzir em respeito mútuo, proteção dos rios e solidariedade concreta. Ele ensina com frequência:

— O conhecimento tradicional não serve apenas durante os rituais. Ele deve guiar a forma como tratamos a terra e como estendemos a mão a quem padece ao nosso lado.

Durante sua caminhada, o Pajé Ubiratan esteve presente nas transformações de diversas gerações. Viu curumins tornarem-se defensores da causa indígena, realizou rezas de cura para doentes desenganados e prestou solidariedade no adeus aos parentes que partiram. Tais vivências consolidaram seu nome não só como liderança espiritual, mas como pilar comunitário indispensável.

Sua influência não decorre apenas das atribuições inerentes ao seu poder. Nasce do respeito conquistado com sabedoria, da paciência para aconselhar e da capacidade de apontar caminhos diante do preconceito e das adversidades da vida urbana. Para muitos parentes, buscar o conselho do Pajé representa encontrar firmeza interior e consolo em meio às incertezas.

— Nesta maloca não há espaço para divisão por etnia, classe ou preconceito. Enquanto eu for o líder espiritual desse espaço, todo parente encontrará acolhida debaixo deste teto.

Para o Pajé Ubiratan, a espiritualidade nativa revela seu poder quando se converte em amparo ativo e defesa inequívoca da vida. Por esse motivo, ao término de cada atendimento aos seus parentes, costuma dizer:

— A nossa força permanece viva. Seguimos em frente, juntos!

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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