Neglicência da Segurança e ética

Em: 17 de setembro de 2026

No método científico-tecnológico, os testes e retestes de protótipos não podem ser compreendidos exclusivamente como procedimentos destinados a verificar o desempenho, a funcionalidade, a eficiência ou a confiabilidade. Embora esses elementos sejam fundamentais para determinar se uma solução funciona tecnicamente, representam apenas uma parte do processo de validação. Uma tecnologia pode apresentar excelente desempenho operacional e, ainda assim, ser inadequada para implementação quando produz riscos inaceitáveis, viola direitos, compromete a privacidade, gera impactos sociais negativos ou não atende às exigências éticas e legais aplicáveis. Nesse sentido, as falhas decorrentes da negligência em segurança e ética revelam uma deficiência que transcende o desempenho técnico e compromete diretamente a legitimidade da tecnologia. A síntese dessa falha é a possibilidade de gerar riscos de dano social, legal e reputacional.

A segurança e a ética devem estar presentes durante todo o ciclo de desenvolvimento tecnológico, e não apenas no momento final de aprovação do protótipo. Isso ocorre porque cada alteração realizada durante os testes e retestes pode modificar as características originais da solução e, consequentemente, produzir efeitos que não estavam presentes nas versões anteriores. Um ajuste destinado a aumentar a eficiência, reduzir custos ou melhorar a experiência do usuário pode introduzir novas vulnerabilidades, alterar a forma de coleta e de utilização de dados, aumentar a exposição de determinados grupos ou modificar os efeitos sociais da tecnologia. Portanto, a ideia de que uma solução previamente testada permanece automaticamente segura após sucessivos ajustes é uma premissa inadequada.
Os testes e retestes devem, assim, avaliar não somente “se funciona”, mas também “como funciona”, “para quem funciona”, “sob quais condições funciona” e “quais consequências produz”. Essa ampliação é fundamental porque uma tecnologia não existe isoladamente. Ela é incorporada a sistemas organizacionais, relações sociais, processos decisórios e estruturas institucionais. Seus efeitos podem ultrapassar os limites originalmente concebidos pelos desenvolvedores. Uma solução desenvolvida para aumentar a produtividade, por exemplo, pode modificar rotinas de trabalho, intensificar a vigilância sobre os trabalhadores ou criar novas formas de desigualdade. Da mesma maneira, um sistema baseado em dados pode apresentar bom desempenho estatístico e, simultaneamente, gerar problemas de privacidade, discriminação ou uso inadequado das informações.

A negligência em segurança ocorre quando esses riscos não são identificados, avaliados e controlados de forma sistemática antes da decisão de implementação. Em muitos processos de desenvolvimento, a atenção concentra-se nos requisitos funcionais e no desempenho esperado, enquanto os aspectos de segurança são tratados como requisitos secundários. Essa inversão é particularmente problemática porque determinadas falhas de segurança podem não ser detectadas em testes convencionais. Um protótipo pode funcionar perfeitamente em condições normais e apresentar consequências graves quando submetido a situações de uso indevido, falhas de componentes, ataques, sobrecarga, erros humanos ou condições ambientais não previstas.

A dimensão ética é igualmente importante, pois nem tudo o que pode ser tecnicamente realizado deve necessariamente ser realizado. O fato de uma tecnologia ser eficiente não elimina a necessidade de avaliar sua legitimidade. Determinadas soluções podem alcançar os resultados pretendidos mediante práticas socialmente inaceitáveis. O desenvolvimento científico-tecnológico precisa, portanto, incorporar perguntas relacionadas aos valores envolvidos na concepção e na utilização da tecnologia. Quem será beneficiado? Quem poderá ser prejudicado? Existem grupos mais expostos a riscos? Os usuários compreendem como a tecnologia funciona? Seus dados estão protegidos? Existe possibilidade de contestar ou corrigir decisões automatizadas? A distribuição dos benefícios e dos riscos é razoavelmente equilibrada?

A negligência dessas questões pode acarretar danos sociais. Esses danos podem ocorrer de maneira direta, quando a tecnologia causa prejuízos físicos, psicológicos ou econômicos, ou de maneira indireta, quando modifica relações sociais, amplia desigualdades ou reduz direitos e oportunidades. O problema torna-se ainda mais relevante quando os impactos recaem desproporcionalmente sobre grupos vulneráveis. Nesse caso, a ausência de avaliação ética durante os testes pode levar a que uma tecnologia aparentemente eficiente reproduza ou intensifique problemas existentes no ambiente em que será utilizada.

Existe também uma dimensão legal. Tecnologias desenvolvidas sem a devida consideração dos requisitos normativos podem resultar em violações de leis, regulamentos, contratos ou padrões obrigatórios. Questões relacionadas à proteção de dados, segurança do consumidor, propriedade intelectual, discriminação, responsabilidade civil, relações de trabalho, proteção ambiental e outras obrigações podem surgir durante ou após a implementação. A ausência de avaliação jurídica durante os testes e retestes aumenta a possibilidade de que problemas sejam descobertos somente após a tecnologia estar em funcionamento, quando os custos de correção e as consequências já podem ser significativamente maiores.

O risco reputacional constitui outra consequência importante. A legitimidade de uma tecnologia depende não apenas de seu desempenho, mas também da confiança que usuários, organizações, parceiros, órgãos reguladores e sociedade depositam nela. Um incidente de segurança, uma utilização indevida de dados ou um impacto social negativo pode comprometer essa confiança. Mesmo quando o problema é tecnicamente corrigido, a organização responsável pode permanecer associada ao evento. Dessa forma, a negligência ética pode produzir consequências que ultrapassam o protótipo específico e atingem a imagem da instituição, dos desenvolvedores e até mesmo da própria tecnologia ou do setor no qual ela está inserida.

Em síntese, as falhas decorrentes da negligência em segurança e ética demonstram que a validação de uma tecnologia não pode ser reduzida à mera confirmação de seu desempenho técnico. Ajustes sucessivos podem introduzir riscos não avaliados, inclusive os relacionados a dados, privacidade, segurança, impactos sociais, direitos e conformidade legal. Quando esses riscos não são identificados e controlados, a tecnologia pode funcionar conforme o esperado e, ainda assim, ser inadequada ou ilegítima para uso. A síntese dessa falha é, portanto, a geração de risco de dano social, legal e reputacional. O método científico-tecnológico somente alcança uma validação efetivamente robusta quando demonstra não apenas que o protótipo funciona, mas também que pode ser utilizado de maneira segura, ética, responsável e socialmente legítima. Nesse sentido, segurança e ética não constituem obstáculos à inovação; constituem condições para que a inovação possa ser legitimamente incorporada à realidade e produzir valor sem transferir riscos indevidos à sociedade.

 

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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