O bazar de Lula

Em: 30 de outubro de 2026

A prorrogação do mandato presidencial de Lula sela o início de uma nova etapa da política brasileira, com repercussões que ultrapassam as fronteiras nacionais e alcançam a América Latina e o mundo. Ao conquistar um quarto mandato presidencial, o petista assegura a continuidade de seu projeto de poder, mas não elimina as conflitividades que marcaram sua trajetória aqui.

A vitória de Lula nas urnas não deve ser confundida com a conquista de uma hegemonia política ou com o encerramento do ciclo de polarização. O presidente foi reeleito, mas o espectro liberal-conservador e a oposição bolsonarista demonstraram capacidade de mobilização eleitoral suficiente para manter o país dividido, sobretudo no Congresso Nacional e nos estados mais prósperos da federação. A disputa presidencial revelou a persistência de duas forças políticas que, para além das diferenças programáticas, expressam concepções antagônicas sobre o país.

O problema central de Lula será, assim, converter uma vitória presidencial em uma coalizão minimamente vitoriosa capaz de sustentar o seu governo. Há, contudo, um paradoxo. Quanto mais fragmentado o sistema político, maior a necessidade de negociação; quanto maior a necessidade de negociação, maior o risco de diluição do projeto presidencial. Lula precisará evitar que a busca por governabilidade se transforme em um exercício permanente de administração de crises, sem espaço para uma agenda consistente de desenvolvimento econômico, redução das desigualdades e modernização do Estado.

A dimensão doméstica também condicionará a política externa. Não existe autonomia estratégica sustentável sem capacidade econômica, estabilidade institucional e apoio interno. Um governo pressionado por dificuldades fiscais, conflitos parlamentares e insatisfação social terá menor margem de manobra diante das grandes potências.

Se o cenário doméstico impõe restrições à ação presidencial, a conjuntura latino-americana apresenta desafios ainda mais imponente. A região atravessa um período de recomposição, marcado pelo fortalecimento de forças conservadoras, pela ascensão de lideranças de direita e pela dificuldade dos governos progressistas de transformar suas vitórias eleitorais em projetos de desenvolvimento e integração regional.

A reeleição de Lula constitui uma exceção nesse quadro regional, mas não interrompe, até o momento, a tendência regional. O Brasil poderá continuar defendendo a integração sul-americana, o fortalecimento do Mercosul e a revitalização de mecanismos de concertação política. Entretanto, sua capacidade de liderar dependerá da disposição dos demais governos de cooperar e da habilidade brasileira para conciliar interesses nacionais frequentemente divergentes.

Lula precisará, portanto, abandonar a expectativa de que a afinidade ideológica entre governos seja suficiente para sustentar a integração. A experiência latino-americana demonstra que governos politicamente próximos podem entrar em conflito, enquanto administrações de orientações distintas podem estabelecer acordos pragmáticos quando identificam interesses convergentes.

A liderança brasileira, portanto, não deverá ser medida pela quantidade de cúpulas realizadas ou pela retórica presidencial, mas pela capacidade de produzir acordos funcionais e benefícios concretos. Liderar não significa comandar os vizinhos; significa criar condições para que a cooperação seja vantajosa para todas as nações de nosso entorno estratégico.

A relação com Donald Trump constitui um dos principais desafios externos do novo mandato. A política norte-americana para a América Latina está marcada pela tentativa de reafirmar a predominância de Washington no hemisfério (Doutrina Donroe), conter a expansão da influência chinesa e ampliar o acesso a recursos naturais, mercados e infraestruturas considerados estratégicos para os Estados Unidos.

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição singular. Trata-se da maior economia latino-americana, de um ator relevante no comércio internacional e de um país dotado de recursos energéticos, minerais e agrícolas essenciais para as cadeias globais de produção. Ao mesmo tempo, mantém relações econômicas profundas com a China e reivindica autonomia para definir suas prioridades diplomáticas.

Essa combinação transforma o país em objeto de disputa estratégica. Washington deseja limitar a presença chinesa em setores considerados sensíveis, enquanto Brasília procura preservar suas relações comerciais e ampliar sua capacidade de decisão independente. O problema não é apenas bilateral: envolve o lugar do Brasil na ordem internacional.

A pressão norte-americana pode assumir diferentes formas. Tarifas comerciais, restrições tecnológicas, medidas diplomáticas, exigências relacionadas ao acesso a minerais críticos e tentativas de influenciar decisões estratégicas brasileiras são instrumentos capazes de elevar os custos da autonomia nacional.

A estratégia internacional de Lula não poderá se limitar à administração das relações com os Estados Unidos. O desafio será construir uma rede diversificada de parcerias que amplie as opções brasileiras e reduza os custos de uma eventual deterioração das relações com qualquer potência.

A União Europeia oferece oportunidades importantes para o comércio, os investimentos, a transição energética e a modernização industrial. O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, cuja aplicação provisória começou em maio de 2026, representa um instrumento relevante de diversificação econômica. Sua consolidação, porém, exige superar resistências políticas, assegurar o cumprimento dos compromissos assumidos e transformar a abertura comercial em oportunidades efetivas para a produção brasileira.

A China, por sua vez, ocupa posição central na estratégia econômica brasileira. Principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, o país asiático representa um mercado fundamental para as exportações nacionais e uma fonte potencial de investimentos em infraestrutura, energia, indústria e tecnologia. A continuidade e o aprofundamento dessa relação oferecem oportunidades que Brasília não pode ignorar.

O desafio consiste em aproveitar o dinamismo chinês sem substituir uma dependência por outra. A diversificação dos parceiros não será suficiente se o Brasil continuar ocupando uma posição subordinada nas cadeias produtivas internacionais. A autonomia estratégica exige diversificação de mercados, mas também fortalecimento das capacidades nacionais.

A Rússia ocupa um lugar diferente nessa equação internacional. Sua importância para o Brasil está associada à cooperação no âmbito dos BRICS, ao diálogo diplomático, às relações econômicas e à defesa de mecanismos multilaterais de governança global.

O BRICS pode funcionar como plataforma para ampliar a cooperação entre economias emergentes, defender reformas das instituições multilaterais e discutir mecanismos alternativos de financiamento e desenvolvimento. Entretanto, o agrupamento não deve ser confundido com uma aliança militar ou com um bloco de interesses inteiramente homogêneos. Seus integrantes mantêm divergências e relações distintas com as potências ocidentais.

É nesse contexto que a imagem do Bazar de Stálin, examinada por Henry Kissinger em Diplomacia, oferece uma chave interpretativa para os desafios do próximo governo. Em um ambiente internacional no qual as alianças são frequentemente condicionadas por interesses, conveniências e relações de poder, a questão fundamental não é apenas com quem o Brasil pretende se relacionar, mas o que será capaz de negociar, preservar e conquistar.

Em um mundo no qual as grandes potências procuram transformar suas vantagens econômicas e militares em instrumentos de pressão, o Brasil precisará aprender a negociar sem se isolar, cooperar sem se subordinar e diversificar suas parcerias sem perder de vista seus interesses nacionais.

É nesse equilíbrio — entre pragmatismo e princípios, autonomia e cooperação, ambição internacional e capacidade doméstica — que será decidido o alcance histórico do quarto mandato de Lula.

 

*é cientista político

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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