A páginas tantas, em tempos antigos, o mundo devia parecer bem arbitrário, é o comentário inicial que se faz ao redor da abordagem do tema Deus Existe ? na sua terceira versão.
Ao cabo desse passado, ocorriam inundações, epidemias, terremotos ou vulcões presentes sem aviso ou motivo aparente, enquanto os povos prImitivos atribuiam esses desastres naturais a um panteão de deuses que se manifestavam de maneira extravagante e insensível. Sem alarde, não havia como prever o que fariam, e a única esperança era cair em boas graças por meio de dávidas ou ações virtuosas. Muita gente se aferra até hoje a essa crença tentando fazer um pacto com o destino. É que as pessoas prometem se comportar melhor em troca de bons fados na vida.
Nos andaimes do mundo, pouco a pouco, porém, os seres humanos notaram determinadas regularidades no comportamento da natureza. Essas regularidades eram mais aparentes no movimento dos corpos celestes através do céu. Assim, a astronomia foi a primeira ciência a se desenvolver. Newton proveu uma base matemática sólida para ela há mais de trezentos anos, e ainda hoje usamos sua teoria da gravitação para prever o movimento de quase todos os corpos celestes. Seguindo o exemplo da astronomia, descobrimos que outros fenômenos naturais tanbém obedeciam a leis científicas definidas.
Tal levou à ilação a ideia do determinismo científico, que parece ter sido elaborado pelo cientista francês Pierre-Simon Laplace. Seria bom citar suas exatas palavras, mas a escrita dele era como a de Proust, com sentenças absurdamente longas e intrincadas. Então decidiu-se parafraser a citação. Ele afirmou que, em dado momento se conhecêssemos as posições e velocidades de todas as partículas do universo, seíamos capazes de calcular seu comportamento a qualquer outro momento no passado ou no futuro.
No fim das contas, existe uma hitória , provavelmente apócrifa, de que Napoleão como deus se encaixava nesses sistema, ao que o cientista respondeu: “Não necessitei dessa hipótese”. Não acho que Laplace estivesse alegando que não existe. Apenas que ele não intervém para quebrar as leis da ciência. Essa deve ser a posição de todo cientista. Uma lei cientifica não tem validade se vigora apenas quando algum ser sobrenatural decide perrmitir que as coisas sigam seu curso sem intervir.
Ultrapassando as convenções há a ideia de que o estado do universo em certo momento determina seu estado a qualquer outro, o que é um princípio fundamental da ciência desde o tempo de Laplace. Disso se infere que podemos prever o futuro, ao menos em princípio. Na prática, porém, nossa capacidade de previsão fica limitada pela complexidade das equações e de uma propriedade chamada caos. Como todo mundo que assistiu a Jurassic Park sabe, iso sigifica que uma pequena perturbação num lugar pode provocar uma grande alteração em outro.
Sucede, uma borboleta batendo asas na Austrália faz chover em Nova York. O problema é que isso não é reproduzível. Da próxima vez que a borboleta bater suas asas, uma infinidade de outras coisas estará diferente, e isso também influenciará o clima. Por isso a previsão do tempo é tão pouco confiável.
Nesta ordem de ideias, a despeito dessas dificuldades práticas, quanto ao determinismo científico, permaneceu o dogma oficial do século XIX. Mas, no século XX dois acontecimenos mostram que a visão de Laplace — de uma completa previsão do futuro — não pode se concretizar. O primeiro foi a mecânica quântica, proposta em 1900 pelo físico alemão Max Planck como uma hipótese ad hoc para resolver um paradoxo extraordinário.
Segundo as ideias clássicas do século XIX, remontando a Laplace, um corpo aquecido, como um pedaço de metal incandescente, deve emitir radiação. Ele perderia energia na forma de ondas de rádio, infravermelho, luz visível, ultravioleta, raios X e raios gama, tudo a uma mesma taxa. Isso não só significaria que todo mundo morreria de câncer de pele, como também que tudo no universo estaria a uma mesma temperatura, algo claramente falso.
Em tais moldes no entanto, Planck mostrou que esse desastre seria evitado se abandonássemos a ideia de que a quantidade de radiação poderia ter qualquer valor e afirmássemos, em vez disso, que ela vinha apenas em um determinado tamanho de pacotes — ou quanta. É um pouco como dizer que não podemos comprar açucar solto no supermarcado, apenas em sacos de 1 quilo.
Sem alarde, a energia nos pacotes ou quanta é mais elevada para o ultravioleta e os raios X do que para o unfravermelho ou a luz visível. Significa que, a menos que um corpo seja muito quente — como o Sol — ele não terá energia suficiente para emitir sequer um único quantum de ultravioleta ou raios X. É por isso que não ficamos bronzeados com uma xícara de café.
Dada a apologia do inverossímel, Planck considerava a ideia de quanta como um simples artifício matemático e não como uma realidade física, seja lé o que isso signifique. Entretanto, os físicos começaram a descobrir outro comportamento que podia ser explicado apenas em termos de quantidades com valores discretos ou quantizados, em oposição a valores continuamente variáveis. Por exemplo, descobriu-se que partículas elementares se comportavam como pequenos peões, girando em torno de um eixo.
Trivialmente , a quantidade de giros não podia simplesmente ter um valor qualquer. Precisava ser o múltiplo de uma unidade básica. Como essa unidade é muito pequena, não percebemos a diminuição da velocidade de um peão como uma sequência de etapas discretas, mas sim como um processo contínuo. Mas, para peões tão pequenos quanto átomos, a natureza discreta do giro — ou spin — é muito importante. (Continua)
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É advogado (OAB/AM 436). Cursou Direito, Contabilidade, Comunicação Social (Jornalismo), Leciounou História. Ex-Funcionário BEA e Bco.do Brasil. Articulista.Contato: [email protected]. br.














