“Vamos continuar produzindo para garantir as indústrias de SP”

Em: 20 de março de 2012
Para o deputado estadual Marcelo Ramos (PSB), a ascensão do senador Eduardo Braga à liderança do governo federal no Congresso Nacional significa expectativa de desafios em relação ao modelo ZFM por cuja estagnação ele acusa o próprio Braga
Para o deputado estadual Marcelo Ramos (PSB), a ascensão do senador Eduardo Braga à liderança do governo federal no Congresso Nacional significa expectativa de desafios em relação ao modelo ZFM por cuja estagnação ele acusa o próprio Braga

Para o deputado estadual Marcelo Ramos (PSB), a ascensão do senador Eduardo Braga à liderança do governo federal no Congresso Nacional significa expectativa de desafios em relação ao modelo ZFM por cuja estagnação ele acusa o próprio Braga, que governou o Estado do Amazonas por duas vezes, ao lado de figuras como Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes, cada um com três mandatos à frente da máquina administrativa do Estado. Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, Ramos acusa os três de não terem construído alternativas para a ZFM. “Eles conseguiram fabricar milionários e fazer do Amazonas o Estado com maiores desigualdades do país”, aponta.

Jornal do Commercio – Até que ponto a ascensão do senador Eduardo Braga (PMDB) ao cargo de líder do governo Dilma Rousseff pode ajudar nas articulações em favor da revitalização do modelo Zona Franca de Manaus? O senador pode ser considerado fora do páreo da disputa municipal de outubro?

Deputado Marcelo Ramos – Na verdade, nós, do PSB, já definimos o nosso caminho político com relação às eleições municipais. Mas, é óbvio que, por outro lado, o senador Eduardo Braga é uma novidade que clareia o processo político-eleitoral. Hoje, o senador está fora da disputa pela Prefeitura de Manaus. O novo cargo dele exige relações republicanas e saudáveis com todos os partidos da base aliada. O PSB tem quatro senadores, seis governadores, tem uma grande bancada de deputados federais e, portanto, é uma parcela importante da base de governo da presidente Dilma Rousseff que o senador terá que ajudar a preservar. Queremos crer que o novo cargo vai diminuir o açodamento do senador, que ultimamente agia como se fosse um vereador. Acredito que a grandeza do cargo que ele ocupa agora vai fazê-lo finalmente assumir o cargo de senador pelo Estado do Amazonas. Quero crer que a força do seu cargo faça com que ele consiga resistir às investidas do governo federal contra a Zona Franca de Manaus.

JC – Falam que o senador poderá agora, dentre outras coisas, lutar com força pelo descontingenciamento de pouco mais de R$ 1 bilhão pertencente à Zona Franca de Manaus. Mas esse dinheiro já não teria sido usado pelo Tesouro Nacional, não representando mais nada para a ZFM?

MR – É dinheiro usado para fins de superávit primário, é dinheiro que o governo federal guarda para, no final do ano, no seu balanço de despesas e receitas, fazer com que a receita seja maior que a despesa. Isso significa que é um dinheiro ‘imexível’. Podem mexer em dinheiro de tudo, mas no dinheiro que garante o superávit primário ninguém consegue mexer. E não vai ser o senador Eduardo Braga, como líder do governo no Congresso Nacional, que conseguirá mexer. O ex-líder, senador Romero Jucá, do PMDB pelo Estado de Roraima, com interesse do seu Estado no dinheiro do descontingenciamento, nunca conseguiu mexer nesse dinheiro. Braga jamais conseguirá mexer nesses recursos porque eles são uma reserva estratégica do governo, é o superávit primário.

JC – Na sua opinião, o que se pode esperar mais do senador Eduardo Braga em relação à Zona Franca de Manaus que, segundo o escritor Márcio Souza, é um modelo de desenvolvimento da Amazônia pelo grande capital que não deu certo?

MR – De certo modo, a ZFM é um modelo que deu certo, sim. Do ponto de vista econômico fez do Estado do Amazonas a quarta arrecadação de ICMS do país. Do ponto de vista ambiental preservou 98% da floresta em pé. E como é essa relação da ZFM com a questão ambiental? Se a gente pegar Estados como Rondônia, Pará etc., vamos ver que eles tiveram que migrar para o extrativismo e a pecuária e devastaram tudo porque não tiveram alternativa econômica. Quando foi concebido o modelo ZFM ninguém imaginava esse viés geopolítico, de ocupação da região amazônica. No período Mário Henrique Simonsen houve uma mudança desse viés para o modelo de substituição de importações, que é o modelo vigente até agora. E até hoje ninguém apresentou um modelo novo. Lamentavelmente os projetos agroindustriais, que no começo faziam parte do projeto de desenvolvimento da ZFM, foram todos abandonados. Vejamos que 40% do município de Rio Preto da Eva pertencem ao Distrito Industrial da Suframa, são terras que seriam aproveitadas pelos projetos agroindustriais, um modelo mais adequado às nossas vocações regionais, que substituiria o modelo alienígena gradativamente. Mas foi tudo abandonado pelos responsáveis pela execução desse modelo. Não foi à toa que chegamos em 2012 sem portos, aeroportos, estrada, sem logística e sem internet, sem energia elétrica. Nós passamos praticamente todo o período da ZFM sendo governados por três homens que não tiveram a capacidade de reverter a riqueza gerada pela ZFM para o incremento de um desenvolvimento sustentável para o Amazonas. Eles conseguiram fabricar milionários e fazer do Amazonas o Estado com maiores desigualdades do país. Esses três homens são Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes e Eduardo Braga, que governaram o Amazonas de 1983 até 2010. Eles não conseguiram aproveitar a riqueza gerada pela ZFM para a construção de um projeto alternativo de desenvolvimento econômico e autosustentável, que gerasse emprego e renda em nosso Estado.

JC – Hoje, com a economia globalizada e a dinâmica da revolução da informática, como seria esse novo modelo de desenvolvimento econômico?

MR – Eu acho que nós deveríamos começar a construir esse modelo alternativo, uma transição. Só que essa transição depende da saúde da ZFM. Sem ZFM não tem transição, Transição exige investimentos e investimentos exigem arrecadação. Então, precisamos preparar essa transição, e aí precisamos de pesquisa e investimentos. E por falar nisso, me preocupa o discurso de alguns, visando a exploração das nossas riquezas minerais. Isso nos remete ao ciclo da borracha. Parece que novamente seremos exportadores de commodities para garantir a manutenção das indústrias do Estado de São Paulo, vamos continuar produzindo para garantir as indústrias de São Paulo. Podemos até migrar para a exploração mineral, mas desde que construindo um parque industrial aqui, um parque petroquímico de beneficiamento de bens minerais, nós teremos que agregar valores aqui, não poderemos mais ser exportadores de commodities como na época da borracha. Precisamos, então, usar os recursos do governo do Estado do Amazonas em ações estruturantes. Um Estado que gasta R$ 1 bilhão para construir uma ponte que do ponto de vista econômico liga nada a lugar nenhum, e não tem um porto decente, significa que alguma coisa está errada, esse dinheiro deveria ter sido investido em medidas estruturantes. Nesse sentido também deveriam estar sendo aproveitados os R$ 500 milhões gastos para construir a Arena da Amazônia. Somente assim mudaríamos a realidade de um Estado que hoje luta com queda de arrecadação, com constante aumento do índice de desemprego no PIM, um Estado altamente endividado.

JC – Nos meios universitários o seu nome é destacado mais que o do seu cabeça de chapa, Serafim Corrêa, para disputar a Prefeitura de Manaus. Para eles, a chapa do PSB está errada, o que dizer desse fenômeno político?

MR – Minha responsabilidade tem que ser maior que minha vaidade. Sinto que estou chegando a um estágio de me sentir preparado para grandes desafios. Ainda preciso amadurecer para algumas questões, preciso ter mais capacidade de ouvir, e isso é só o tempo que ensina, e acho que enfrentar um processo eleitoral ao lado de um homem preparado como Serafim Corrêa, vai me ajudar a ser uma alternativa no futuro à população, isso em um cenário em que não exista apenas o senador Eduardo Braga. Tudo é dinâmico e muita coisa pode mudar a partir das eleições deste ano com relação a 2014.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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