A evolução do carnaval da Eduardo Ribeiro ao sambódromo

Em: 1 de março de 2019
Avenida Eduardo Ribeiro, infestada de bares classudos na época, era o point
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Avenida Eduardo Ribeiro, infestada de bares classudos na época, era o point

O segundo jornal impresso do Amazonas, o Estrella do Amazonas, foi fundado praticamente junto com a província, em 1852, em Manaus. É através de suas antigas páginas, e as de outros impressos, que ficamos sabendo ter sido o povo manauara, desde sempre, um amante do Carnaval, primeiro com o violento entrudo, depois com os bailes à moda francesa, trazidos para cá principalmente por portugueses.

Ano a ano, década após década, o Carnaval manauara passou por transformações sem nunca perder a essência da diversão.

“A primeira Batalha das Flores aconteceu na frente da igreja dos Remédios, mas até o final do século 19 as aglomerações do povo aconteciam principalmente na praça D. Pedro II, local onde também eram realizados vários outros eventos cívicos, por ser em frente ao Palácio do Governo, atual Paço da Liberdade”, contou Geraldo dos Anjos, pesquisador do Carnaval de Manaus, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras.

Quem vivenciou as brincadeiras de Carnaval ainda na avenida Eduardo Ribeiro, lembra muito bem dos ‘blocos de sujos’, ou ‘mascarados’, homens geralmente vestidos de mulher, cobertos de Maisena ou talco, vindos aos montes dos vários bairros de Manaus, batendo latas e assustando as pessoas. Eles ainda existem, poucos, não mais com a fama de antes. São registrados desde o século 19 e praticamente acabaram quando o Carnaval de Manaus saiu da Eduardo Ribeiro. Mas, por que o Carnaval da cidade foi direcionado para a avenida Eduardo Ribeiro e depois tirado de lá?

Carros alegóricos franceses

“Desde 1900 a cidade já respirava os ares da modernidade parisiense. Com o dinheiro da borracha a sociedade que detinha o dinheiro começou a fundar os grandes clubes sociais, como o Club Cacau e o Internacional que, em 1903, passou a se denominar  Ideal Club, existente até hoje. As instalações destes clubes eram na novíssima avenida Eduardo Ribeiro, ponto de referência para uma sociedade enriquecida”, falou.

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Em 1905, no rastro deste apogeu, foi fundado o Club dos Terríveis, localizado na rua Demétrio Ribeiro (atual Visconde de Mauá), perto da praça da Matriz. Este clube tinha como seus membros o governador Constantino Nery, o senador Silvério Nery e o prefeito da cidade, Adolpho Lisboa.

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“Com muito dinheiro para gastar, os governantes organizaram naquele ano o primeiro carnaval de rua na Eduardo Ribeiro, trazendo de Paris toda a decoração da avenida bem como vários carros alegóricos nos quais as famílias abastadas desfilaram. Enquanto nos clubes a alta sociedade promovia seus grandes bailes de gala, o povão brincava na rua, nos ‘blocos de mascarados’, que se perpetuaram por décadas, praticamente até 1978, quando a Eduardo Ribeiro deixou de ser palco dos desfiles”, lembrou.

Mas nem só de carros alegóricos e bloco de mascarados era feito o Carnaval da Eduardo Ribeiro. “Tinham também acirradas disputas de marujadas e cordões de lavadeiras, surgidos nos bairros, e a Misto da Praça 14, primeiro embrião de uma escola de samba formada na Praça 14. Ela pode ser considerada a primeira escola de samba de Manaus e que resultaria nas futuras gerações de sambistas do bairro até os dias de hoje”, informou.  

25 anos de sambódromo

Mandada construir pelo então prefeito Jorge Teixeira (1975/1979), a avenida Djalma Batista tão logo inaugurada, deixou a Eduardo Ribeiro para segundo plano, sendo transformada na principal avenida da cidade. Com isso, até os desfiles de Carnaval deveriam passar a ser no novo palco, o que começou a acontecer em 1979.

“Com a inauguração da Djalma Batista, uma avenida moderna, construída com os impostos da Zona Franca, os desfiles de Carnaval foram transferidos para essa via, organizados pela Emamtur (Empresa Amazonense de Turismo), com a venda de camarotes e ingressos pagos para ver os primeiros desfiles das escolas de samba, blocos e batucadas. Essa era a nova cara do Carnaval de Manaus”, informou.

Por 15 anos os desfiles aconteceram na Djalma Batista, até que ela ficou pequena demais para receber o espetáculo. Em 1994, copiando o sambódromo do Rio de Janeiro, inaugurado em 1984, Manaus também ganhou o seu sambódromo, mandado construir pelo governador Gilberto Mestrinho (1991/1994), que hoje dá nome ao espaço. Blocos e batucadas perderam espaço e a passarela do samba ficou reservada apenas para as escolas de samba, também cópias das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Assim como o entrudo, os bailes nas residências, depois nos clubes, os ‘mascarados’, as marujadas, os cordões de lavadeiras, os blocos e as batucadas sumiram e foram sendo substituídos pelas escolas de samba, no começo, pobres, hoje apresentando belos e ricos espetáculos. Ainda na década de 1980 surgiram as bandas de rua, que se transformaram na cara do Carnaval de Manaus. Até quando?

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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