Adentrar no mundo da ciência e das pesquisas desenvolvidas no CERN (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares), onde se pratica diariamente a busca do que há de mais íntimo na natureza com a Física das Partículas Elementares e acontecem grandes descobertas importantes para a ciência. Esse será o mote da palestra que o professor doutor Alberto Santoro, líder do grupo de pesquisa da Uerj no experimento CMS (Compact Muon Solenoid), um dos responsáveis pela descoberta do Bóson de Higgs, em 2013, junto com 4 mil pesquisadores de 50 países e 150 instituições, irá proferir hoje (20) a partir das 18h30, na sede do Musa, no Largo de São Sebastião com o título “A ciência vista pela Física de Altas Energias e o impacto social”. Para explicar melhor todo esse palavreado difícil, Alberto Santoro deu ao Jornal do Commercio, a seguinte entrevista:
Jornal do Commercio: Em linguagem para leigos, o que é a Física de Altas Energias?
Alberto Santoro: A Física de Altas Energias é a ciência que estuda o que há de mais íntimo na matéria. Assim pode-se dizer, tenta desvendar os “mistérios” do microuniverso. Estuda as interações fundamentais da natureza e seus primeiros tijolos. As interações fundamentais são quatro: as interações eletromagnéticas, responsáveis por todos os fenômenos elétricos e magnéticos; as interações fracas, responsáveis pelas explosões nucleares do sol por exemplo; as interações fortes, responsáveis pelo equilíbrio da matéria; e as interações gravitacionais, responsáveis pelas interações entre as massas e a dinâmica do macrouniverso.
JC: O Sr. irá fazer uma palestra hoje, aqui em Manaus. Quem seria o seu público (sim, porque a Física é para poucos)?
AS: A ideia dessa palestra é popularizar a nossa ciência. É uma palestra na qual procurarei tomar cuidado com o jargão a que estamos habituados e tentar definir tudo na medida do possível e compreensível. O público pode ser qualquer um. É um convite a sonhar com o microuniverso e com o procedimento nos grandes laboratórios de pesquisas. A Física não é para poucos. Assim como a literatura, a poesia, a música erudita…, é para todos. A questão é de educação. Ninguém gosta de Shakespeare sem um mínimo de educação. Ninguém aprecia Picasso tão pouco sem ter tido uma educação. O ensino não só da Física, mas de tantas outras coisas é, lamentavelmente, pobre.
JC: O Sr. esteve presente quando se detectou o Bóson de Higgs, a partícula de Deus?
AS: Sim, faço parte de um dos dois experimentos que descobriu o Bóson de Higgs assim como também fiz parte do experimento Dzero, que descobriu o Quark Top (partícula elementar) no acelerador de partículas Tevatron, que fica no Fermilab (Fermi National Accelerator Laboratory), em Illinois, nos EUA. A pesquisa está focada em estudos precisos de interações de prótons e antiprótons nas mais altas energias disponíveis fornecidas pelo Tevatron. Trata-se de uma intensa busca por pistas subatômicas que revelam o caráter dos blocos de construção do Universo.
JC: A Igreja falou alguma coisa quando da comprovação do Bóson de Higgs naquele ano e ele ter sido chamado de a partícula de Deus?
AS: Os filósofos fizeram uma mesa redonda no campus da UFRJ, no Rio, e me convidaram para falar sobre essa questão. Na mesa havia um padre, um filósofo e eu. Contei a história em detalhe. Eu não fiquei sabendo de nenhuma contestação por parte da Igreja, até mesmo porque não havia nada de antirreligioso, e tão pouco foram os físicos que inventaram esse apelido para o Bóson de Higgs.
JC: Desde então, que outras descobertas têm sido feitas no CERN?
AS: No momento estamos tomando dados e à procura de várias coisas. Um foco bastante grande tem-se dado à procura das partículas supersimétricas, ou seja, aquelas que seriam mais fundamentais que os Quarks, que hoje são as partículas mais elementares, a menor parte da natureza.
JC: Que trabalhos o Sr. realiza no Centro?
AS: Eu faço parte do Experimento CMS (Compact Muon Solenoid). Este experimento conta com quase 4 mil cientistas. É um dos maiores experimentos do mundo. Lá eu oriento estudantes, sou líder do grupo brasileiro da UERJ. Temos projetos em vários detectores, e meu grupo trabalha em software, hardware e análise de dados obtidos durante o experimento. É realmente uma atividade extremamente prazerosa.
JC: A Física já consegue explicar o porquê de nossa existência?
AS: Não creio. Essa é uma questão fundamental. Mas estamos no caminho, perseguindo o trabalho da natureza para construir o Universo e, portanto, nós mesmos como parte do Universo. Sobre essa questão não acredito que possamos reduzir somente aos conhecimentos da Física.
JC: Na sua opinião, além da Física, como está a educação no Brasil?
AS: É muito importante investir no conhecimento, na educação e na ciência. Ambas são responsáveis pelo futuro de uma nação. Não investir em ciência e educação é, com certeza, ter um futuro pobre e marginal. Nos momentos de crise esses deveriam ser os únicos setores a não sofrer cortes. Quando a crise termina, contamos com quem? Vou mostrar isso na minha palestra.
O QUÊ? Palestra “A ciência vista pela Física de Altas Energias e o impacto social”, proferida pelo professor doutor Alberto Santoro
ONDE? Sede do Musa (Museu da Amazônia), no Largo de São Sebastião
QUANDO? Quarta-feira (20), a partir das 18h30
QUANTO? Gratuito







