A paixão que vem de longe e perdura

Em: 9 de janeiro de 2017
https://www.jcam.com.br/0901_C1.png

Se há uma coisa que os amantes e praticantes de futebol, em Manaus, não podem reclamar, é da falta de cobertura do esporte pela imprensa. Por volta de 1903, conforme consta na revista número 7/2015, do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), surgem os primeiros registros pelos jornais do futebol praticado na época.Os jogos de “foot-ball” eram realizados nos finais de tarde, somente pelos ingleses, na praça Floriano Peixoto, área onde hoje está localizado o Hospital Militar, na Cachoeirinha.

Os ingleses, além de serem considerados os criadores do futebol, estavam em peso, em Manaus, trabalhando nas diversas empresas de seu país aqui instaladas devido os rios de dinheiro que corriam na cidade como resultado das vendas da borracha.

A título de curiosidade, informações não registradas em jornais impressos, afirmam terem sido os ingleses os introdutores do futebol em Manaus, em fins do século 19. Sabe-se que, em 1898, existiu um clube chamado Sport Clube Amazonense, cujos sócios, naquele ano, praticaram animadas partidas de um esporte chamado “jogo de bola”, mas não se sabe se era futebol.

Em 1906 teriam acontecido os primeiros confrontos entre times de futebol, com o Racing Club Amazonense, criado pelo maranhense José Conduru Pacheco, que havia chegado de Belém onde vira o esporte sendo praticado; e o Manáos Sport Club, formado por ingleses, sempre na praça Floriano Peixoto e depois no campo do Bosque, onde hoje está o Bosque Clube, na av. Constantino Nery, então pertencente aos ingleses. Somente a partir de 1909 é que a cobertura da imprensa se ampliou após o surgimento de vários times de futebol. Os jornais anunciavam os nomes dos novos clubes, a eleição das diretorias, a reunião dos sócios, os locais de treinos, os dias de jogos, a escalação dos times e os horários de saída dos bondes rumo aos campos onde aconteceriam os jogos, fosse na Cachoeirinha ou no Bosque.

Campeões na Grande Guerra
1914 marca datas históricas para o futebol amazonense. Em janeiro foi fundada a Liga Amazonense de Foot-ball e no mês seguinte aconteceu o 1º Campeonato Amazonense de Futebol, com os jogos sendo realizados no campo do Bosque e 12 times disputando o título (incluindo aí Nacional e Rio Negro). A Taça Gordon, que coube ao vencedor, existe até hoje, em Manaus, nas mãos de um pesquisador da história do futebol. O mais curioso de toda essa história é que a final do campeonato aconteceu no dia 14 de junho de 1914 entre o Nacional e o Manáos Athletic, este, formado por ingleses. Cem anos depois, exatamente no dia 14 de junho de 2014, a Inglaterra jogou em Manaus, pela Copa do Mundo, porém, perdeu por 2 x 1 para a Itália. 100 anos antes o Manáos Athletic ganhara do Nacional por 3 x 2 se tornando o primeiro campeão amazonense de futebol. O troféu do campeão só seria entregue numa festa, em dezembro daquele ano, mas vários dos jogadores ingleses já estavam longe, lutando contra a Alemanha, na I Guerra Mundial.

Ele voltou
Com certeza o mineiro de Uberlândia Aderbal Lana foi o técnico que mais alto alçou o futebol amazonense quando, à frente do Nacional, em 1986, fez o clube vencer importantes partidas contra times brasileiros. Em 1997, comandando o São Raimundo, Lana fez bonito com o Tufão da Colina na Série B do Brasileirão. “E 70% daquele time era formado por jogadores amazonenses”, afirmou. Lana chegou a Manaus em 1985, foi embora em 1990, voltou em 1997, foi embora novamente em 2003 e retornou, em definitivo, em 2006. “Gosto daqui e não pretendo mais sair de Manaus. Sou mais amazonense que mineiro”, disse.

Lana diz saber a fórmula pra o futeboil ser bem sucedido no Estado, mas também aponta as barreiras. “Precisamos de paz e tranquilidade para que as coisas funcionem, ocorre que no futebol daqui há uma ingerência de diretores que prejudica bastante, depois temos uma Federação que não ajuda em nada e os empresários, com raríssimas exceções, não têm coragem de investir nos times locais, resultado: temos que trabalhar com jogadores de fora, cujo custo é mais barato, porém, não rendem o que esperamos”, reclamou.

Criar escolas de base e dar continuidade a esses trabalhos seria uma das soluções, afirma Lana. “Queremos trabalhar com os garotos locais, mas como não é feito um trabalho em sequência com eles, o seu futebol fica limitado, mas sempre tem alguns que se destacam”, falou o treinador que já atuou no futebol árabe e em outros times brasileiros. Por aqui já circulou pelo Rio Negro, Peñarol, Princesa do Solimões e, ano passado estava novamente no Rio Negro. “Ainda estou em forma e pronto pra contribuir com o futebol amazonense”, completou já pensando no campeonato amazonense 2017, que começa em março.

Lana será o técnico do Nacional. “Estou satisfeito com o novo time do Naça. O presidente está com pensamentos avançados, tanto que até contratou um gestor de fora para organizar o time. Se todos os presidentes agirem assim, o nosso futebol vai alavancar. No próximo dia 29 faremos nosso primeiro jogo, contra o Galvez, do Acre, pela Copa Verde. Torço para que seja o começo de uma nova e boa era para o futebol amazonense”, previu.

Paixão pelo Olímpico
O jornalista e apresentador Eduardo Monteiro de Paula, o Dudu, é um desses comunicadores apaixonado por futebol ‘desde sempre’, mas que tem seu time de paixão. o Olímpico. “Minha família morava perto do Parque Amazonense e todo jogo do Olímpico eu estava lá, assistindo. Quando tocava o Hino Nacional os policiais ficavam em posição de sentido e eu e meus colegas aproveitávamos pra pular o muro. Lá aprendi muitos esportes, então ele ficou marcado no meu coração. Você torcer por determinado time não tem explicação. Você é apaixonado, ele ganhando ou perdendo. Fica com raiva quando ele perde, mas volta a amá-lo quando ele ganha”, riu.

Sobre os novos tempos e o declínio no esporte, Dudu comenta. “Não diria que nosso futebol está ficando pior. Está ficando, sim, menos conhecido. Nós não temos dirigentes profissionais. Esse é o problema. Temos pessoas que gostam de futebol e mantém os times. Profissional é aquele que investe nos garotos, sabendo que, no futuro, eles farão um time vencedor, e investe em bons jogadores hoje”, ensinou.

Dudu listou vários jogadores de renome nacional que passaram pelo futebol manauara, principalmente entre as décadas de 1970 e 1980, alguns em final de carreira, outros ainda desconhecidos: Danilo, Denilson, Parada, Ângelo, Luiz Florêncio, Josimar, Reinaldo, Dadá Maravilha, Paulo Isidoro, Clodoaldo e Jairzinho. Estes seis últimos jogaram até na Seleção Brasileira.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar