Acará-bandeira, preferido dos aquaristas

Em: 28 de junho de 2023

Estudo realizado pelo doutor em Biologia de Água Doce e Pesca Interior, Danniel Rocha Bevilaqua, pesquisador do Ifam (Instituto Federal do Amazonas), campus de Manacapuru, conseguiu adaptar o acará-bandeira (Pterophyllum scalare) para a aquaponia ornamental em ambiente fechado (indoor) ou sistema de recirculação fechada, método de produção em que a água é continuamente tratada e reutilizada, diminuindo a sua quantidade em um ciclo produtivo. A pesquisa atende a cinco ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), da ONU, e recebeu apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas).

A aquaponia permite a integração entre duas práticas: a aquicultura convencional (criação de organismos aquáticos tais como peixes, lagostas e camarões) e a hidroponia (cultivo de plantas em água), onde ocorre uma verdadeira simbiose entre as espécies. Segundo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias), essa técnica utilizada no estudo pode economizar até 90% de água, em relação à agricultura convencional. Em entrevista ao Jornal do Commercio, Danniel falou mais sobre esse seu trabalho.

Jornal do Commercio: Explique o objetivo de sua pesquisa e por que escolheu especificamente o acará-bandeira? 

Danniel Bevilaqua: Busquei desenvolver e transferir a tecnologia aplicada no sistema de aquaponia ornamental como forma de atender as ODSs da agenda 2030 da ONU. A espécie escolhida tem mercado sólido e potencial para a piscicultura ornamental.
  

JC: O acará-bandeira é amazônico? 

DB: Sim. O acará-bandeira é um dos peixes brasileiro preferidos pelos aquaristas iniciantes. Pertence à família Cichlidae, que reúne peixes de corpo achatado lateralmente, uma narina em cada lado da cabeça e dentes nas duas mandíbulas e faringe; o intestino, ao contrário de outros peixes, se conecta ao estômago pelo lado esquerdo. Pertence ao gênero Pterophyllum spp., que significa ‘em forma de folha’. Este gênero é composto por três espécies: P.altum, P.leopoldi e P.scalare. Em natureza, a variedade selvagem do P. scalare apresenta coloração acinzentada, que contrasta com listras verticais pretas ao longo do corpo e parte do olho vermelho. Habita regiões do alto e baixo Amazonas, Tocantins-Xingu, Guiana e Orinoco-Negro, que compreende países como o Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

JC: Alguém está criando acarás-bandeira em viveiros?

DB: Não. Apesar de ser um peixe amazônico, atualmente não existe produção em viveiros desta espécie na nossa região com os criadores comerciais estando concentrados no Sudeste e Sul, em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná.

JC: O acará-bandeira é parente do acará-disco, bastante conhecido por quem tem aquários e dá nome a um grupo folclórico de Barcelos? 

DB: Taxonomicamente as espécies acará-bandeira (gênero: Pterophyllum) e acará-disco (gênero: Symphysodon) pertencem à mesma família (Cichlidae) e mesma ordem (Perciformes).

JC: O sr. pretende realizar pesquisas com outras espécies para aquários? 

DB: Sim, com o próprio acará-disco, corydoras, e cardinal, que também dá nome a um grupo folclórico, em Barcelos.

JC: De que forma sua pesquisa atende aos cinco ODSs (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), da ONU? Como serão úteis para a sociedade? 

DB: Considerando a agenda 2030 da ONU, está sendo possível subsidiar alguns ODS’s que impactam diretamente a sociedade: 1 – Erradicação da pobreza: transferindo tecnologia para melhoria da qualidade de vida das pessoas; 2 – Fome zero: produção de hortaliças para consumo e comércio; 8 – Emprego digno e desenvolvimento econômico: gerar alimento (hortaliças) e peixes ornamentais para venda no comércio consumidor; 12 – Consumo e Produção Responsável: uso consciente de água, sem uso de agrotóxicos e espaço mais reduzido no sistema de recirculação de água para a produção de peixes ornamentais e hortaliças na aquaponia; 13 – Combate às alterações climáticas: sem necessidade de desmatamento, com pouco uso de água.

JC: A integração da aquicultura convencional com a hidroponia é uma novidade? Como isso se dá? 

DB: A aquaponia é uma tecnologia milenar, que foi amplamente utilizada pelos astecas e babilônios para produção de alimentos de origem animal e vegetal em seus jardins flutuantes, denominados Chinampas. Atualmente, o nome da tecnologia é derivado da combinação das palavras aquicultura e hidroponia, para produzir, principalmente peixes e vegetais hidropônicos num mesmo ambiente.
  

JC: Que informações o senhor passaria para alguém que queira investir na produção de peixes ornamentais em viveiros?  

DB: É um mercado sólido tanto interno quanto externo, pouco investimento inicial, possibilidade de expansão e diversificação na cadeia produtiva.

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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