Agronegócio perde R$ 80 milhões com enchente

Em: 6 de julho de 2009
A economia amazonense do setor primário foi severamente castigada pela enchente já que encerrou o primeiro semestre com balanço de perdas calculadas em pelo menos R$ 80 milhões
A economia amazonense do setor primário foi severamente castigada pela enchente já que encerrou o primeiro semestre com balanço de perdas calculadas em pelo menos R$ 80 milhões

A economia amazonense do setor primário foi severamente castigada pela enchente já que encerrou o primeiro semestre com balanço de perdas calculadas em pelo menos R$ 80 milhões, seja pela ausência de investimentos no setor primário previstos para o período ou mesmo por conta da perda de safras inteiras e transporte de rebanho. Apesar disso, o Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas) calculou que o produto regional nas 66 unidades locais abrangidas pelo órgão pode crescer 3,8% sobre o ano anterior, resultado de avanços na demanda de 6,7% na indústria e 4,6% nos serviços e de um recuo já calculado em 8,4% na agropecuária.
Entre os setores impactados pelo recuo da produção, o diretor-técnico do Idam, José Ramonilson Gomes, apontou que os laticínios e as fecularias, mais especificamente as casas de farinha, foram os mais atingidos pela cheia do rio, o que levou o Instituto à revisão para baixo da estimativa de crescimento. Segundo o executivo, o eixo de atividade leiteira do Estado (Careiro da Várzea, Autazes e Apuí), sobre o qual se estimava uma produção inicial de 51 milhões de litros, volume aproximadamente 22% maior que o ano passado, já foi afetado com perdas de pelo menos 40% desse total. “A água invadiu a várzea, forçando o transporte do gado para as regiões de terra firme, enfraquecendo o rebanho. Por isso, é certo que o laticínio amazonense vai produzir pouco mais de 20 milhões de litros de leite”, revelou.

Produção de leite cresce a 41,6%

Apesar de revisada a estimativa de produção, dados do Idam apontaram que, nos últimos cinco anos, a taxa de crescimento da produção de leite da região Norte é a que mais tem aumentado no país. No ritmo da produção leiteira, de acordo com o órgão, o Amazonas deu exemplo de como serão as novas regras do mercado consumidor local na década. Entre 2003 e 2005, essa taxa de produção que era de 41,6% teve um salto de 122,7% até o último triênio, fruto da alta demanda do amazonense por leite in natura local.
Ainda assim, o presidente da Associação de Produtores Leiteiros de Autazes, Joselito Sampaio, afirmou que o consumo dos maiores municípios é responsável por maciças importações de produtos lácteos (leite em pó, leite esterilizado, queijos, manteiga, iogurtes e outros), por falhas nos circuitos locais de abastecimento. Na avaliação do produtor rural, assim como acontece em toda a região Norte, uma das principais características do sistema leiteiro desenvolvido na várzea amazonense, onde a atividade é o principal suporte da economia, a produtividade média por vaca gira em torno de 4 a 5 litros por dia, considerada razoável em termos de quantidade e por conta do baixo padrão genético do rebanho. “O problema é que o consumidor manauense prefere os produtos industrializados importados, por duvidar da qualidade do leite in natura e de produtos leiteiros caseiros produzidos na região”, afirmou Sampaio, reconhecendo que a restrição ao produto local não é totalmente infundada, uma vez que é conhecida a falta de higiene na manipulação e a adulteração do leite entre a ordenha e a comercialização em muitos municípios.
Costa explicou que a consolidação de uma bacia leiteira pode proporcionar uma série de melhorias para a qualidade de vida das famílias ribeirinhas, como manutenção das estradas, facilidade de transporte, acesso à saúde e educação, consolidação dos comércios locais, emergências de pequenos núcleos urbanos, valorização da terra e fixação das famílias no campo. Segundo o especialista, a produção leiteira possibilita o sistema associativo, por meio da organização da comercialização do leite e derivados, do acesso a insumos, e programas de melhoramento genético do rebanho e de treinamentos dos produtores, especialmente sobre a qualidade da produção. “A chegada do verão vai facilitar a retomada dos investimentos na pecuária e na agricultura. É fato que a maioria das associações de produtores não quer tomar empréstimos maiores que R$ 100 mil por medo que o nível das águas não baixe o suficiente a tempo de quitarem dívidas anteriores”, explicou.
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que, pelas condições extensivas de produção e o potencial forrageiro das pastagens no Amazonas, o custo de produção do leite é dos mais baixos do Brasil, chegando a US$ 0.08 por litro.

Fecularias atingidas

A fecularia foi outro segmento também fortemente impactado pelo nível das águas acima do esperado. Segundo o diretor-técnico do Idam, José Ramonilson Gomes, a queda na produção de farinha de mandioca vai efetivar a manutenção da tendência de alta do produto no mercado local e impactar diretamente no preço final da cesta básica do amazonense, atualmente calculada em R$ 292,11 e por isso considerada pela Abras (Associação Brasileira de Supermercados) como a segunda mais cara do país.
Embora tenha preferido não estimar o volume de perdas dos produtores rurais de farinha de mandioca e derivados, Ramonilson disse que em termos de produção de fécula in natura, o Amazonas terá um ganho considerável na quantidade industrializada. O executivo revelou em primeira mão ao Jornal do Commercio que o Estado, através da Sepror (Secretaria de Estado da Produção Rural) e do Idam, deve inaugurar até a primeira metade do mês de agosto deste ano a Indústria de Fécula do Amazonas para atender o consumo das indústrias do PIM (Polo Industrial de Manaus). “Só a demanda mensal das fábricas de placas de circuito impresso instaladas em Manaus exige uma produção de 100 toneladas. A produção da nova fábrica vai começar após a descida das águas, mas ainda teremos de comprar a raiz em outras regiões do entorno por conta da perda na safra do primeiro semestre”, revelou.

Faltam investimentos em Manaquiri e Careiro

Segundo o IBGE, o país produz quase 23 milhões de toneladas de mandioca, 50% das quais são consumidas in natura; 30% como farinha dos mais variados tipos e formas; e 20% sob a forma de amido (fécula) natural ou modificado, de largo emprego na produção de alimentos e insumo nas indústrias química, têxtil e farmacêutica. O Amazonas é apontado pela entidade como o 7º maior produtor da raiz com um total de 96 mil de toneladas por ano. “É preciso, no entanto, que haja investimentos aos produtores do Manaquiri e Careiro para que seja produzida mandioca em quantidade suficiente para suprir a demanda da usina”, alertou Ramonilson Gomes.
O presidente da Câmara Setorial de Mandioca da Fetagri (Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura do Estado do Amazonas), José Reynaldo de Bastos Silva, afirmou que a forma mais correta para incentivar a produção de fécula é investir na cadeia produtiva local, carente de microcréditos. O dirigente asseverou que a obrigatoriedade da adição pode multiplicar os negócios, economizar divisas para o Amazonas, recuperar preços e gerar empregos no interior. “Essa nova indústria de fécula vai gerar ainda neste ano, entre diretos e indiretos, mais de 10 mil empregos nas regiões polos de produção de mandioca. Porém, só a permissão passiva da mistura não resolverá nossos problemas. Tudo dependerá da capacidade do setor de se organizar politicamente”, asseverou.

Fruticultura se destaca

Mas a surpresa maior ainda está a caminho, segundo Ramonilson, que revelou a expectativa para o segundo semestre como o grande trunfo do setor primário local, a fruticultura, do qual se tem perspectivas de fechamento de safras recordes no plantio da laranja (257,60 milhões de unidades), limão (36 milhões de unidades) e tangerina (5,5 milhões de frutos). “Tivemos seguramente a colheita de 40% desse total ainda neste primeiro semestre, mas o pico da safra da citricultura vai acontecer entre julho e outubro”, disse o executivo, destacando também que a abacaxicultura, com a produção de 18,5 milhões de frutos nos seis primeiros meses foi outra vedete desse avanço econômico no setor agrícola este ano.

Crescimento da castanha

Por outro lado, a despeito do desempenho abaixo do esperado no segmento de laticínios, a produção de castanha-do-brasil segue a pleno vapor. Tanto é que a projeção do Idam é de um faturamento 40% maior que a colheita do ano passado com a produção do fruto no interior do Estado. Em 2008, a receita extrativista foi de aproximadamente R$ 3 milhões. Para 2009, é esperado um montante de R$ 5,2 milhões no faturamento do setor.

Extrativismo ganha força com incentivo à castanha

O novo fôlego do setor extrativista neste ano, tanto na receita quanto na produção, será resultado da criação do GTC (Grupo de Trabalho da Castanha), que visa incentivar as atividades relacionadas à plantação e colheita do fruto no Estado. No entendimento do diretor-presidente do Idam, Edson Barcelos, a criação do grupo também deve impulsionar as atividades relacionadas à castanha no Estado, superando a produção do ano passado que foi, contabilizando somente os municípios de Amaturá, Boca do Acre, Beruri, Lábrea e Manicoré, maiores produtores da fruta no Amazonas, algo em torno de 1,3 mil toneladas. “Com os recursos que devem ser destinados à produção da fruta e a atuação do GT da Castanha nas localidades produtoras, o faturamento dos municípios deve acompanhar o desempenho produtivo nos municípios e obter elevação de receita”, afirmou.

Debater estrutura

Na avaliação de Barcelos, a criação do grupo servirá para discutir a estrutura de gestão e funcionamento das ações intersetoriais relacionadas à melhoria da cadeia de valor da castanha no Amazonas. Conforme o diretor-presidente, o GT também visa incentivar a criação de cooperativas, associações e a instalação de novas usinas de beneficiamento em potenciais centros produtores de castanha. “O grupo foi criado para discutir os gargalos enfrentados pelas pessoas que trabalham na produção da castanha, e também para prospectar mercados para a expansão de negócios”, observou o executivo, ao informar que atualmente 1,5 mil famílias trabalham na plantação e colheita da fruta nos municípios produtores.
Sobre as novidades no setor, o coordenador do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Florestal do Idam, Sérgio Gonçalves, afirmou que a criação GT da Castanha será um grande influenciador para o desenvolvimento da produção e fortalecimento da cultura da fruta no Estado. O especialista ressaltou que, no decorrer deste ano, serão construídas mais oito usinas de beneficiamento de castanha em solo amazonense. “Após resultado de estudo, que deverá apontar os municípios que são potenciais produtores de castanha-do-brasil, usinas de beneficiamento deverão ser instaladas nas localidades”, observou o coordenador, enfatizando que o custo para construção de uma usina desse porte pode demandar investimentos superiores a R$ 600 mil.
Ainda de acordo com informações do Idam, todos os maiores produtores de castanha amazônica já possuem usinas de beneficiamento. Além disso, a usina de Lábrea, apontada como a de maior capacidade produtiva, já está em fase de teste para entrar em atividade definitiva no segundo semestre.

Segmento de borracha

A redução das chuvas, marco da vazante iniciada na primeira semana deste mês, estava sendo esperada com ansiedade pelo setor extrativista de borracha que espera ampliar a extensão de área plantada em pelo menos 1,5 mil hectares até dezembro. Pelo menos, segundo o presidente do Conselho Nacional de Seringueiros, Manoel Cunha, que assegurou que o cultivo da borracha no Amazonas vem obtendo resultados positivos, embora questões relacionadas ao transporte, armazenamento, beneficiamento e comercialização ainda necessitem ser resolvidas.
Cunha ressaltou, ainda, que menos de 30% dos seringais do Amazonas são aproveitados do ponto de vista comercial, o que representa uma perda substancial de capacidade produtiva. “Além de tudo isso, temos que atentar para o fato de que uns 70% dos nossos seringais não estão sendo beneficiados. Se isso se reverter, nossa produção vai aumentar com certeza”, avaliou.
Sobre o panorama do setor, Cunha disse que os seringueiros reivindicam melhorias das condições de comercialização, apoio para abertura das estradas de seringueiros, distribuição de materiais para extração (tigelas, facas e baldes) e também recursos para garantir o pagamento pelas cooperativas no momento da entrega do produto. “No Amazonas, como forma de subsídio e incentivo à produção, o governo paga às cooperativas R$ 0,70 por quilo de borracha produzido. O benefício é ainda maior para os produtores de Apuí, Lábrea e Pauini, onde as prefeituras também concedem benefício, variando entre R$ 0,30 a R$ 0,70. O problema é que esse valor é muito baixo, se comparado ao de outros Estados”, revelou.
Dos seringais amazonenses é extraída a quarta maior produção de borracha do país, algo em torno de 60 mil toneladas por ano. Segundo dados do CIF (Centro de Inteligências em Florestas), mesmo se duplicada a produção atual dos quatro maiores Estados produtores, o volume ainda seria insuficiente para atender o mercado interno, cuja demanda é de pelo menos 300 mil toneladas. A rentabilidade da borracha, ainda de acordo com o CIF, é de US$ 1,500 por hectare/ano.

Recursos à safra

A última grande notícia para o setor primário veio de um velho parceiro dos produtores. A direção do Banco do Brasil confirmou no último fim de semana que haverá grande incremento nos recursos para a próxima safra. A estimativa é de que os valores em relação ao ano passado cresçam mais de 30%, além de serem criados dispositivos para facilitar os repasses. O pacote do governo federal prevê investir na produção mais de R$ 32 bilhões. Outro avanço, foi o anúncio do Ministério da Fazenda sobre a criação de um fundo garantidor de crédito de R$ 4 bilhões para a compra de máquinas e implementos agrícolas e outro fundo de R$ 1 bilhão para armazenagem. Essas medidas devem recolocar no mercado produtores que estão em dificuldade para acessar a créditos e que são compradores em potencial, o que deve aquecer definitivamente os negócios no setor com a descida das águas.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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