Alta dos juros pode prejudicar construção civil

Em: 25 de julho de 2008
Representantes ligados ao setor prevêem um desaquecimento que pode chegar a até 20% no ritmo de procura e de aquisição de imóveis
Representantes ligados ao setor prevêem um desaquecimento que pode chegar a até 20% no ritmo de procura e de aquisição de imóveis

A elevação de 0,75 ponto percentual da taxa básica de juros imposta pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) na última semana pode frear a expansão dos negócios ligados à construção civil no Amazonas já a partir do segundo semestre.
A opinião da maioria dos representantes ligados ao setor converge para o desaquecimento de até 20% no ritmo de procura e aquisição de imóveis.
No compasso de uma decisão acordada pela categoria em nível nacional, o presidente do Sinduscon-AM (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado do Amazonas), Joaquim Auzier, disse que a elevação dos juros vai na contramão do desenvolvimento de uma das atividades que mais cresceram nos últimos três anos no Estado. O executivo frisou que, tendo em vista a conjuntura de aceleração do crédito e expansão do gasto privado, não é recomendável o aumento do gasto público acima do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). “O problema é a aceleração do gasto, mas não o gasto propriamente dito. Essa atual taxa de juros é uma aberração”, assinalou.
Auzier explicou ainda que a melhor alternativa a um regime de metas de inflação seria coordenar as políticas monetária e fiscal, o que abriria novas possibilidades de negócios para o setor da construção ainda este ano. “O pretexto do gasto público em alta serviu para o Copom elevar os juros, que têm impacto na própria dívida pública. Mas podemos argumentar que o aumento da arrecadação (acima da inflação e do PIB) permite um superávit fiscal suficiente para baixar juros mais rápido”, asseverou.
O presidente do Sinduscon-SP, João Cláudio Robusti, disse que a elevação em 0,75 ponto percentual é um exagero que vai retardar o crescimento econômico e desestimular a produção. Em nota, o executivo afirmou que o governo poderia ter mantido a taxa básica, que já está elevada em 12,25%, e intensificar o esforço de cortar despesas correntes para investir no aumento da produção. “No caso da construção civil, o novo aumento da taxa de juros poderá comprometer pouco o desempenho neste ano, mesmo que o setor já esteja com obras contratadas. Mas compromete nossas projeções de crescimento para 2009. Daqui para diante, o governo deveria interromper de vez a trajetória ascendente dos juros, estimular a produção, além de elevar a oferta e baixar alíquotas de importação, quando fosse o caso”, criticou.
O descontentamento é generalizado, alcançando até mesmo setores secundários da construção civil, que prevêem queda de 20% no faturamento e estagnação no segundo semestre, apesar do ceticismo de entidades, como Crea-AM (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Amazonas) e Cieam (Centro das Indústrias do Estado do Amazonas), que questionaram o alcance dos impactos negativos na expansão de negócios na capital.
O presidente do Crea-AM, Afonso Lins Júnior, disse que o mercado local está aquecido o suficiente para não ser abalado pela alta dos juros e lembrou os investimentos das construtoras na diversificação dos estilos oferecidos, algo que deve manter a demanda por imóveis na capital.
“Apesar de sabermos que o cliente final vai sentir no bolso as prestações do imóvel adquirido ou financiado, somos mais otimistas em relação à nova carga de juros, acreditando que ela não afetará em curto ou médio prazo a procura por novos financiamentos em Manaus”, assinalou.
A mesma opinião foi interpretada pela presidente do Sindicato das Indústrias de Olaria e Porcelana do Estado do Amazonas, Irlene Batalha, para quem a demanda das construtoras até novembro deve se manter no mesmo patamar de crescimento observado na primeira metade do ano.
“A maioria dos empresários acha que o ajuste virá porque a base de comparação é mais elevada”, comentou a dirigente

Olarias crescem 5%

Irlene ainda acredita que o ajuste se dá em razão da influência de inflação e juros mais elevados.
“Entretanto, nosso setor acredita que se a indústria da construção civil vertical se retrair, o setor horizontal vai assegurar demanda suficiente para a produção”, analisou.
As olarias no primeiro semestre fecharam com volume médio de aproximadamente 5,82 milhões de unidades produzidas por semana, praticamente 5% a mais que a estimativa inicial e traçam metas de incremento entre 30% e 40% de expansão na segunda metade do ano.
Em nota, o presidente do Cieam, Maurício Loureiro, analisou que a inflação existente hoje no Brasil é inspirada pelo crescimento da demanda interna, influenciada principalmente pela elevação da renda média dos brasileiros nos últimos anos.
No entendimento do executivo, outra prática que fez a demanda crescer foi o excesso de crédito no mercado que atingiu vários setores da economia de um modo geral, através de financiamentos de médio e longo prazo bastante fartos. “Tal facilidade gerou demanda aos produtos em virtude do não crescimento da renda. Por isso, a decisão do Banco Central nos parece acertada, vez que o descontrole da inflação e sua influência sobre a economia nacional poderá gerar um caos bem maior”, ressaltou em nota.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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