A desocupação e a informalidade seguem em alta no Amazonas. A quantidade de amazonenses na fila do desemprego subiu no primeiro trimestre de 2023, sob o impacto da sazonalidade e das incertezas do começo do ano. A taxa de desocupação passou de 10% (196 mil pessoas) para 10,5% (200 mil), embora tenha ficado abaixo do mesmo período de 2022 (13% e 256 mil). O Estado voltou a apresentar índice de pessoas buscando emprego maior do que o da média nacional (8,8%) –que também avançou. Manaus (12,8% e 144 mil) teve números ainda piores a aparece com o menor rendimento médio do país.
A proporção de amazonenses trabalhando sem carteira assinada retomou alta e já soma 974 mil pessoas. A taxa de informalidade passou de 57% para 57,2%, na virada trimestral, mas também ficou menor do que a do mesmo período de 2022 (58,1%). O problema segue estrutural e levou o Estado a subir da terceira para a segunda colocação do ranking. Perdeu apenas para o Pará (59,6%) e já ultrapassou o Maranhão (56,5%), sendo que Santa Catarina (26,1%) e Distrito Federal (30,3%) ficaram no outro extremo.
Com isso, o nível de ocupação caiu de 56,2% (1,76 milhão) para 54,2% (1,70 milhão) da população amazonense apta ao trabalho, ficando 3,3% menor na virada trimestral. Também ficou 0,5% abaixo do mesmo período de 2022 (55,3% e 1,71 milhão). A retração foi uma realidade na maior parte dos setores, especialmente na agropecuária e administração pública. Apenas algumas atividades de serviços conseguiram avançar nas contratações. É o que revelam os dados mais recentes da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Trimestral, calculados e divulgados pelo IBGE.
A taxa de desocupação cresceu em 16 unidades federativas e em todas as regiões –com destaque para o Nordeste (+12,2%). Apontado como uma das localidades estatisticamente “estáveis”, o Amazonas desceu da 12ª para a 11ª posição no ranking. Bahia (14,4%) e Rondônia (3,2%) ficaram nos extremos. Entre as capitais, Manaus apresentou a terceira maior fila proporcional de desemprego, ficando atrás apenas de Salvador/BA (16,7%) e Recife/PE (15%). O menor número veio de Campo Grande/MS (3,4%).
Atividades e rendimentos
No primeiro trimestre de 2023, o Estado contava com 3,14 milhões habitantes com 14 anos ou mais –idade apontada pelo IBGE como apta ao trabalho –, em uma população total estimada em 4,39 milhões. O número de pessoas que estava trabalhando ou buscando emprego era de 1,90 milhão, uma quantidade abaixo das apresentadas no trimestre anterior e um ano atrás (1,96 milhão, em ambos os casos). A quantidade de amazonenses fora da força de trabalho foi de 1,24 milhão, e também aumentou nas duas comparações.
A maioria dos empregados atuava no setor privado (621 mil), mas apenas 397 mil estavam formalizados. A falta de carteira assinada era ainda mais comum entre trabalhadores domésticos: 62 mil entre 71 mil estavam nessa situação. Em torno de 250 mil pessoas atuavam no setor público, com apenas 11.000 contando com registro celetista, enquanto 149 mil eram militares ou funcionários estatutários. A quantidade de trabalhadores por conta própria (553 mil) caiu em todas as comparações e os empregadores (53 mil) estagnaram. Em ambos os casos, a falta de CNPJ foi a regra predominante.
O grupo que reúne comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas (337 mil) se manteve como o setor que mais empregou, mesmo encolhendo 2,2% na base trimestral. Foi seguido pelos serviços de administração pública, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (302 mil), pelas atividades de agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (293 mil), pela “indústria geral” (204 mil) e pela construção (100 mil). Os saldos positivos de contratações se restringiram ao grupo que reúne os segmentos de informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas (147 mil) e aos serviços domésticos (71 mil), com acréscimos trimestrais respetivos de 13% e 2%.
O “rendimento médio real” dos trabalhadores do Amazonas foi de R$ 2.113, ficando 1,40% abaixo do número capturado no trimestre anterior, mas 4,4% superior ao registro do primeiro trimestre de 2022. Manaus ficou acima dessa média (R$ 2.492), mas aparece com o menor número entre as capitais – e bem distante do líder do ranking, Florianópolis/R$ 5.333). Já a massa de rendimentos – que reflete o quanto os salários brutos dos trabalhadores contribuíram para a economia local – alcançou R$ 3,30 bilhões, ficando aquém dos três meses anteriores (R$ 3,42 bilhões) e estável na análise anual.
“Baixa qualificação”
De acordo com o supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, a taxa de desocupação do Amazonas teve “leve variação” trimestral e, embora considerada estatisticamente estável, impactou outros indicadores da Pnad Trimestral. “Embora o número de pessoas desocupadas praticamente não tenha sido alterado, a diminuição dos ocupados entre os dois últimos trimestres foi a principal influência para o aumento da desocupação”, comparou.
O pesquisador salientou que é comum haver aumento sazonal de desocupação no primeiro trimestre, refletindo o desligamento de empregados temporários contratados no fim do ano anterior, entre outros fatores. “Isso também ocorre com os trabalhadores da administração pública, o que causa maior pressão sobre o mercado de trabalho”, comentou, acrescentando que a perda de postos de trabalho elevou o índice de informalidade e reduziu a massa de rendimentos do trabalho no Amazonas.
Em texto veiculado pelo site da Agência de Notícias IBGE, a analista da pesquisa, Alessandra Brito, reforçou que o trabalho informal traz menos garantias e é menos estável. “Esse tipo de inserção torna o trabalhador mais suscetível à instabilidade no mercado de trabalho, sobretudo em momentos de crise, como foi a pandemia. Regiões onde o trabalho informal tem mais peso tendem a apresentar taxas de desocupação mais altas”, avaliou.
A ex-vice-presidente do Corecon-AM, e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, aponta fatores estruturais, ao ressaltar que o Amazonas já figura “historicamente” como um dos Estados com maiores taxas de desocupação e de informalidade, em razão da baixa escolaridade e qualificação da mão de obra. “Essa realidade não é prerrogativa do Amazonas, e afeta as regiões Norte e Nordeste. Se não houver uma política pública direcionada para a melhoria da qualificação e geração de oportunidades, teremos percentuais ainda mais elevados no futuro”, alertou.
Indagada sobre a restrição da geração de empregos a algumas atividades de serviços, a economista avalia que é “um período de baixa, que será superado em breve”. Já o fato de os números de Manaus serem piores do que o Estado estaria ligado ao êxodo do interior, contribuindo para que a procura por emprego seja maior na capital. “E isso tem acontecido há algum tempo. É um movimento recorrente”, concluiu.






