A classe média baixa é a responsável por manter o nível da atividade econômica no Amazonas, apesar das dificuldades e barreiras encontradas pelos trabalhadores para conseguir o primeiro emprego e se manter no mercado. A constatação, feita por representantes setoriais do trabalho e renda, apontou ainda que um dos caminhos para combater os índices alarmantes de desemprego no Estado está na implantação de uma política de pleno emprego, que propicie condições para reduzir a seletividade na escolha da mão-de-obra local.
Na discussão sobre o papel exercido por essa classe média baixa amazonense diante do atual quadro de empregabilidade e insegurança econômica, o sociólogo e diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, José Dinardo Barros, afirmou que o Dia do Trabalho serve para reflexão das diferenças entre emprego e política de pleno emprego, onde a ausência de qualificação é o principal problema para a inserção dos profissionais das classes C e D (famílias com renda entre R$ 1.500 e R$ 4.500). Citando dados da evolução de emprego e renda no Estado, o sindicalista assegurou que dos jovens amazonenses entre 15 e 24 anos provenientes dessa classe, 27%, quase um terço, estão desempregados ou simplesmente não estudam. “E não adianta fazer um programa especial como o ‘Primeiro Emprego’, porque isso não funcionou em Manaus.
O fato é que essa situação de baixa inserção no mercado de trabalho é sem precedentes, por conta da alta seletividade para atividades simples, a pior crise social da nossa história”, reconheceu.
Dinardo Barros asseverou ainda que o Amazonas atravessa um momento delicado, no qual a instabilidade econômica aterroriza com milhares de demissões, contratos temporários e suspensão de contratos de trabalho. Segundo o diretor metalúrgico, criou-se um cenário de incertezas para os trabalhadores dessas classes sociais, o que fez os sindicatos filiados ficarem a postos para cobrar dos governantes a redução drástica dos juros, dos impostos, a estabilidade e a criação de novos empregos. “Eles são os que mais compram e os que mais gastam no comércio local, por isso se algo vai mal para eles, todo um setor segue pelo mesmo ralo”, considerou.
O alerta do sindicalista tem fundamento se observado sob a ótica da análise do economista Guttemberg de Sá, professor doutor do curso de Administração das Faculdades Integradas Rio Branco, segundo o qual essa classe média baixa emergente é quem está mantendo o nível das atividades econômicas de certa forma sustentável no Amazonas, evitando uma recessão como ocorre em várias regiões industriais do país.
Em nota, o professor ressaltou a importância do trabalho e renda para essa classe média. “O eixo dinâmico, portanto, de nossa economia nesses tempos de crise econômica vem a ser os produtos voltados para a classe média manauense que não dependem das oscilações do mercado externo.
Está previsto para janeiro de 2010 que o salário mínimo irá para R$ 506, já anunciado pelo governo. Isso terá um impacto muito grande no consumo dessas famílias C e D, que ampliarão ainda mais as compras de bens e de serviços”.
Estudiosos chamam a atenção para o problema
Existe algo que emperra ainda mais a evolução do emprego entre os jovens dessas classes sociais. Estudiosos do mercado de trabalho chamam a atenção para o fato de que a seletividade é um princípio da composição relativa ou diferencial das populações desempregadas. Na realidade, afirmam a seletividade como um elemento inerente ao desemprego, ou seja, havendo desemprego, haverá grupos preteridos.
Tal característica pode variar quanto a sua intensidade, segundo a demanda geral por trabalhadores, por características sociais ou particulares, pela diferenciação a partir de condições individuais ou dos grupos que compõe a mão-de-obra. “Particularmente em momentos de alto desemprego, é possível observar que se acentua a irregularidade na distribuição social dos riscos do mercado de trabalho. Nesse sentido, uma situação de elevado desemprego como a observada atualmente amplia a necessidade de modificações no âmbito das políticas públicas, na medida em que a seletividade do mercado de trabalho se amplifica”, explicou Guttemberg.
Com efeito, a adoção de uma política seletiva de prevenção ao desemprego e de apoio aos desempregados torna-se premente. Entretanto, observando a experiência internacional e os dados sobre desemprego em diferentes nações, torna-se visível o fato de que o comportamento mais ou menos seletivo do mercado de trabalho é condicionado pelo desempenho global da economia, da expansão do emprego e da regulação das relações de trabalho. O principal remédio contra o desemprego e sua seletividade, consiste em manter a demanda por produtos em um nível elevado e permanente, em consequência, uma demanda total de mão-de-obra constantemente ativa. “Uma vez conseguido isso, a adaptação da oferta de mão-de-obra a sua demanda é obtida sem maiores dificuldades através de políticas acessórias dirigidas aos segmentos preferencialmente atingidos pelo desemprego”, finalizou Guttemberg.
O representante do Sine (Sistema Nacional de Empregos), Guilherme Antonio Costa, concordou ser muito oportuna a discussão e a apresentação de propostas e caminhos para superar a crise do desemprego alto e permanente, que tende a sufocar o Estado neste semestre. “A crise social por que passa o trabalhador das classes C e D é tamanha que não é mais possível antever a solução do problema apenas nas mãos de governos, que se sucedem sem alterar, pelo menos, até agora, o drama social do desemprego em sua essência. É preciso que o trabalhador ganhe gosto pela capacitação e acumule conhecimentos”, destacou.
Na opinião da estudante Emília Santana Guedes, o grande problema do primeiro emprego é justamente o número de exigências que as empresas fazem na hora da contratação. “Eles pedem um currículo muito acima do que a gente pode ter por falta de dinheiro ou tempo para estudar. É humanamente impossível fazer três cursos ao mesmo tempo e ter de trabalhar”, finalizou.






