Amazonas “importa” madeira de RO e RR

Em: 29 de outubro de 2014
Cerca de 70% da madeira utilizada no Estado é extraída em Roraima e Rondônia
Cerca de 70% da madeira utilizada no Estado é extraída em Roraima e Rondônia

Uma crise no setor madeireiro ameaça a existência da atividade no Estado. Nos últimos 10 anos 34 empresas fecharam as portas. Atualmente, somente quatro serrarias estão em funcionamento, duas delas em Manaus e as demais nos municípios de Itacoatiara e em Iranduba. Segundo o Sindicato das Indústrias de Madeiras Compensadas e Laminadas no Estado do Amazonas, cerca de 70% da madeira utilizada no Estado é extraída em Roraima e Rondônia.
Dados dos Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, publicado pela Suframa, indicam que, até o mês de agosto deste ano o setor madeireiro teve um faturamento de mais de R$ 33,8 milhões. Enquanto no mesmo período de 2013 esse número foi de mais de R$ 40,7 milhões. A redução foi de -16,8%. Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Madeiras, Moysés Benarrós Israel, esses dados só confirmam o mau andamento do segmento. Ele assegura que se não houvessem tantos empecilhos burocráticos haveria maior chance de o Estado ter melhores resultados na produção madeireira.
“O setor madeireiro sofre um declínio constante na capacidade de participação nos negócios do Amazonas. Isso se deve às inúmeras restrições impostas pelo poder público em nome da conservação florestal”, disse Benarrós. De acordo com o sindicalista, outro gargalo enfrentado pelo setor é a proibição por parte do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e do Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas) quanto ao plantio de mudas denominadas “exóticas”, que são as espécies cultivadas em território externo, fora da floresta amazônica.
Israel comenta que as problemáticas tiveram início em 1985, época em que segundo ele, começaram a surgir as primeiras campanhas ambientais em combate ao desmatamento e extração ilegal de madeira. Mas ele relata que até os dias atuais o problema só aumentou. O presidente conta que na década de 80 a área do Rio Javari, que faz fronteira entre o Brasil e o Peru em uma extensão de 300 quilômetros, registrava 360 mil hectares de plantio de cedro. Com a criação do território indígena, somente 110 mil hectares ficaram sob a posse do Estado e as demais áreas foram entregues aos indígenas.
“O regatão levava mercadorias em troca da madeira extraída por esses trabalhadores. A criação do território indígena chegou com a proibição dessa comercialização. Isso resultou na saída dos ribeirinhos de suas casas para outros municípios próximos, consequentemente houve queda na produção madeireira”, explica. “Sempre lutamos contra essas medidas mas nunca obtivemos resultado positivo. Já protocolamos documentos reivindicatórios no Ibama e no Ipaam, mas sem retorno”, completa.

Exportação
O presidente conta que das quatro serrarias em operação no Estado somente duas atuam por meios de exportação. Mensalmente as duas empresas juntas exportam menos de 200 metros cúbicos, quantidade citada por ele como mínima. As madeiras são enviadas para a França, Itália, China e Canadá.
O presidente do Ipaam, Antonio Ademir Stroski, explica que a exploração legalizada da atividade madeireira ocorre por meio do Plano de Manejo Florestal Sustentável que pode ser dividido em dois tipos de projetos: Plano de Manejo Florestal de Pequena Escala e Plano de Manejo Florestal de Maior Impacto de Colheita.
O modelo de exploração de pequena escala se aplica a pequenos produtores que não utilizam máquinas na exploração florestal e podem explorar até um metro cúbico por hectare por ano. Nesse caso, o Idam (Instituto de Desenvolvimento Agrário do Amazonas) presta assessoramento técnico e o Ipaam licencia.
A atividade florestal de Maior Impacto de Colheita é aquela que utiliza máquinas na exploração e possibilita explorar até 25 metros cúbicos por hectare ao ano, respeitado um ciclo de 25 anos. Para este tipo de empreendimento, o empreendedor deve contratar um engenheiro florestal que vai elaborar o inventário florestal e respectivo Plano de Exploração a serem submetidos ao Ipaam para análise e aprovação da Licença Ambiental.
“Não existem questões burocráticas para o licenciamento ambiental. O fator limitante está em uma situação trabalhada pelo Estado que é a regularização fundiária, requisito para o licenciamento. O instituto tem condições de aumentar significativamente a volumetria de madeira autorizada tanto quanto a regularização fundiária possa evoluir na emissão dos títulos”, afirma o presidente Antonio Stroski.
O presidente chama atenção para o crescimento na volumetria de madeira autorizada por meio de planos de manejo no Estado, no período de 2010 a 2014. Em 2010, o volume anual foi de 189.063,79 m3, passando para 209.043,85 m3 em 2011, evoluindo para 320.193,73 m3 em 2012 e registrando aumento expressivo em 2013 com a marca de 557.721,22 m3. Este ano a volumetria deverá fechar em 700 mil m3.
Quanto à proibição do plantio de mudas exóticas, o motivo é a proteção da biodiversidade florestal e de fauna do Estado.

MDF domina setor madeireiro

O presidente do Sindicato ainda relata que 80% da produção de móveis nacionais tem como base o MDF (Medium-Density Fiberboard), que é um material derivado da madeira. Israel explica que o eucalipto é a madeira que dá origem ao MDF por se tratar de uma matéria-prima fácil de ser esmiuçada e ainda por absorver a cola com facilidade. “O MDF está dominando a indústria de madeiras, só perde para a fabricação de móveis nos modelos antigos”, disse.
Apesar do crescimento na produção em MDF, o Amazonas não apresenta projetos relacionados a esse produto por não ter um plantio local de eucalipto. As plantações dessa espécie estão concentradas na região Sul do Brasil. “Estamos impossibilitados de construir uma fábrica de MDF no Estado porque não podemos plantar esse tipo de muda por ela ser exótica, não faz parte da floresta amazônica. Da mesma forma a espécie teca, que é a mais valiosa mundialmente, também não pode ser trazida para nosso Estado”, declara. Ele conta que trouxe mudas de teca e eucalipto de Goiás e do Peru. As árvores podem ser encontradas na cidade de Itacoatiara e no jardim da Praça da Matriz, no centro da capital.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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