O Amazonas ainda tem a maior proporção de consumidores com contas atrasadas em todo o país. Os dados mais recentes da Serasa Experian mostram que 51,5% da população adulta estava com ao menos uma conta vencida e não paga, em outubro de 2022, o equivalente a mais de 1,49 milhão de pessoas. A média de brasileiros nessa situação foi de 42,6% (69,1 milhões). Ainda assim, os consumidores do Estado, assim como os do conjunto das unidades federativas da região Norte do país, foram os que menos refrearam sua demanda por crédito no mês seguinte, conforme a mesma base de dados.
A quantidade de amazonenses inadimplentes se manteve estatisticamente estável entre setembro e outubro, mas cresceu 2,76% em relação ao mesmo mês do exercício anterior (1,45 milhão). Ainda assim, ficou bem distante do pico anual registrado em junho, quando a quantidade de negativados no Estado chegou próxima à marca de 1,51 milhão de pessoas – patamar superior até mesmo aos números atingidos durante a primeira onda da pandemia. Em contraste, o dado nacional (69,1 milhões) correspondeu ao maior número da série histórica da Serasa Experian, iniciada em março de 2016.
O Indicador de Demanda do Consumidor por Crédito da mesma empresa, por outro lado, mostra queda em todas as regiões brasileiras – e com mais força entre os consumidores de renda mensal inferior a R$ 1.000 mensais. O recuo nacional foi de 3,8%, entre outubro e novembro, com destaque para o Sudeste (-4,5%). No confronto com o mesmo mês de 2021, a queda foi de 16,7%, sendo maior no Centro-Oeste (-22,7%). Os respectivos índices de redução no Norte foram 1,6% e 15,6%. Em 12 meses, a procura permaneceu estável em todo o Brasil (+0,7%), enquanto avançava 6,2% apenas entre os Estados nortistas.
Utilities e valores
A quantidade total de dívidas atrasadas no Amazonas (5,48 milhões) ficou pouco abaixo do dado do mês anterior (5,50 milhões), mas subiu 5,18% diante da marca de um ano atrás (5,21 milhões). O valor global dos débitos (R$ 5,54 bilhões), por outro lado, avançou 0,91% e 6,33%, respectivamente, já descontada a inflação. Em média, cada consumidor amazonense nessa situação possuía 3,67 contas atrasadas e devia R$ 3.706,84, em situação pior do que a de outubro de 2021. O ticket médio por dívida foi de R$ 1.009,63, o maior desde outubro de 2019 ainda no período pré-pandemia.
Com relação à análise por tipo de débito, a Serasa Experian informa que bancos e cartões ainda respondem pela maior fatia das dívidas (28,8%), seguidos por utilities (serviços públicos) de água, luz, etc (22%). Na sequência estão as financeiras (14,9%), o varejo (11,9%), os serviços (10,1%), a telefonia (6,3%), “outros débitos” (3,8%) e as securitizadoras (2,1%). A empresa não informou os dados desagregados por Estados, mas os levantamentos mais recentes mostraram que as utilities ganharam primazia entre as contas atrasadas no Amazonas, desde o começo da pandemia.
Outros dados não desagregados apresentados pelo estudo periódico da Serasa Experian mostram que houve um leve predomínio das mulheres (34,6 milhões) em detrimento dos homens (34,4 milhões), entre os devedores brasileiros. A maior parte dos consumidores inadimplentes de Norte a Sul do país tem de 26 a 40 anos (24,5%) e entre 41 e 60 anos (23,6%), enquanto apenas 12% já contam com mais de 60 anos, e somente 8,9% têm menos de 25 anos.
Educação e renda
A ex-vice-presidente do Corecon-AM, e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, observa que os indicadores de inadimplência sempre foram elevados no Brasil e geram impactos diretos para toda a atividade econômica. “Para compensar prováveis calotes, as empresas elevam seus preços. No caso das famílias, a condição de inadimplência restringe o acesso ao crédito e impede o retorno ao consumo”, frisou.
Segundo a economista, os índices de inadimplência amazonenses são históricos e preocupantes e, apesar dos mutirões de negociação que já integram o calendário anual, grande parte dos inadimplentes não consegue quitar os débitos e parte expressiva retorna à condição de negativados em pouco tempo. Michele Lins Aracaty e Silva enfatiza que é necessário propor “soluções concretas” e viáveis para o país avançar nessa pauta.
“Saliento a necessidade de educação financeira e de buscarmos alternativas para agregar valor ao salário. Neste último item, chamo a atenção para a formação e qualificação da mão de obra, que precisa ser constante para a acompanhar o mercado. Por fim, deixo a reflexão de que a renda média da região Norte está bem abaixo da média nacional. Isso, aliado ao elevado custo de vida contribuem para a realidade mostrada pelos números”, asseverou.
“Ação conjunta”
Na mesma linha, o ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, diz que a situação demanda uma “ação conjunta” entre Estado e iniciativa privada para buscar soluções de parcelamento e política salariais, assim como um balanceamento mais adequado nos juros bancários, “para que uma dívida de R$ 1.000 não se transforme em um compromisso de R$ 10 mil”.
“Entre os fatores que contribuem para alimentar os índices de inflação estão o crescimento econômico em um nível muito baixo para absorver a mão de obra disponível, o grande número de desempregados. É uma situação preocupante e demanda uma intervenção para melhorar o nível de emprego e salários, além de baixar a taxa de juros. O cenário vem ficando pior porque os juros permanecem altos e a inflação já está reagindo. E a própria inadimplência induz mais aumentos de juros”, lamentou.
Elevador e escada
Em texto divulgado pela assessoria de imprensa da Serasa Experian, o economista da empresa verificadora de crédito, Luiz Rabi, destaca que a demanda por crédito passou por um período de alta durante o primeiro semestre, até começar a ceder a partir de junho. De acordo com o especialista, o consumidor brasileiro está “comprando apenas o que necessita”, já que o endividamento “bate recorde”, em um cenário em que a inflação e os juros ainda corroem o poder de compra das famílias. “As pessoas devem continuar cautelosas com a tomada de crédito para gastos não essenciais”, frisou.
Em entrevista concedida ao “Diário do Grande ABC”, Rabi lembrou que a inadimplência é um dos principais componentes do spread bancário que, assim como a Selic, alimentou o encarecimento dos empréstimos. Para ele, o cenário tende a ser o mesmo em 2023, já que o BC já sinalizou manter os juros básicos em alta para domar a inflação. “Já a inadimplência sobe de elevador e desce de escada. Ou seja, aumentar a inadimplência é muito rápido e muito fácil. Consertar esse problema já é mais difícil e demorado”, concluiu.







