Em geral, o conceito tradicional de analfabetismo está ligado à incapacidade de ler –e entender o que é lido– e escrever de modo coerente, usando regras ortográficas e gramaticais. É, sem dúvida, a fase mais importante da alfabetização porque sobre ela serão construídas todas as outras. Sem essa base, o aluno não aprenderá a pensar. Lembrando Paulo Freire: “educar é ensinar a pensar”. Esta é a função primordial da educação.
Para ter idéia da gravidade do problema educacional do país, basta ter em mente que –segundo pesquisas do MEC– 75% da população não compreende o que lê. Sem preencher esta condição, os alunos estarão incapacitados de prosseguir, com sucesso, nas etapas seguintes. É a tragédia nacional que freia a educação e impede o desenvolvimento da sociedade.
Se acrescentarmos mais uma habilidade, a capacidade de efetuar cálculos aritméticos simples –a base do aprendizado da matemática– para que a alfabetização seja completa, a taxa de 75% (já altíssima) se tornará ainda maior. É notório que o analfabetismo numérico impede o desenvolvimento do conhecimento científico –calcanhar-de-aquiles do Brasil de hoje–, o ponto fraco que fecha as portas de entrada da sociedade do conhecimento. Sem alfabetização numérica o país não se desenvolverá. Por isso, faltam engenheiros e cientistas. O analfabetismo numérico faz com que boa parte dos alunos que concluem o ensino médio procurem cursos universitários na área das chamadas “ciências” humanas.
Um alicerce educacional sólido (alfabetização) é essencial para a formação intelectual –um processo que prossegue durante toda a vida do cidadão. É a base para que o aluno seja bem-sucedido na escalada escolar, sedimentar e progressiva, cada vez mais complexa e fascinante.
Seria oportuno (e útil para a formulação de políticas públicas específicas) saber o grau de analfabetismo aritmético da capital amazonense, onde se localiza o PIM. Sem alfabetização bem feita não será possível gerar conhecimento científico –único caminho para libertar a ZFM da dependência crônica de incentivos fiscais governamentais.
Boa iniciativa
O Estado de São Paulo inaugurou neste ano, no currículo escolar, uma inovação que poderá contribuir para minorar a falta de qualidade do ensino. São Paulo, pela primeira vez na história da educação brasileira, tomou a iniciativa de dedicar os 42 dias iniciais do calendário escolar à recuperação da aprendizagem. Nas primeiras seis semanas do ano letivo, as escolas estaduais começam com atenção especial a duas disciplinas essenciais para a continuidade bem-sucedida do processo educacional: português e matemática. Sem sólida base nessas matérias não se poderá ter um futuro promissor. O primeiro passo foi dado. Para a secretária de Educação de São Paulo, Maria Helena de Castro, o sucesso da iniciativa dependerá do interesse e da vontade de todos os participantes –pais, professores, diretores e alunos– de engajar-se na experiência. A iniciativa paulista deveria servir de exemplo a outros Estados.
Crítica oportuna
Na edição da semana passada, a revista britânica The Economist diz que as dificuldades para se abrir e manter um negócio no Brasil são tantas, que “fica difícil explicar por que os empresários brasileiros existem e por que demonstram uma não surpreendente vontade de burlar as leis”. A revista faz referência à pesquisa de âmbito mundial da IFC (Corporação Financeira Internacional, na sigla em inglês), uma organização do Banco Mundial, que afirma que os empresários brasileiros, apesar de estarem muito menos dispostos a correr riscos do que os da Rússia ou da China, acabam –em razão da burocracia estatal– correndo muito mais riscos que os empresários de outros países. Começar um negócio no Brasil leva em média 152 dias e precisa de 18 procedimentos diferentes, segundo o estudo “Fazendo Negócios”, da IFC. Uma empresa de tamanho médio precisa de 2.600 horas de trabalho por ano para se manter em dia com o fisco (quanto desperdício de tempo!).







