Famílias estão mais confiantes para consumir, aponta pesquisa

Em: 2 de fevereiro de 2022

A confiança do consumidor de Manaus virou o ano com um terceiro mês consecutivo de melhora. Os dados regionais do índice de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), mostram alta (+8,5%) acima da média nacional, entre dezembro e janeiro. Em um mês sem datas comemorativas, com dívidas acumuladas do Natal, e parcela da renda comprometida com pagamentos de IPVA, IPTU e material escolar, o consumidor manauense melhorou a percepção sobre emprego, renda e consumo – mas não sobre o crédito. 

O ICF de Manaus passou de 34,2 para 37,1 pontos, entre dezembro e janeiro, mas ainda ficou devendo em relação ao placar de 12 meses antes (58,5 pontos). A despeito da melhora, a pontuação ainda se situou na zona de insatisfação (até 100 pontos), pelo 21ª mês consecutivo. As famílias com orçamento abaixo de dez salários mínimos tem maior nível de insatisfação (34,8 pontos) do que as que contam com renda acima desse patamar (61,3 pontos). O primeiro grupo vem aumentando o otimismo desde junho de 2021, enquanto o segundo só conseguiu a partir de novembro do mesmo ano.

Na média brasileira, o indicador subiu de 74,4 para 76,2 pontos na variação mensal (-0,8%), após dois meses seguidos de queda. Foi o maior nível desde maio de 2020 (81,7 pontos), mas seguiu abaixo do nível de satisfação – onde está desde abril de 2015. Com o ajuste sazonal, a série apresentou crescimento de 1,1%, após dois meses de retração, e elevação de 3,6%, na comparação com janeiro de 2021. Segundo a CNC, a região Norte (-1,1%) registrou a única queda mensal de janeiro, enquanto o Sudeste (+1,6%) foi a região com maior oscilação positiva. As famílias do Sul foram as mais confiantes (85,8 pontos), em contraste com as do Norte (58,7 pontos).

Apesar da nova alta, dezembro ainda capturou a quarta pior pontuação da série histórica de 13 meses fornecida pela CNC para Manaus. Assim como no mês passado, seis dos sete componentes do ICF subiram na variação mensal, embora todos sigam na zona de insatisfação. As altas foram puxadas pelas percepções sobre “momento para compra de duráveis” (+13,3%), perspectiva de consumo (+11,3%), emprego atual (+10,7%), perspectiva profissional (+9,6%), renda atual (+8,1%) e nível de consumo atual (+5,9%). Em contraste, o único dado negativo veio de compra a prazo/acesso ao crédito (-0,2%)

Renda e emprego

Em termos absolutos, as intenções de compras do manauense ainda são puxadas para baixo pela forma como as famílias veem seu nível de consumo atual, o pior escore da lista (12,3 pontos). Nada menos do que 92% dizem que estão comprando menos do que no ano passado, sendo que a restrição é pouco maior entre os que recebem abaixo de dez salários mínimos (92,5%). Apenas 4,3% dizem que estão consumindo mais – com predomínio das famílias mais ricas (6,1%). Para os 3,6% demais, tudo segue na mesma. 

Outro entrave significativo vem da perspectiva de consumo (24,9 pontos) e das avaliações sobre a renda familiar atual (25,7 pontos), apesar da alta mensal de ambos. Para 83,2%, o consumo familiar e da população como um todo deve ser menor nos próximos meses. Uma parcela de 8% arrisca dizer que será maior e outros 7,9% avaliam que seguirá igual. Em paralelo, 79,1% dizem que a renda familiar piorou, em relação ao cenário de econômico de 12 meses antes. Só 4,7% viram melhora e os outros 16% apontaram empate. 

Com o recente aumento das contratações temporárias ainda em mente, o entendimento sobre a situação atual do emprego (58,6 pontos) teve nova melhora e ainda é a melhor pontuação da lista – embora ainda siga no patamar de insatisfação. A maioria ainda se diz “menos segura” (47,7%). Os consumidores que não veem mudanças (26,2%) e os desempregados (19,2%) vêm na sequência, enquanto só 6,3% se dizem “mais seguros”. Na perspectiva profissional (34,3 pontos), a percepção majoritária sobre os próximos seis meses é negativa (80,3%), em detrimento dos otimistas (14,6%) e indecisos (5%). Nos dois casos, o pessimismo é maior entre os que ganham menos.

Mas, a insatisfação arrefeceu em relação à situação atual do crédito (47,9 pontos). Para 64,3%, o acesso ficou mais difícil, quando comparado ao panorama do ano passado. Apenas 12,3% dizem que ficou mais fácil e 23,1% apontam estabilidade. Apesar da ligeira melhora, o cenário não é muito diferente na visão do “momento para aquisição de bens duráveis” (56,3 pontos). Pelo menos 70% garantem que esta não é a melhor hora para isso, só 26,3% têm opinião contrária e 3,5% não sabem. Em ambas as situações, as dificuldades e cautela são predominantes nas famílias de menor renda.

“Pandemia e chuvas”

O presidente em exercício da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, assinala que, após várias quedas, o índice voltou a subir em todo o país em janeiro. o Lembra também que o número ainda está muito abaixo do nível de satisfação, tendo sido mais positivo em meados do ano. Segundo o dirigente, isso ocorre em função das oscilações no nível de emprego, e do “patamar muito baixo” das perspectivas de consumo, além dos efeitos da inadimplência e dos juros bancários no acesso ao crédito.

“Com relação a Manaus, as dificuldades de 2021 – que para nós foram mais dolorosas – também geram um quadro negativo, que ainda preocupa. Quase 50% dos entrevistados se dizem menos seguros em relação ao emprego. Até porque a perspectiva é sempre que o ano comece com algum nível de desemprego. Tudo isso se deve a um Estado com infraestrutura precária e custos elevados, e reflete na economia e nos empregos. Apesar disso, apenas o comércio contratou em dezembro. Vamos aguardar o que vai acontecer em 2022, mas temos de analisar o quadro da pandemia e das chuvas nas vendas”, ponderou.

“Sinais favoráveis”

Em âmbito nacional, a sondagem mostrou que a maiores altas vieram dos subíndices de emprego atual (+2,6%) e perspectiva de consumo (+2,5%) – que também alcançou o maior patamar desde abril de 2020 (81 pontos). Em contrapartida, a única exceção também veio do indicador de acesso ao crédito, que presentou a queda mais expressiva da pesquisa em relação ao mês anterior (-1%) e na comparação com janeiro de 2021 (-7,4%).

Em texto distribuído à imprensa, a economista da responsável pela pesquisa, Catarina Carneiro da Silva, explicou que o afunilamento do acesso do consumidor brasileiro ao crédito está relacionada ao encarecimento do crédito. “Isso é consequência do aumento dos juros, ocasionado pela alta inflacionária, que também reduz o poder de compra. Ambos os fatores representam maiores dificuldades para os consumidores”, assinalou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que, apesar das incertezas para este ano, o panorama apontado pelos dados indica que os consumidores estão confiantes em um crescimento econômico. “Os números relativos à percepção do mercado de trabalho apontam que as pessoas se sentem um pouco mais seguras em relação à situação atual. E, apesar de ainda não representar a maior parte das famílias, a parcela que pretende aumentar seu consumo nos próximos meses alcançou o maior percentual desde abril de 2020, dando sinais favoráveis para o comércio neste início de ano”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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