A taxa de endividamento do consumidor de Manaus voltou a disparar na virada do ano. Ao menos 555.286 famílias residentes na cidade tinham dívidas a vencer em janeiro, o equivalente a 85,02% do total. Foi um patamar bem maior do que os de dezembro de 2022 (81,1% e 527.952), e de janeiro do mesmo ano (67,3% e 432.368), contribuindo para um cenário mais grave na capital do que na média brasileira. O nível de comprometimento de renda é maior para famílias com vencimentos abaixo de dez salários mínimos, embora a situação não seja muito melhor para as que ganham acima dessa margem. Em ambos os casos, o principal indutor de endividamento ainda é o cartão de crédito.
A inadimplência também avançou com força, saltando de 41,2% (267.948) para 45,4% (296.112) entre um mês e outro, em dado também pior do que o nacional. Há um ano, com taxas de inflação e juros mais amenas, o percentual não passava de 29,4% (188.622). Consumidores mais ricos já predominam nesse grupo. O problema é ainda maior para a fatia de 20,2% (131.311) de famílias que não têm mais condições de pagar suas contas, em um cenário que também piorou no mês e em um ano. É o que revelam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
A piora contrasta com os dados mais recentes do ICF (Intenção de Consumo das Famílias). Apurado pela mesma entidade, o indicador escalou em ambas as comparações, na quinta alta consecutiva, sustentada pela melhora na percepção dos manauenses em relação ao emprego, renda e consumo, e maior disposição para buscar crédito e adquirir bens duráveis. Diante desse contraste, o otimismo do setor arrefeceu pelo segundo mês seguido, conforme o ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), que mostra piora nas expectativas dos lojistas e menor intenção de contratar e investir.
Na média nacional, o endividamento virou o ano estabilizado, com 78% das famílias brasileiras penduradas em meios de pagamentos diversos. O número, no entanto, se manteve acima de janeiro do ano passado (76,1%) A fatia de inadimplentes também estagnou em relação a dezembro do ano passado e ficou em 29,9%, a despeito de também ter superado a marca de 12 meses atrás (26,4%). Quem tem dívidas mais antigas aparenta mais dificuldade de sair desse grupo. A parcela de consumidores sem fôlego para quitar débitos financeiros avançou em ambas as comparações e chegou a 11,6%.
Cartões e carnês
O cartão de crédito reduziu sua participação no bolo das dívidas de Manaus, mas continua sendo fator predominante no endividamento das famílias locais. Considerado o meio de pagamento mais caro em todo o país, o cartão respondeu por 68,1% das dívidas locais de janeiro. Segundo a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), os juros dessa modalidade já estão em 14,56%, ao mês, e 410,97%, ao ano. Assim como ocorrido no mês anterior, seu uso foi mais amplo entre as famílias de menor renda (68,6%).
Os carnês, por outro lado, progrediram e já correspondem a 50,6% dos débitos atrasados das famílias de Manaus, sendo impulsionados também pelos que recebem menos (51,2%). Na sequência estão o crédito pessoal (13,3%) e “outras dívidas” (10,7%). De acesso mais restrito, o crédito consignado, (5,1%), assim como os financiamentos de carro (7,1%) e de casa (4,4%), são predominantes entre as famílias de maior renda. O mesmo pode ser dito do cheque especial (2,9%), que é a segunda modalidade mais cara (8,12% ao mês e 155,20% ao ano), segundo a Anefac. Invenção brasileira, e utilizado exclusivamente pelos mais pobres, o cheque pré-datado pontuou 0,4%.
Apesar do aumento na proporção dos manauenses em dificuldades, houve melhora qualitativa no perfil de endividamento. A fatia dos “muito endividados” caiu novamente e está em 16,6%, sendo que famílias com renda superior a dez salários mínimos mensais estão acima dessa média. A maioria se diz “pouco endividada” (44,8%), sendo que esta situação já é mais comum entre os consumidores de vencimentos mais baixos. O grupo dos “mais ou menos endividados” (23,9%) vem logo em seguida.
Em média, as famílias de Manaus devem levar 33 semanas para quitar todas as suas dívidas –em dado mais elevado do que o dos meses anteriores. Predominam os consumidores que esperam levar mais de um ano (35,5%), e de 3 a 6 meses (21,6%). O nível médio de comprometimento de renda com dívidas encolheu para 37%. Mas, 40,3% dos consumidores locais gastam mais da metade de seus rendimentos com esse fim, sendo superados apenas pelos que consomem de 11% a 50% da renda (50,3%).
Mais da metade dos endividados em Manaus (53,3%) estão com contas atrasadas, sendo que o percentual é ainda maior entre as famílias com ganhos acima dos dez mínimos mensais (58,2%). Apenas 21,4% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês. Outros 34,3% estimam que vão pagar apenas parcialmente, e 44,3% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas estão atrasadas há 61 dias. Em torno de 29,2% estão nessa situação há mais de 90 dias, sendo que 52,5% devem entre 30 e 90 dias.
Juros e indefinições
O presidente em exercício da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, ressalta que o endividamento das famílias de Manaus segue crescente em função de “todos os problemas” acumulados em 2022. “O aumento das taxas de juros bancários combaliu as finanças do consumidor e negativou muitas famílias. Os números continuam em progressão, pela falta de definições de natureza política para conduzir o país para uma retomada de crescimento. Essa situação precisa ser superada, para voltarmos à normalidade”, frisou.
Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, assinala que o nível geral de endividamento dos brasileiros vem perdendo fôlego desde novembro e, a despeito da variação positiva do comparativo anual, está em desaceleração contínua desde meados de 2022. “O cenário econômico como um todo, incluindo o desempenho positivo do mercado de trabalho, as políticas de transferência de renda e a inflação mais moderada são fatores que explicam o freio no endividamento, nos últimos meses. Na prática, essas três condições ampliaram a renda disponível”, analisou.
A economista da CNC informa ainda que a inadimplência é puxada para cima pelas famílias de renda mensal de até três mínimos, sendo que 38,7% já estão nessa condição. Mas, ressalta que houve progressos graduais também neste caso. “Apesar de ainda alto, o indicador de dívidas atrasadas caiu pela primeira vez após seis altas seguidas, o que mostra um esforço do consumidor para pagar em dia, no contexto de juros elevados”, finalizou.







