O setor de serviços foi o que mais cresceu nos últimos dois anos, deixando para trás a marcha lenta imposta pela pandemia. O crescimento atingido pela atividade no Amazonas foi de 8,9%, em 2022. O bônus conferido pelo arrefecimento da crise da covid-19 possibilitou incremento de 9,9% na comparação de dezembro com igual mês de 2021, no 12º resultado positivo consecutivo nesse tipo de comparação. Mas, a dinâmica dos meses mais recentes traz dúvidas em torno do ritmo de crescimento para 2023. O incremento de 5,3% na variação mensal de dezembro foi apenas um ensaio de recuperação da perda de novembro (-6,5%).
O desempenho do setor, que responde pela maioria dos empregos e empresas do Amazonas, além de maior diversidade de atividades econômicas e portes de negócios, veio acima da média nacional. Em todo o país, o setor avançou 3,1% entre novembro e dezembro, na melhor performance desde 2011. A alta de 6% em relação a dezembro de 2021 contribui para um encerramento positivo de 8,3% no acumulado de 2022. Praticamente todos os segmentos fecharam no azul, com destaque para transportes. A exceção veio de “outros serviços”. Os dados são da PMS (Pesquisa Mensal de Serviços), do IBGE.
O repique do IPCA a partir de outubro de 2022 também ampliou o descolamento da receita nominal. A variação mensal do faturamento a preços correntes foi de 3,6% em dezembro e também veio após um tombo mais substancial no mês anterior (-7,8%). Os comparativos anuais de dezembro (+13,5%) e do acumulado (+15,9%) chegaram a dois dígitos do acumulado de 2022. O retorno da inflação, assim como as limitações do consumo e dos investimentos pelo avanço dos juros e restrições ao crédito alimentam incertezas em torno do desempenho do setor em 2023.
Outro indicador que pode sugerir resultados menos satisfatórios para o setor vem do ‘Novo Caged’. Em dezembro, os serviços apresentaram o pior desempenho entre todas as atividades econômicas do Amazonas, ao extinguir 3.124 postos de trabalho celetistas, o que representou uma queda de 1,41% sobre o estoque anterior. O destaque negativo veio do grupo que reúne atividades administrativas e serviços complementares (-2.057). De janeiro a dezembro, no entanto, o saldo ficou positivo em 10,42% (+20.604), mantendo a primazia da oferta de oportunidades no mercado de trabalho estadual.
Estados e atividades
Apesar da alta de 5,3% registrada entre novembro e dezembro, o Amazonas caiu da segunda para a quinta posição do ranking. A lista foi encabeçada por Distrito Federal (+13,4%), Alagoas (+8,8%) e Roraima (+6,1%), enquanto Espirito Santo (-4,4%) Piauí (-4%) e Acre (-3,8%) ficaram no rodapé de um rol com cinco performances negativas. No acumulado do ano, o Estado (+8,9%), se manteve na 13ª colocação, com o Amapá (+18,9%) e o Distrito Federal (-1,6%) despontando nos extremos.
O IBGE-AM assinala que, em virtude do tamanho da amostragem, a pesquisa no Amazonas ainda não apresenta os dados desagregados por segmentos. A expansão anual de 8,3% para os serviços de todo o país, se disseminou em quatro das cinco atividades investigadas. A exceção veio de “outros serviços” (-2,1%), sob a influência de serviços financeiros auxiliares como corretoras de títulos e valores mobiliários, administração de bolsas e mercados de balcão organizado, e administração de fundos por contrato ou comissão.
Em contraste, a principal influência positiva, levando em conta também a participação na base de dados, veio dos serviços de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio (+13,3%), que já vinham crescendo pelo transporte de cargas, mas passaram a ganhar impulso também pelo transporte de passageiros. Na sequência estão os serviços profissionais, administrativos e complementares (+7,7%); serviços prestados às famílias (+24%); e serviços de informação e comunicação (+3,3%).
“Possibilidade de diminuição”
O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, lembra à reportagem que, desde janeiro, o setor vinha acumulando “bom desempenho” no Estado. E acrescenta que o recuo mensal de novembro foi apenas a terceira ocorrência negativa de 2022, sendo amenizado pelo retorno do crescimento no mês seguinte. O pesquisador ressalva, no entanto, que há indícios de desaceleração no curto prazo.
“Na comparação com igual mês do ano anterior, o indicador continuou em elevação, indicando superioridade de receita em relação a 2021. No acumulado do ano, o indicador chegou em dezembro com 8,9%, segundo melhor desempenho desde o início da série em 2011. Isso fez dos serviços a atividade econômica com maior crescimento nos últimos dois anos no Estado. Mas, a média móvel do trimestre encerrado em dezembro está negativa em relação à do trimestre encerrado em novembro. Isso indica a possibilidade de diminuição do ritmo de crescimento nos próximos meses”, ponderou.
Restrição pelos juros
Em matéria do site Infomoney, o economista da CM Capital, Matheus Pizzani, ponderou que a evolução nos serviços deve ser relativizada devido a fatores sazonais. Ele dá como exemplo o grupo de “outros serviços”, que inclui atividades de cultura e entretenimento, mais consumidas nas férias escolares, assim como serviços esportivos, cuja demanda sobe no verão. “O grupo fechou o ano com queda e isso ajuda a traduzir a característica do crescimento do país, fundamentado sobre um processo de recomposição do nível de oferta e demanda e não de uma expansão efetivamente sustentável no tempo”, frisou.
Pizzani concorda que o crescimento expressivo em 2022 é um “comportamento extraordinário” que se deve à recomposição após o período mais grave da pandemia, com a retomada das atividades presenciais. Mas, salienta que a política monetária restritiva tende a peneirar o desempenho e inibir o consumo dos serviços de “caráter supérfluo” e que deixam de ser demandados quando a condição financeira das famílias se deteriora.
Expectativa de investimentos
A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, concorda que, em todo o país, o setor de serviços foi o que melhor se recuperou das perdas impostas pela pandemia. A economista, entretanto, se mostra mais otimista e reforça que a atividade tem peso relevante no que tange ao quantitativo de postos de trabalho, uma vez que responde por 60% do total de empregos gerados no Brasil.
“Por ser um setor dinâmico e que necessita de mão de obra de variados graus de especialização e formação responde mais rapidamente ao processo de recuperação. Acreditamos que, ao longo de 2023, o setor de serviços prossiga apresentando desempenho positivo. Espera-se que se intensifiquem investimentos em obras de infraestrutura, transporte e comunicações, pois estes são essenciais para o crescimento econômico dos Estados, bem como do país em escala global”, concluiu.







