Apagão deixa Manaus e quase todo país sem energia ‘fazendo estragos’ no comércio e serviços

Em: 16 de agosto de 2023

Um apagão deixou quase o país inteiro sem luz, durante seis horas, nesta terça (15). A paralisação nacional do serviço de distribuição de energia começou às 7h30 (8h30 no horário de Brasília) e atingiu Manaus, Itacoatiara, Manacapuru, Iranduba, Presidente Figueiredo e Parintins. Segundo o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), as falhas foram maiores justamente na região Norte, resultando na queda de 83,3% do sistema. A única unidade federativa que não sofreu interrupção do serviço foi Roraima, que não integra o SIN (Sistema Interligado Nacional).

A falta de energia generalizada desligou semáforos, produziu caos no trânsito e deixou muitos bairros da capital e municípios da RMM sem água. Lideranças classistas ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio informam que o incidente também produziu perdas em todos os setores econômicos, embora ainda não disponham dos números que deem conta sobre a dimensão dos prejuízos. Eles são unânimes em cobrar explicações sobre ocorrido e o devido ressarcimento dos prejuízos sofridos pelas empresas. Mas se dividem na suspeita de que o incidente pode ou não apontar para uma crise estrutural no setor energético nacional.

Como não poderia deixar de ser, o apagão também gerou repercussões políticas. Políticos de oposição saíram em campo para culpar o atual governo. Foco dos ataques, o presidente Lula e o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, que estavam no Paraguai, anteciparam seu retorno ao país. O ministro afirmou à imprensa que o apagão não tem relação com problemas de segurança energética, sendo apenas um evento “extremamente raro”. Políticos de situação preferiram apontar a abertura de capital da Eletrobras como motivo. Em paralelo, o deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM) pediu explicações do MME.

Em comunicado à imprensa, o Ministério de Minas e Energia informou que uma pane no SIN afetou o fornecimento de luz e derrubou pelo menos 18,9 mil MW da rede, interrompendo o envio de carga para quase todo o país. A recomposição começou às 8h16 (9h16 no horário de Brasília), primeiramente nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. O retorno integral no Nordeste e Norte só ocorreu apenas à tarde. Em seu comunicado, a Amazonas Energia informa que o restabelecimento começou três minutos depois, mas até às 10h40, Manaus contava com apenas 50% de sua carga disponível. A situação só foi normalizada às 12h45. 

“Para garantir esse abastecimento, a Amazonas Energia utilizou geração interna assim como empregou a energia produzida pela Usina Hidroelétrica de Balbina. Enquanto o linhão de Tucuruí estava inoperante pelo ONS, a concessionária manteve as cargas prioritárias dos hospitais normalizadas das cidades Manacapuru, Iranduba e Presidente Figueiredo. A última cidade do Estado a ter a energia restabelecida nas unidades consumidoras foi Parintins, às 13h31. Até o momento, o ONS ainda não informou oficialmente o motivo da interrupção”, resumiu o texto da empresa. 

Comércio paralisado

O presidente da FCDL-AM, Ezra Azury, salienta que a queda de luz foi “muito ruim” para o comércio, principalmente porque ocorreu logo no começo da manhã, quando todos estavam indo para o trabalho. O dirigente avalia que o apagão foi um “incidente isolado” e que não aponta necessariamente para problemas estruturais ou econômicos. Mas, frisa que, quem tiver se sentido prejudicado, deve questionar o ONS e a Amazonas Energia 

“Temos relatos de vários postos de combustíveis que não conseguiram operar, por duas horas, duas horas e meia. Isso gera um prejuízo muito grande, porque é quanto as pessoas estão se deslocando e fazendo abastecimento, inclusive de frotas. Atrapalhou bastante também as entregas. Donos de açougues ficaram preocupados em perder produtos, o que graças a Deus não aconteceu”, relatou.

O presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, concorda que o apagão afetou fortemente as atividades de comércio e serviços. “Todo mundo precisa de internet e computadores para trabalhar e você não pode fazer nenhuma venda, sem emitir a nota fiscal. Já estamos vivendo uma certa fragilidade na recuperação e esses apagões imprevistos afetam de uma forma muito forte a economia. Infelizmente, não sabemos ainda como calcular os prejuízos causados por essa manhã inteira sem energia. Mas, o certo é que vamos tentar esclarecer o motivo desse apagão”, afiançou.

“Inúmeros prejuízos”

A indústria não ficou de fora, embora a maior parte do PIM conte com gerador de energia. Segundo o vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, o apagão paralisou a produção nas fábricas, que tiveram de dispensar seus funcionários. O dirigente enfatiza que o incidente trouxe “inúmeros prejuízos” a todos os setores, tanto público quanto privado. O apagão acende um alerta para a proteção do SIN, que é bastante funcional e profissionalizado. Mas, ao mesmo tempo, é suscetível a intempéries climáticos e a sabotagens. É preciso investigar o ocorrido e propor ações preventivas”, asseverou.

O presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, reforça que o apagão gerou um “problema grave” para a construção do Amazonas, já que todo o processo depende de energia. “Esse apagão começou às 7h30 e a maioria dos canteiros de obras só retornou às 11h30. É uma perda líquida para as empresas, que perderam uma manhã de trabalho e não têm ingerência nenhuma sobre essa questão. Não tem como recuperar. Isso não era para acontecer”, desabafou.

De acordo com o presidente da Faea, Muni Lourenço, o setor rural também foi prejudicado. “O apagão também foi sentido em municípios do interior do Estado, ocasionando uma série de dificuldades e prejuízos para a atividade agropecuária. Tivemos situações variadas conforme a atividade específica rural, tais como, ordenha de vacas leiteiras, resfriamento de leite, congelamento de polpas de frutas, etc. Não temos com precisão os montantes dos prejuízos, mas sempre impactam negativamente”, lamentou.

Requerimento ao Ministério

O deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM) enviou requerimento ao Ministério de Minas e Energia, indagando as causas da queda de energia e o motivo de Sul, Sudeste e Centro-Oeste terem sido priorizados na retomada do serviço. O parlamentar pediu esclarecimentos sobre as medidas que serão tomadas para evitar que problemas como esse se repitam, além de questionar de que forma eventuais prejuízos poderão ser ressarcidos.

“A prioridade é reunir com a Agência Nacional de Energia Elétrica e com o Ministério de Minas e Energia, para cobrar esclarecimentos sobre o apagão que tomou conta do Brasil. Como parlamentar, e membro da Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, não posso permitir que isso aconteça sem as devidas explicações e precauções para evitar que isso não se repita”, declarou, em texto de sua assessoria.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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