As taxas de endividamento e inadimplência do consumidor de Manaus cederam pelo quarto mês seguido, em julho. Em torno de 85,8% das famílias relataram ter contas a vencer, um total de 563.198 delas. O resultado foi menor do que os de junho (86,7% ou 568.307), maio (87% ou 569.415), abril (89% ou 582.053) e março (89,8% ou 586.546). Mas, ainda está muito acima da marca de 12 meses atrás (67% ou 433.593). Os principais indutores de endividamento ainda são o cartão de crédito e os carnês de lojas, sendo que as famílias que recebem mais de dez salários mínimos são as que mais recorrem aos dois.
A fatia de famílias com contas atrasadas sofreu corte ainda maior, ao passar de 43,6% (285.571) para 40,3% (264.248). Mas, ainda supera com folga o dado de um ano atrás (28,7% ou 185.651), quando os juros já geravam dificuldades para quitar as parcelas, e a inflação mais elevada inibia a contratação de mais dívidas. A mesma dinâmica ocorreu na proporção de famílias sem condições de pagamento que corresponde a 17,7% (116.143) do total. Os dados são da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
A média nacional foi na mesma direção. Segundo a sondagem, a taxa de endividamento do consumidor brasileiro retomou queda, após o repique anterior, e passou de 78,5% para 78,1% na variação mensal. A proporção de famílias de Norte a Sul penduradas em meios de pagamentos diversos ficou praticamente igual ao patamar do mesmo mês de 2022 (78%). O mesmo se deu com o percentual de inadimplentes (29,6%), mas fatia de consumidores sem fôlego para quitar débitos (12,2%) subiu em ambas as comparações.
A nova queda da Peic é uma boa notícia que se soma à 13º alta consecutiva da ICF (Intenção de Consumo das Famílias) de Manaus, também sondada pela CNC. Em julho, foram registradas melhoras na percepção sobre renda e emprego. Mas, a disposição de adquirir bens duráveis perdeu ímpeto, diante da maior dificuldade de acesso ao crédito. O ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), que é medido pela mesma entidade apontou estabilidade no otimismo reticente dos comerciantes. Há mais disposição de contratar e investir, embora as perspectivas para a economia e para o setor sigam turvadas, assim como a situação dos estoques.
Cartões e carnês
A pesquisa da Peic informa que, o cartão de crédito aumentou sua participação no bolo das dívidas e continua sendo fator predominante no endividamento do consumidor de Manaus, a despeito dos juros altos. O meio de pagamento respondeu por 65,8% das dívidas locais – contra os 63% de junho. A incidência aumenta entre as famílias de maior renda (76,9%). Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), o cartão de crédito ainda é a modalidade de financiamento mais cara, com juros mensais de 14,86% (e 427,26% anuais).
Os carnês (53,5%) mantiveram a vice-liderança entre os débitos das famílias de Manaus, sendo impulsionados também pelos que recebem mais (58,5%). O crédito pessoal está presente na lista de débitos de 17,8% dos entrevistados, sendo seguido por “outras dívidas” (12%), financiamento de carro (9,1%), cheque especial (8,6%), crédito consignado (6,7%) e financiamento de casa (4,7%). Invenção brasileira, e de uso exclusivo dos mais pobres, o cheque pré-datado pontuou 0,8%.
O percentual de consumidores que se dizem “muito endividados” subiu para 19,6%, sendo essa a condição mais comum entre as famílias de menor renda (20,4%). A fatia dos “pouco endividados” (34,5%) ainda é majoritária e sofreu nova redução, puxando o indicador para baixo. Já o grupo dos que se declaram “mais ou menos endividados” ficou em 31,7%.
Em média, as famílias de Manaus devem levar 32 semanas para quitar as dívidas. Predomina a fatia majoritária e cadente dos consumidores que esperam levar mais de um ano (35,3%) para isso. A faixa que mais subiu é a dos devedores até com três meses de compromissos adiante (21,8%). Foram seguidos pelos ‘pendurados’ entre 3 e 6 meses (19,9%) e de 6 meses a um ano (17,3%). O comprometimento médio da renda diminuiu para 33,8%. Em torno de 29,2% gastam mais da metade do que ganham, mas esse grupo ainda é superado pelos que consomem de 11% a 50% de seus rendimentos (57%), enquanto 12% não usam mais do que a décima parte de seus vencimentos.
Entre os endividados, 46,9% caíram na inadimplência. A proporção é levemente superior entre as famílias com ganhos abaixo dos dez mínimos mensais (47%) do que entre os que ganham mais (46,2%). Uma proporção ainda menor garante que conseguirá quitar o compromisso integralmente no próximo mês (27,6%). Outros 28,5% estimam que vão pagar parcialmente, e 44% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas estão atrasadas há 62 dias, sendo que 42% estão pendentes entre 30 e 90 dias, e 35,2% acima de 90 dias.
Selic e Desenrola
O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, aponta que os números apontados pela Peic para Manaus ainda estão elevados, mas estima que o quadro da inadimplência local pode melhorar com a redução da taxa Selic e a sinalização de mais quedas no mesmo patamar. “Há um esforço do BC de diminuir o custo que engessa as vendas do comércio e vitima o consumidor de forma bem expressiva. À medida em que essa for reduzida aos pouquinhos, vamos conferir se o varejo se recupera”, ponderou.
Em texto distribuído por sua assessoria de imprensa, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, reforça a importância da Peic no cenário nacional, ao apontar que a pesquisa foi utilizada pelo próprio governo federal na construção do programa Desenrola, que renegociou dívidas bancárias de pessoas com renda entre R$ 2.600 e R$ 20 mil. E diz que a medida reduziu a proporção de endividados na classe média, em julho. “Com o início da trajetória de queda da taxa de juros, é esperado um movimento de melhora das condições de compra do brasileiro, o que é positivo para a economia como um todo”, afiançou.
No mesmo texto, a economista responsável pela Peic, Izis Ferreira, salienta que o movimento de renegociação fez a proporção de endividados em 13 das 27 unidades federativas. “A CNC estima que a proporção de consumidores endividados amplie o ritmo de queda nos próximos meses [graças a inclusão dos devedores que ganham até dois mínimos]”, apontou. “No entanto, a previsão é que o índice volte a crescer no fim do ano, encerrando 2023 com cerca de 78% do total de famílias com dívidas”, finalizou.







