Todo esse processo anulação da cultura dos habitantes da região significa, em última análise, que o excedente gerado pelo trabalho escravo indígena na região amazônica era transferido em sua maior parte para a burguesia metropolitana, sob a manifestação de lucro comercial, cumprindo com a função de estimular a acumulação primitiva do capital mercantil, não existindo, assim, qualquer possibilidade de acumulação endógena na região.
Isso significa duas coisas: primeiro, que a Amazônia, com sua parcela de produção de riqueza, constituir-se-á num instrumento efetivo para acelerar a acumulação primitiva de capital, num momento de desenvolvimento do capitalismo mercantil; segundo, que por conta disso se intensifica a repressão contra as populações indígenas tribais amazônicas, assegurada pela política de D. João VI que alterou a política indigenista anterior, que era norteada na busca de integração do índio a civilização do não-índio.
O processo histórico de integração do índio a barbárie produtiva do não-índio como simplesmente força de trabalho no processo de extração da Hevea Brasilienses nos parece ser um aspecto do terrível passado da região amazônica não só relacionado ao declínio dos preços dos produtos tidos tropicais no mercado mundial, mas também porque o próprio índio não se sujeitava mais ao processo que lhe explorava o trabalho e que, também, lhe tragava a existência harmoniosa com a natureza.
Certamente, o sociometabolismo mudou. O sistema de relações (e sua organização comunal de produção da existência) que compunha a herança social dos povos da região amazônica no período pré-colonial fora metamorfoseado pela nova divisão do trabalho imposto pelos colonizadores, com consequências tanto na capacidade do índio produzir trabalho (e mais-trabalho), inicialmente, quanto sobre a geopsicologia da amorosidade do homem que também ficou na região, alguns séculos depois.
Segundo A. V. de Araújo (1898* 1975†), o trabalho realizado pelo homem da região esteve sempre direcionado para o valor-de-uso: os homens derrubam a floresta para as coivaras; enquanto as mulheres são por natureza do ambiente e formação das gentes, pessoas que muito ajudam na agricultura, nas farinhadas, nos trabalhos com a mandioca, produzem óleos vegetais a partir das amêndoas, preparam as esculturas, as pinturas de cuias, as geometrias das cerâmicas.
O ciclo das drogas, que explorou os índios (e os negros escravos), e o ciclo da borracha, que explorou o seringueiro, são momentos de uma mesma cultura de exploração marcados pela transição para um trabalho direcionado para o valor-de-troca, mas também pela reação ante a exploração: “a vida desumanizada manteve-se até que o homem começou a reagir, defendendo-se, ora fugindo, ora se furtando ao pagamento do que devia, constituindo-se isso uma reação violenta, às vezes” (A. V. de Araújo).
Não devemos olhar o processo histórico pretérito demarcado pela transição do carisma religioso dos padres jesuítas para o estado de opressão física da autoridade do colonizador (e local) sobre os povos indígenas da região amazônica com vistas a ocultar a barbárie que repousa sobre a lusitanização dessa região senão o terrível passado pode ser convertido em algo inocente que existe meramente na imaginação daqueles que se sentem afetados desta forma.
Nestes termos, o processo de elaboração do passado deve ser tomado como um meio de desencantamento do decorrido, na medida em que ele nos permite identificar estas situações não nos deixando conformar a um estado reificado de esquecimento passivo ou a um estado consubstanciado a uma culpa improdutiva, pois “apagar a memória é muito mais um resultado da consciência vigilante do que da fraqueza da consciência frente à superioridade de processos inconscientes” (T. L. Wiesengrund-Adorno).
Há uma espécie de mentalidade obstinada dos que nada querem ouvir a respeito do passado da região amazônica como uma rica descrição do problema da tarefa política de emancipação social na sua dimensão subjetiva, uma mentalidade indiferente que se encontra em conformidade com uma vigorosa tendência histórica de naturalizar a barbárie. Os povos indígenas e outras minorias que vivem na região ainda hoje são submetidos a um processo que parece ser de inclusão social.
O pesquisador que elabora o pretérito amazônida nessa perspectiva produz a não dominação, pois o mundo apreendido por ele como danificado se põe como consequência da falta de capacidade do homem para resistir ao processo de dominação, que aliena e massifica, desenvolver a capacidade de resistência é o antídoto; pensar por conta própria não se curvando aos ditames da massificação é premissa que podem ser tomada como lições para a pesquisa direcionada para a não dominação.
É por isso que só por meio do esclarecimento a humanidade possivelmente criará as condições essenciais e fundamentais para superar a sua fragilidade heterotrófica (a sua eterna dependência com a natureza) porque o esclarecimento que advém do processo de elaboração do passado é, também, a aplicação do pensamento para a transformação da natureza e a reorganização do sociometabolismo para além das necessidades produzidas e alienadas ao sistema poderoso e abrangente do capital.
O processo de trabalho no seringal consistia em corte da seringueira, coleta do látex e defumação, numa jornada de trabalho com duração média de quatorze a dezesseis horas por dia. O excedente produzido pelo seringueiro era apropriado pelo sistema de aviamento, cujos mecanismos fundamentais consistiam na venda da borracha a preços rebaixados ao seringalista, de um lado, e, de outro, na compra de gêneros de subsistência com preços aviltados pelo intermediário.
Não podemos esquecer que ainda hoje aquele processo de subordinação da liberdade ao imperativo do utilitarismo ocorre de maneira muito historicamente parecida com o processo de exploração que submete as trabalhadoras dos salões de beleza dos shoppings centers de Manaus, por exemplo, a subordinação e inclusão da memória, do tempo e da lembrança ao processo de acumulação flexível de capital, como se fossem uma espécie de resto irracional.
Mas esse não é o único aspecto do passado que não deve ser esquecido, que não deve deixar de ser esclarecido. O não reconhecimento das estruturas de desigualdades geradas durante a situação da colonização (sobre influência da Coroa e, também, da Igreja Católica), depois nas originadas na exploração do seringueiro, e, hoje, nas que surgem nos microcosmos de exploração flexível do trabalho se deve à persistência dos pressupostos sociais objetivos que ocorrem por conta do capital.
Os conflitos sociais que se deram neste interstício histórico ocorreram por ocasião do processo de subjetivação de corrente da relação dialética entre produção e consumo. Conversão das coisas da natureza que se transformaram em valor-de-troca por efeito do consumo da força de trabalho –o processo entra estado de insustentabilidade justamente porque o que é produzido (as mercadorias) não está diretamente relacionado à subsistência do homem que produziu.
O desaparecimento da consciência da continuidade histórica na região amazônica a partir de constatações empíricas como o desconhecimento dos discentes das escolas públicas acerca do processo de exploração do índio, dos negros escravos, e, depois, do povo nordestino, que se fez seringueiro, é uma possibilidade histórica de que uma repetição das coisas do passado adquire contornos mais nítidos no esquecimento. O reconhecimento destes elementos é o primeiro passo para elaborá-los.
ARTIGO: O processo de elaboração do passado na Amazônia (PARTE 4)
Em: 8 de fevereiro de 2013
Todo esse processo anulação da cultura dos habitantes da região significa, em última análise, que o excedente gerado pelo trabalho escravo indígena na região amazônica era transferido em sua maior parte para a burguesia metropolitana
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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