ARTIGO: Pesquisa em Educação e Educação Escolar: o materialismo histórico dialético (PARTE 2)

Em: 16 de novembro de 2012
O pesquisador parte da premissa que a Educação e Educação Escolar são determinadas e estruturadas nas suas determinações
O pesquisador parte da premissa que a Educação e Educação Escolar são determinadas e estruturadas nas suas determinações

O pesquisador parte da premissa que a Educação e Educação Escolar são determinadas e estruturadas nas suas determinações. Consequentemente, os processos de internalização amplos e institucionais passam a ser, por esta razão, passível de ser racionalmente conhecidas, explicadas e criticadas, ou seja, produz-se seu conhecimento ao se formularem as leis de sua estruturação e de seu desenvolvimento, mas só quando se atinge seus determinantes fundamentais é que se pode começar a sua explicação. Isso acontece no mundo dos conceitos, no plano teórico, no abstrato.
O pesquisador deve ir ao abstrato porque ele tem a pretensão de reproduzir o concreto, não na sua realidade imediata e sim na sua totalidade real: lembre-se que a totalidade real é o conjunto das determinações com o que elas determinam. Para a reprodução adequada do concreto, um concreto que então tem um sentido, é preciso partir de suas determinações fundamentais. Como atingi-las? Não a partir de toda uma análise procedente do real, mas a partir dos conceitos mais simples que essa análise, já disponível (se não, ela não poderia ser criticada) conseguiu alcançar ao seu final.
O materialismo histórico dialético começa pelo trabalho crítico sobre as categorias gerais elaboradas pela análise empírica do objeto da pesquisa. Enquanto esta procedia do concreto (real, dado) para o abstrato (conceitos mais simples, relações gerais, determinações mais simples), Karl Heinrich Marx está propondo um procedimento novo, do abstrato (determinações e relações simples e gerais) ao concreto (que então não é mais a representação caótica de um todo e sim uma rica totalidade de determinações e de relações diversas), a unidade na diversidade.
Então temos já um caminho a ser seguido pelo pensamento, não como um guia metodológico da pesquisa, mas como um processo no qual os passos parecem invertidos em relação ao que se aprendeu até aqui. Nosso pensamento não vai do concreto ao abstrato, mas do abstrato ao concreto. Na representação da realidade, que parte do concreto, “volatiliza-se a determinação abstrata, porque se torna fragmentada pela análise que deixou distante o real de que partiu, não conseguindo dar conta da reapropriação desse real”. É a reapropriação do real que pretende o método dialético, na pesquisa.
Quando o pesquisador toma a Educação e Educação Escolar em sua historicidade, em função da intencionalidade do pesquisador, sua intenção é reunir as condições teóricas para propor uma transformação da realidade, então à concepção dialética da História deve ser considerada. Para o filosofo italiano Antonio Gramsci, a História é o que o presente custou ao passado e o que o futuro estará custando ao presente, ou seja, não somente é considerada na sua dinâmica a relação passado-presente, como também o conceito nos remete ao futuro, como projeção do presente.
O materialismo histórico dialético é um método de pesquisa extremamente preciso porque o caráter de “concreto” está estreitamente vinculado ao caráter de determinação e é por isso que não basta ter realidade para ser concreto. O que conta de fato são as determinações, haja vista que só se atinge o concreto quando se compreende o real pelas múltiplas determinações que o fazem ser como é. Portanto, atingida uma determinação geral do objeto de pesquisa, com ela se é capaz de entender as grandes linhas dos fenômenos que ela pode determinar, sejam eles já realizados ou não.
O escolar, que é real, só se torna concreto quando traz nela mesma as suas múltiplas determinações – o que realmente ocorre, mas que a representação imediata é incapaz de captar, porque estas determinações diversas não aparecem, a não ser naquilo que determinam, na forma determinada. O concreto é síntese de muitas determinações e, como tal, é uma totalidade que só aparece no pensamento como resultado, embora seja o verdadeiro ponto de partida. O pensamento parte do concreto real, ainda que só se torne verdadeiramente científico quando retoma o concreto pensado a partir do abstrato.
Portanto, no processo de assimilação do concreto e sua reprodução como algo espiritualmente concreto, supõe-se uma ascensão do abstrato ao concreto. Ou seja, se inicialmente o real pode aparecer ao homem como um sensorial dado (uma espécie de síntese-significado do objeto), no processo de conhecimento, ocorre, devido à atividade humana, uma transformação da visão sobre o objeto. Desse modo, o pensamento teórico engendra em forma de conceitos e representações, o sistema de interconexões, mediações e determinações fundamentais do fenômeno concreto, podendo revelar sua essência.
Quando o pesquisador opta por fazer sua pesquisa em Educação e Educação Escolar por meio do materialismo histórico dialético ele deve ter em conta que a abstração é vista como um processo no qual o interesse do pesquisador recai sobre aquilo que está por trás do aparente, buscando-se descobrir as propriedades, os aspectos, os indícios e as relações que constituem a essência do objeto concreto de sua pesquisa. A tarefa da abstração não é separar uns dos outros, os indícios percebidos, mas através deles descobrir novos aspectos do objeto que traduzam as relações essenciais.
Neste caminho lógico da dialética, movimentar o pensamento significa refletir sobre a realidade partindo do empírico (a realidade dada, o real aparente, o objeto assim como ele se apresenta à primeira vista) e, por meio de abstrações (elaborações do pensamento, reflexões, teoria), chegar ao concreto: compreensão mais elaborada do que há de essencial no objeto, objeto síntese de múltiplas determinações, concreto pensado. Segundo Lev Semenovitch Vygotsky, essa reconstrução do concreto é apenas uma noção geral, haja vista que o conceito incorpora uma atividade objetiva do pensamento.
Cabe ressaltar que há uma diferença entre a lógica da dialética e a lógica formal: a diferença entre o empírico (real aparente) e o concreto (real pensado) são as abstrações (reflexões) do pensamento que tornam mais completa a realidade observada… aqui, percebe-se que a lógica dialética do materialismo histórico dialético não descarta a lógica formal, mas lança mão dela como instrumento de construção e reflexão para a elaboração do pensamento pleno, concreto. Desta forma, a lógica formal é um momento da lógica dialética; o importante é usá-la sem esgotar nela e por ela a interpretação da realidade.
O filósofo e pedagogo brasileiro Dermeval Saviani (1943) nos esclarece essa diferença marcante entre as duas lógicas assinalando que a lógica dialética não é outra coisa senão o processo de construção do concreto de pensamento (ela é uma lógica concreta) ao passo que a lógica formal é o processo de construção da forma de pensamento (ela é, assim, uma lógica abstrata). O que isso significa? Significa dizer que a lógica dialética supera por inclusão e incorporação, o mesmo tempo, a lógica formal, ou seja, a lógica formal já não é tal e sim parte integrante da lógica dialética.
Em outras expressões, aquilo que é chamado de lógica formal ganha um significado novo e deixa de ser a lógica para se converter num momento da lógica dialética no processo de construção do pensamento: parte-se do empírico, passa-se pelo abstrato e chega-se ao concreto. É por isso que uma grande contribuição do materialismo histórico dialético como auxílio na tarefa de compreender Educação e Educação Escolar, diz respeito à necessidade lógica de descobrir, nos fenômenos, a categoria mais simples (o empírico) para chegar à categoria síntese de múltiplas determinações (concreto pensado).

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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