A paisagem árida à beira dos rios, o chão rachado nas margens das comunidades ribeirinhas e embarcações encalhadas nas várzeas secas tornaram-se cenas repetidas nos últimos dois anos no estado do Amazonas. Em 2024, o Rio Negro voltou a bater recorde histórico de seca em Manaus, atingindo a menor cota já registrada pelo Porto de Manaus desde o início do monitoramento, em 1902. No dia 12 de outubro, o nível das águas recuou para apenas 12,11 metros, superando a marca de 2023 e antecipando o colapso.
Diante desse histórico recente e das projeções meteorológicas para os próximos meses, pesquisadores mantêm atenção redobrada ao comportamento dos rios amazônicos em 2025. Embora os riscos persistam, análises preliminares sugerem que o cenário hidrológico atual pode não repetir os extremos registrados no último ano.
“Utilizando dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Serviço Geológico Brasileiro (SGB), os níveis dos rios em 2025 seguem dentro do considerado normal para este período do ano. Isso sugere que a vazante não será tão intensa quanto a de 2024”, afirma Kelvyn Silva Nascimento, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Essa leitura é reforçada por Willy Hagi, meteorologista da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e mestre em Clima e Ambiente (UEA/INPA), que contextualiza o quadro atual com base em variáveis globais:
“O cenário atual é de chuvas acima da média em boa parte da região, e o processo de enchente já colocou vários municípios em situação de emergência. Porém, como o pico da cheia está longe de superar os eventos históricos de 2021 e 2022, a atenção naturalmente começa a se voltar para a estação seca, que está prestes a começar.”
O Rio Negro, com seus quase 1.700 km de extensão e papel estratégico para abastecimento, navegação e equilíbrio ecológico da região Norte, teve seu período de cheia interrompido ainda em junho de 2024, dando início a uma vazante precoce. A retração abrupta das águas levou à interdição de áreas públicas, como a Praia da Ponta Negra, e comprometeu a vida em dezenas de municípios.
Segundo a Defesa Civil estadual, os 62 municípios do Amazonas entraram em situação de emergência em 2024, afetando mais de 186 mil famílias. Em várias comunidades, a escassez hídrica impactou o transporte, o abastecimento de alimentos e combustíveis e até o funcionamento de escolas. No entorno do Rio Negro, 29 escolas da zona rural encerraram o ano letivo em setembro, e outras 16, às margens do Rio Amazonas, operaram parcialmente.
Kelvyn destaca o impacto estrutural da seca na organização das comunidades amazônicas:
“Como sobreviver em uma comunidade isolada? Como escoar produção ou acessar insumos? Muitas vezes o poder público não consegue responder a tempo. A estiagem de 2024 evidenciou o quanto ainda somos vulneráveis.”
Impactos ecológicos
As secas severas têm gerado consequências profundas sobre os ecossistemas amazônicos. A redução das áreas de várzea, por exemplo, compromete ciclos de reprodução de espécies que evoluíram em sincronia com os fluxos naturais de cheia e vazante. A flora típica dessas áreas, adaptada a ambientes alagados, enfrenta crescente dificuldade de regeneração.
“O nível do rio determina diversos elementos da dinâmica ambiental. Quando há seca prolongada, tudo se desestabiliza — da vegetação flutuante às espécies aquáticas. É um processo em cadeia”, afirma Kelvyn.
Além dos impactos ecológicos, Willy Hagi chama atenção para os efeitos esperados da próxima estação seca:
“As previsões climáticas indicam que o período de julho a novembro será mais seco e quente do que a média histórica. Isso favorece a formação de uma seca curta, mas intensa, e aumenta o risco de uma temporada de queimadas tão traumática quanto a dos últimos anos.”
“Com a falta de chuvas e o calor mais forte, temos o risco de degradação da qualidade do ar, com a fumaça voltando ao cotidiano de milhões. Os efeitos não são apenas ambientais — envolvem saúde pública, mobilidade e segurança alimentar.”
Apesar de o ano de 2025 não apresentar, até o momento, risco elevado de vazantes históricas em rios como Solimões, Purus ou Madeira, a comunidade científica alerta para uma transição de fundo nos ciclos naturais da região.
“Cheias e vazantes que ocorriam a cada 30 ou 40 anos passaram a ocorrer em intervalos de 10 a 15. Essa intensificação é uma resposta da natureza às intervenções humanas”, avalia Kelvyn.
Willy complementa com uma análise de tendências globais:
“Estamos vivendo um período de neutralidade climática em relação a El Niño e La Niña. Mesmo assim, os extremos continuam se repetindo. Isso demonstra que os eventos climáticos extremos estão deixando de ser exceções e virando a nova regra.”
A urgência de fortalecer o monitoramento climático é consenso entre os especialistas. O Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (LABCLIM), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), trabalha com modelagens que oferecem previsões de até três meses, integrando dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e diagnósticos realizados pelo Serviço Geológico Brasileiro (SGB) para antecipar cenários de risco.
“A partir de iniciativas como essas, e em parceria com o poder público, seria possível amenizar os impactos da estiagem prolongada, principalmente em comunidades isoladas”, aponta Kelvyn.
Willy, por sua vez, defende investimentos estruturais:
“É urgente construir políticas públicas adaptadas aos novos desafios que se impõem sobre a floresta e suas populações. Isso passa por valorizar os profissionais locais, fortalecer redes de resposta e integrar a ciência no planejamento territorial.”
A degradação contínua da floresta diante de eventos extremos recorrentes já acende o alerta para a possibilidade de colapsos irreversíveis.
“As estiagens reduzem a umidade da floresta e favorecem a savanização em pontos que talvez já não possam mais ser recuperados. Isso compromete a resiliência da Amazônia como um todo”, conclui Kelvyn.
A Amazônia, que durante décadas foi símbolo de equilíbrio e abundância hídrica, agora vive à beira de um novo paradigma climático — um em que o inesperado se torna previsível, e a exceção, rotina. Quando os braços do rio se fecham, a vida que deles depende fica presa, sem caminho para seguir. Essas vazantes não são apenas fenômenos naturais, mas sinais claros de que é urgente unir ciência, política e comunidades para proteger a floresta e seu povo.






