Há mais de 17 anos atuando diretamente com comunidades amazônicas, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) vem se tornando referência quando o assunto é aliar conservação ambiental e desenvolvimento humano na maior floresta tropical do planeta. São diversos projetos sendo realizados no interior que vão da educação à bioeconomia, passando por tecnologias de monitoramento e soluções energéticas sustentáveis. A instituição projeta um futuro da Amazônia com o fortalecimento de quem vive nela. Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS, fala sobre os impactos do trabalho da instituição, os desafios atuais para manter a floresta em pé e as prioridades que devem guiar a próxima década na região.
Jornal do Commercio: A FAS atua há mais de 17 anos junto a comunidades amazônicas. Quais são os principais resultados alcançados até aqui em termos de conservação ambiental?
Valcléia Lima: Nesses mais de 17 anos de atuação, já tivemos muitos resultados expressivos e grandes impactos em diversas áreas como saúde, educação, cultura, esportes e muito mais. Estamos em 798 comunidades, aldeias e sedes municipais da Amazônia, e 28% a redução do desmatamento em 16 unidades de conservação com atuação histórica da FAS, no período 2020-2024. O nosso maior impacto é na melhoria da qualidade de vida das pessoas que vivem nas florestas e rios, que são os verdadeiros guardiões do nosso meio ambiente, do nosso planeta.
Só em 2024, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) beneficiou diretamente mais de 21 mil famílias, abrangendo 31 Unidades de Conservação e 67 territórios indígenas. Os dados constam no Relatório de Atividades 2024, disponível neste link.
JC: Quais os maiores desafios hoje para manter a floresta em pé, considerando o avanço do desmatamento ilegal, a pressão econômica sobre os territórios e o enfraquecimento de políticas públicas ambientais?
VL: Manter a floresta em pé exige enfrentar desafios complexos. O desmatamento ilegal continua sendo um dos principais vetores de destruição ambiental, impulsionado por atividades econômicas predatórias, como a grilagem de terras, a extração ilegal de madeira, o garimpo ilegal e outras. Essa pressão sobre os territórios tradicionais e sobre as Unidades de Conservação compromete não apenas os ecossistemas, mas também os modos de vida das populações que vivem da floresta e com a floresta.
E ainda temos um agravante: as mudanças climáticas. Eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes e o aumento da temperatura média, impactam diretamente os ciclos da floresta, a produção de alimentos, a segurança hídrica das comunidades e uma série de outros impactos negativos. Por isso, é urgente que a gente promova soluções que combinem conservação com desenvolvimento sustentável, justo e inclusivo. Isso passa pela valorização dos saberes e protagonismo dos povos da floresta, pela retomada de políticas públicas efetivas e pelo fomento à bioeconomia e a modelos sustentáveis de uso do território.

JC: De que forma ferramentas tecnológicas estão sendo utilizadas para monitorar territórios, apoiar o empreendedorismo local ou mesmo conectar as comunidades ao restante do país e do mundo?
VL: A FAS promove uma série de atividades com o uso de tecnologias. Vou destacar duas delas. A primeira é o “Sistema de rastreabilidade: inovação e inteligência de mercado na cadeia produtiva do pirarucu da RDS Mamirauá”, uma iniciativa da FAS, com recursos da empresa Positivo Tecnologia, por meio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio). O objetivo do projeto é elaborar e aplicar tecnologias direcionadas aos processos de rastreabilidade de origem do produto, visando aprimoramento, inovação na gestão do negócio e plano de comercialização para inteligência de mercado.
Outra iniciativa é o projeto Solar Community Hub, situado na comunidade Boa Esperança, no município de Manicoré, no entorno da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Amapá, que atua em quatro eixos, desde 2022: monitoramento socioambiental, educação, infraestrutura e saúde. O espaço é movido totalmente por meio de energia solar, fornecendo acesso a internet e tecnologia. A iniciativa beneficia não só a comunidade de Boa Esperança, como também outras dez comunidades ribeirinhas, incluindo uma comunidade indígena formada pelos povos Mura, Tenharim e Apurinã. O projeto é executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), com o apoio da Dell Technologies e Intel e Computer Aid.
JC: O que a senhora enxerga como prioridade para a próxima década em termos de desenvolvimento sustentável na Amazônia? Quais agendas precisam ser fortalecidas?
VL: A prioridade para a próxima década, sem dúvida, é garantir o fortalecimento de um modelo de desenvolvimento sustentável que respeite e valorize as populações tradicionais e indígenas da Amazônia. O futuro da floresta depende das pessoas que vivem nela e que historicamente são as maiores guardiãs dos nossos ecossistemas.
Na FAS, temos trabalhado incansavelmente para consolidar uma agenda de bioeconomia inclusiva, que gere renda para as populações locais a partir do uso sustentável dos recursos naturais, respeitando a cultura e os modos de vida tradicionais. A valorização do conhecimento ancestral e a promoção do protagonismo feminino e das juventudes também são pautas urgentes que precisam ser fortalecidas.
Além disso, o enfrentamento das mudanças climáticas, com ações concretas de mitigação e adaptação, deve ser uma prioridade absoluta. Precisamos garantir que as soluções climáticas sejam construídas de forma participativa, com as comunidades no centro das decisões.
A agenda que precisa ser fortalecida envolve a articulação entre conservação ambiental, justiça social e desenvolvimento econômico. É esse o caminho que, na FAS, defendemos e praticamos diariamente, com a certeza de que só com a floresta em pé e com as pessoas de pé teremos um futuro possível para a Amazônia e para o mundo.






