Benedita faz arte no alto de seus 90 anos

Em: 6 de março de 2020
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Aos 90 anos de idade a pintora Benedita Miranda realiza a primeira exposição individual de suas telas, 41 delas, no ateliê da artista plástica Rosa dos Anjos. Outro recorde da artista foi ter, aos 88, participado da primeira exposição de seus trabalhos, sendo que numa coletiva, no Centro Cultural Joaquim Marinho. Com isso Benedita provou que a idade pode até atrapalhar, mas não impede de realizar nossos sonhos. E uma pergunta fica no ar. Por que a artista Benedita Miranda demorou tanto a aparecer?

Benedita Miranda de Oliveira nasceu no Maranhão e veio para Manaus quando o mundo estava em guerra, em 1944, com apenas 15 anos.

“Sua mãe havia ficado viúva e, como tinha parentes em Manaus, vendeu tudo o que tinha no Maranhão e veio para cá, com as filhas”, contou Marília, uma das seis filhas de Benedita.

Como as meninas e moças daquela época, Benedita era prendada. Sabia costurar, bordar, fazer crochê e rendas de bilro. Cedo casou com Raimundo Castro de Oliveira e logo começaram a vir as filhas, seis.

“Minha mãe não casou e virou dona de casa. Ela casou e virou mãe. Meu pai era contador. Não éramos ricos, mas com o que ele ganhava, vivíamos muito bem. Em casa nada faltava e tínhamos empregados para cuidar dos afazeres domésticos, pois meu pai queria que minha mãe cuidasse apenas das filhas. E assim foi”, lembrou. “Nossas roupas eram todas feitas por ela”, completou.      

A família Miranda de Oliveira vivia feliz até que, em 1967, Raimundo morreu, com 44 anos, deixando Benedita viúva com apenas 37 anos. Como prometera ao marido, ela viveria somente para ele, e nunca mais casou.

De 40 em 40 anos

“Minha mãe nunca tinha ido sequer fazer compras na taberna. Só se dedicara às filhas e ao marido. A mais velha tinha uns 14 anos e a mais nova, três, mas ela não baixou a cabeça. Passamos a viver com uma pensão que meu pai deixara. Ela vendeu uma casa que tínhamos no bairro de Santo Antonio e comprou outra no Boulevard. Com isso deixamos de pagar aluguel”, recordou.

“Cada filha que inteirava 15, 16 anos, ela arrumava um emprego. Em 1969, quando minha mãe já estava com 40 anos, foi que começou a pintar pela primeira vez, em São Paulo”, disse.

Benedita gostava de colorir cadernos de desenho com lápis de cera, além de pintar guardanapos. Em São Paulo, com a filha Roseclaire, que lá morava, começou a pintar quadros junto com a moça, que também gostava dessa arte. Mas o tempo parecia conspirar contra a artista Benedita. Ela adoeceu e parou de pintar, inexplicavelmente por mais de 40 anos.

“Um dia, em 2014, com 85 anos, ela disse que queria voltar a pintar, mas com um professor, que a ensinasse. Fui atrás de um e descobri o Roberto Cleber. Desde então, duas vezes por semana ele vem aqui dar-lhe aulas e ela confia tanto nele, que só pinta seus quadros quando ele está presente. Pinta em média, um por mês”, revelou.

Em 2018 Roberto Cleber organizou uma exposição, com trabalhos de seus alunos, no Centro Cultural Joaquim Marinho e Benedita participou de sua primeira exposição coletiva. 

“Este ano minha irmã Marlene pediu um dos quadros de minha mãe para decorar uma das paredes da casa de chácara de meu filho onde, por acaso, Rosa dos Anjos estava fazendo um trabalho artístico. Rosa viu o quadro, perguntou de quem era e quando soube, aí mesmo foi que se interessou em organizar a exposição com a obra de Benedita Miranda”, explicou.

Cores da vida

“Eu havia feito uma fonte, na chácara, e estava tomando café com a Marlene quando vi um bonito quadro na parede. Era do Lampião e Maria Bonita. Perguntei de quem era e ela foi me contar que sua mãe, de 90 anos, o havia pintado”, recordou Rosa dos Anjos.

“Achei o máximo. Na hora me interessei em organizar uma exposição quando Marlene me revelou que tinha vários outros quadros prontos”, falou.

A exposição foi organizada. Como muitos dos quadros estavam nas casas dos vários familiares de Benedita, Rosa usou a técnica de reproduzi-los em tecido apenas para a exposição, que recebeu o nome de ‘Cores da Vida’.

“Os quadros de Benedita têm vida. De imediato quanto vi apenas um, na chácara, observei a beleza, as cores vivas, alegria. Conversando com Benedita, ela me disse que ano passado esteve bem mal de saúde e se sentia feliz só em pensar em pintar, e quando finalmente voltou a fazê-lo, as dores que sentia passavam naquele momento”, revelou Rosa.

“É um belo exemplo de vitalidade e de como a arte pode ser desenvolvida em qualquer momento da vida”, concluiu

“Agora ela está praticando dança de salão”, falou Marília. “É impressionante a vontade de viver de minha mãe”, destacou.

A exposição ‘Cores da Vida’ permanece até o dia 22 de março, e pode ser visitada em horário comercial no Rosa dos Anjos Ateliê de Arte e Galeria, na rua Tapajós, 19, Centro, bem ao lado da igreja de São Sebastião.   

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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