Benjamin e o Café da Ribeira

Em: 24 de novembro de 2023

Os cafés regionais se tornaram um hábito do manauara. E isso começou a acontecer há pouco tempo. Antes as pessoas tomavam seu café da manhã em casa, mas agora, nos finais de semana e feriados a procura pelos cafés espalhados pela cidade é grande e como na concorrência o que vale é o diferencial, alguns conseguem se destacar, como o novíssimo Café da Ribeira, inaugurado mês passado.

Ribeira é um terreno próximo à beira de um rio, no caso, o Negro, que alaga na cheia, e fica seco na vazante. Na realidade, o terreno onde está situado o Café da Ribeira, e também o Restaurante da Terra, um dia foi a famosa ilha do Caxangá. Com o aterro que a área sofreu, em 1993, durante o governo de Gilberto Mestrinho (1991/1995), a ilha foi integrada à beira-rio e deixou de existir, surgindo na sua frente a av. Lourenço Braga.  

O Café da Ribeira tem uma vista privilegiada para o rio Negro e, ao fundo, a ponte do Educandos (oficialmente Padre Antônio Plácido de Souza), que em 2025 completará 50 anos de inaugurada.

Outros pontos históricos e turísticos referências do Café da Ribeira são o Centro Cultural Usina Chaminé e o pórtico de entrada do Parque Senador Jefferson Péres, porém, o que está chamando a atenção, agora, desde que a sua história veio à tona novamente, é o gaiola Benjamin, encalhado bem ao lado do café desde 1995, quando toda aquela área ainda era um imenso terreno pertencente ao estaleiro São João.

“Em breve a história do Benjamin será disponibilizada num mural que irei montar aqui dentro do café, e todos poderão saber um pouco mais sobre essa embarcação que desde os tempos áureos do comércio da borracha está na Amazônia, e agora pretendo transformar numa atração a mais neste espaço privilegiado de Manaus”, adiantou Jadson Farnei, proprietário do Café da Ribeira e do Restaurante da Terra. 

A história de Benjamin

O gaiola Benjamin foi construído, em 1900, no estaleiro britânico Murdoch e Murray, ou M&M, em Glasgow, na Escócia.

Gaiolas eram navios, de construção inglesa, movidos a hélices. O Benjamin tinha duas hélices, infelizmente hoje roubadas. Os navios maiores eram conhecidos como chatas ou vaticanos, lentos, porém, cortavam os rios da Amazônia em todas as direções levando cargas e passageiros, inclusive animais, não muito diferente dos recreios atuais.

Comprado por uma empresa de Belém, o Benjamin subia os rios Amazonas, Purus, Iaco e Acre, este, em frente a Rio Branco, no Acre, retornando, da mesma forma, trazendo cargas e passageiros. Em 1950 o gaiola foi adquirido por uma empresa de Manaus e navegou até 1995, quando acabou deixado na ex-ilha do Caxangá, para reformas, que nunca aconteceram, e lá permaneceu abandonado. Desde então está no mesmo local, se decompondo, vendo o tempo passar, enquanto muitas de suas peças de aço naval foram roubadas, além das hélices, as âncoras, e outras partes. Mesmo assim o belo navio se mantém imponente.

Andar em seu interior é como voltar no tempo. A imensa chaminé; a sala de comando, com um pequeno quarto atrás, talvez para descanso do comandante; banheiros; a cozinha, até hoje com o fogão fixado na parte de trás; e o porão onde ficava alojado o imenso motor. Curioso detalhe são os ganchos apropriados para os passageiros atarem suas redes.

“Trazer à luz a história do Benjamin é disponibilizar para os manauaras e turistas um representante real, ainda vivo, dos tempos áureos do comércio da borracha, e buscar apoio de empresários e de órgãos do governo para que ele seja restaurado e se torne um ponto turístico da cidade”, avisou Jadson.

Espaço cultural

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O Benjamin foi construído, em 1900, no estaleiro britânico Murdoch e Murray, em Glasgow, na Escócia

“Eu inaugurei o Restaurante da Terra há dez anos e o Café da Ribeira, no mesmo espaço, no dia 14 de outubro passado, este, abrindo aos sábados, domingos e feriados. A ideia inicial do café foi mesclar a história de uma embarcação que circulou por esses beiradões amazônicos, durante décadas, com as comidas dos ribeirinhos. Assim temos o X-caboquinho, a tapioca, a pupunha cozida, a batata doce, o cará, a banana frita, ou macaxeira frita e cozida e sucos com frutos da região”, listou.

“Para agradar a todos os paladares, servimos ainda o queijo coalho, tão admirado por nós, mas de origem nordestina; a indígena pamonha; o árabe pé de moleque; o mineiro pão de queijo; o africano mungunzá, além de sopas. Temos uma culinária que é nossa, de nossos antepassados, e outra de várias partes do Brasil e do mundo, mas que se adequou ao nosso paladar”, explicou.

Agora Jadson trabalha para transformar a área do restaurante/café num espaço cultural da cidade.

“Vamos inaugurar o mural com a história do Benjamin, depois abriremos espaço para artistas plásticos exporem seus quadros. Nos finais de semana teremos happy hours com saraus poéticos, música, chopp e cervejas artesanais, além de tira-gostos regionais. Queremos transformar esse pedaço de Manaus num aprazível lugar para manauaras e turistas”, concluiu.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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