Brasil tem reserva de crédito suficiente para superar a dívida

Em: 23 de outubro de 2008
A diretora-executiva da Topmind, Sandra Maura, avaliou que a economia brasileira parece estar preparada para superar a crise sem enfrentar as mesmas dificuldades da economia americana
A diretora-executiva da Topmind, Sandra Maura, avaliou que a economia brasileira parece estar preparada para superar a crise sem enfrentar as mesmas dificuldades da economia americana

Jornal do Commercio – Quais são os impactos diretos já verificados oriundos da crise internacional?

Sandra Maura – Na economia global, o principal motivo da crise é contração de crédito que causou uma série “crise de confiança”. As instituições financeiras que têm dinheiro em caixa não emprestam, e quem precisa de recursos para financiar seus projetos não consegue o crédito. Em outras palavras, o dinheiro pára de circular. Aqui no Brasil, no entanto, o principal problema da crise é a variação cambial para as empresas brasileiras que trabalham com importação: como o dólar disparou, essas empresas que fizeram contratos com base no dólar bem mais abaixo do que o preço atual, hoje estão tendo prejuízos altíssimos.
São os casos, por exemplo, da Votorantim Celulose e Papel, e da Aracruz (só essa última perdeu R$ 1,642 bilhão com a variação do dólar). Essa combinação de fatores acarreta dois problemas que afetam diretamente a economia: O primeiro é que, como as empresas não conseguem crédito, os investimentos que envolvem, por exemplo, a construção de novas instalações e, consequentemente, o aumento das oportunidades de trabalho, ficam comprometidos. E o segundo problema é a redução do consumo por parte da população e os prejuízos por parte da alta do dólar, e que afetam a produção. Com isso, num momento de incerteza e muita especulação, as empresas reagem negativamente de diversas formas: algumas páram de contratar, outras ‘inventam’ alternativas como dar férias coletivas, e na pior das hipóteses, as empresas demitem seus funcionários.

JC – Quais são as consequências para o mercado de trabalho da área de TI (Tecnologia da Informação)?

Sandra Maura – Assim como qualquer mercado de trabalho, o que impulsiona o crescimento do emprego é o aumento do consumo da população. O consumo mais intenso aumentará a produção e também a necessidade de novos funcionários para atender a essa demanda. No caso do profissional de TI, que dá o suporte para os processos internos, se não houver aumento no quadro de funcionários, também não há a necessidade de contratar profissionais da área. Claro que isso não é uma regra, mas normalmente ocorre assim. E novamente, nos momentos de incerteza, as empresas tendem a reduzir seus gastos com funcionários.

JC – Como empresas e profissionais devem se preparar para os efeitos deste caos?

Sandra Maura – A melhor saída para as empresas de TI, nesse momento, é a redução dos custos operacionais. Se ela conseguir oferecer soluções que foquem na redução de custos operacionais, e a padronização dos processos, a necessidade por profissionais para dar o suporte ao ambiente será menor. Em relação à alta do dólar, este problema afeta mais a negociação de contratos para a compra de softwares e hardwares fabricados fora do Brasil. A saída nesse caso é optar por fornecedores internos ou renegociar os contratos caso a empresa tenha optado por um fornecedor de fora.

JC – Você acredita que as contratações terão seu ritmo reduzido? Em quanto por cento?

Sandra Maura – Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a previsão de crescimento para o ano que vem de 4,5%, será mantida mesmo após a crise. Se levarmos em conta esse fator, e que o crescimento da economia realmente não seja afetado, o que pode diminuir o crescimento no número de contratações é justamente a melhor gestão dos ambientes por parte das empresas, e a consequente redução das chamadas ao Help Desk. Mas, da mesma forma que o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) não deve ser afetado, acredito que o número de contratações de profissionais de TI deva continuar crescendo. Segundo o IDC, no próximo ano serão criados 630 mil empregos para a área de TI na América Latina, e desses, 296 mil (47% do total) serão no Brasil.

JC – Os profissionais perceberão um menor número de oportunidades a partir de agora?

Sandra Maura – A verdade é que a oferta dos profissionais de TI é escassa. A TOPMIND, além de oferecer serviços nas áreas de TI e Telecom, também presta consultoria para recrutamento e seleção. Então, sabemos do que estamos falando. Muitas vezes temos que nos empenhar muito para selecionar os candidatos e oferecermos exatamente o que o cliente deseja. Não é uma seleção fácil, devido ao déficit de talentos em relação ao número de oportunidades.

JC – O que fazer para superar esse perío­do de crise econômica?

Sandra Maura – Apesar da crise ser global, a economia brasileira parece estar preparada para superá-la sem enfrentar as mesmas dificuldades da economia americana. Isso porque as instituições financeiras brasileiras estão mais fortalecidas, a reserva do Banco Central hoje conta com cerca de US$ 200 bilhões para enfrentar a crise, e o BC também vêm oferecendo diversos incentivos aos bancos para que esses continuem com suas atividades de crédito normalizadas. O maior problema que vejo é, novamente, a variação na taxa de câmbio do dólar. Portanto, é necessário ter muita atenção antes de assinar contratos cujos valores estão cotados com base em moeda estrangeira, enquanto não houver uma definição sobre qual caminho a crise irá tomar.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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