A paralisação de onze dias das principais montadoras do pólo de duas rodas como postura de cautela diante da crise financeira mundial, iniciada no início desta semana, vai impactar diretamente na desaceleração do emprego, produtividade e investimentos das indústrias de bens intermediários. Entre os setores mais atingidos, a metalurgia amazonense prevê perdas na ordem de US$ 345 milhões na produção e um recuo de 25% nos investimentos fabris para o primeiro trimestre de 2009.
Na análise do presidente do Sinmem (Sindicato das Indústrias Metalúrgicas de Manaus), Athaydes Félix Mariano, responsável em parte pelas informações, além da produção, a atual conjuntura da mão-de-obra do setor, deve sofrer sérios riscos a partir dos efeitos retardados da crise. O executivo considerou que, se por um lado, o crescimento médio de 3,5% na produtividade durante o primeiro semestre deste ano confirmou a tendência expansiva verificada nos três últimos anos, por outro, a ‘marola’ da crise financeira na segunda metade do penúltimo trimestre consolidou a forte desaceleração de 3,8% no comparado com o aumento da produtividade no mesmo período do ano passado (4,2%).
Construção e informática
Mariano afirmou ainda que a demanda dos segmentos de construção civil e bens de informática, apesar de abrirem a perspectiva para um avanço entre 11% e 12% no nível de produção até o fim do quarto trimestre, é para o pólo de duas rodas que segue a maior parte da produção fabril “Os nossos principais clientes se concentram nesse nicho de mercado, significando dizer concretamente que, caso a onda de retração atinja as linhas fabris de duas rodas, fatalmente seremos atingidos com a mesma intensidade de impacto”, asseverou.
Além do possível estrago que a ‘força de arrasto’ causada pelo atrelamento ao pólo de duas rodas pode trazer à metalurgia local, o horizonte ainda nebuloso para a busca de novos contratos de financiamentos bancários é outro fator que, segundo Mariano, pode implicar em queda no ritmo de produção e na consequente involução na oferta de frentes de trabalho. “A maioria das empresas está temerosa em buscar empréstimos no exterior por conta dessas oscilações no mercado mundial. Além disso, o preço das commodities fez disparar o sinal vermelho para as importações. Há um nítido horizonte de desconfiança generalizada entre os empresários”, considerou o presidente do Sinmem.
Os números oficiais da segunda metade do terceiro trimestre divulgados pela Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) ajudam a corroborar o panorama projetado pelo executivo. Até o mês de agosto, segundo os indicadores do desempenho industrial, a evolução da mão-de-obra do PIM (entre efetivos, temporários e terceirizados) na metalurgia foi 9,94% ao mês, um recuo de oito pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano passado. Ainda segundo a autarquia, a aquisição de insumos no exterior até agosto saltou de US$ 369.88 milhões no ano passado para os atuais US$ 386.19 milhões, uma expansão de 4,40% distante dos 12% projetados pelo Sinmem para esse período.
Para Abraciclo, pólo de duas rodas se mantém estável
Mas o alarmismo no mercado mundial aparentemente parece não atingir os representantes do pólo de duas rodas, pelo menos na opinião do diretor executivo da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), Moacyr Alberto Paes, o qual manteve a estimativa de crescimento de 17,3% para este ano no comparado a 2007. O executivo acredita que, até o fim do ano, a produção nacional de motocicletas poderá ultrapassar a marca das 2,040 milhões de unidades, uma vez que os associados já produziram 1,683 milhão unidades até setembro. “No total do ano passado, esse número foi de 1,734 milhão, ou seja, dentro do atual cenário econômico mundial, com o aumento da taxa de juros, restrição ao crédito, redução no prazo dos financiamentos e variação cambial, já foi alcançado um crescimento fantástico, pois ainda faltam todo um trimestre para produzir. Esperamos que esses dados não sejam desmentidos, que cresçam mais, embora seja melhor ficar com os dois pés no chão mesmo. Os números podem ser alterados, mas hoje o cenário é este”, afirmou.
A Abraciclo também espera encerrar 2008 com uma expansão de 20,6% em unidades vendidas no mercado interno, podendo alcançar a marca das 1.930 mil motocicletas vendidas esse ano em relação a 2007, quando foram comercializadas 1.600 unidades. “Estamos praticamente encostados nos dados do ano passado, mas se o crescimento vai continuar nos próximos meses, ainda é uma interrogação”, analisou.
Para o empresário Valdemir Magalhães, que atua no segmento de metalurgia, com a crise atual nas bolsas de valores tendo graves reflexos na economia mundial, afetando a geração e manutenção de vagas de emprego, as empresas estão perdendo o interesse em comprar insumos de países onde o preço ou prazo de entrega sejam pouco atrativos, como Estados Unidos, Japão e outras potências na Europa. “Em nível local, a partir de setembro, nota-se uma queda no desempenho da produtividade metalúrgica, apesar de já termos ratificado a capacidade de trabalhar praticamente com alto volume o ano inteiro. Por isso, já estamos revendo nossas metas percentuais de produção”, arrematou.
Natal segura empregos no comércio
O trabalhador amazonense está na iminência de perda de emprego decorrente do impacto da crise econômica mundial. No entanto, na prática as demissões ainda não acompanharam o avanço da crise, porque as empresas estão apostando nas vendas natalinas. A grande preocupação é o início de 2009, quando a maioria dos trabalhadores volta das férias coletivas de fim de ano, isso na indústria. No comércio, tradicionalmente as dispensas acontecem em janeiro, momento em que as vendas decrescem, principalmente em setores como roupas e calçados.
Na avaliação do vice-presidente do Sindicato dos Comerciários, José Ribamar Vieira do Nascimento, os lojistas não irão tomar nenhuma decisão neste sentido antes do Natal, o melhor período de vendas. “Se algumas empresas do Distrito Industrial estão com o freio de mão puxado para se precaver da crise, o comércio também caminha neste sentido, mas acredito que, se tiverem que reduzir seus quadros de pessoal, o farão no início de janeiro”, apontou, lembrando que, tradicionalmente, nesse período as vendas arrefecem e o desemprego se torna inevitável.
Diante do cenário enfrentado, Nascimento disse que as projeções de contratação de mão-de-obra temporária – que normalmente acontece na segunda quinzena de novembro para reforçar as vendas de dezembro podem não acontecer. Atualmente, o comércio varejista e atacadista de Manaus gera, em média, 90 mil empregos diretos. “Vamos torcer para que a onda de crise não afete os negócios como está sendo propalado nos quatro cantos do mundo e que empresários não sejam obrigados a demitir seus empregados”, defendeu.
Integrante da ABRH-AM (Associação Brasileira de Recursos Humanos no Amazonas), a consultora Elaine Jinkings, que atende várias empresas do PIM (Pólo Industrial de Manaus), disse que, por enquanto, desemprego não está havendo, e sim medidas de contenção de despesas. Ela disse que alguns eventos já foram suspensos. “As empresas que trabalham com insumos importados estão cortando as gorduras, porque sabe que se o dólar continuar subindo ante o real vão ter problemas mais na frente”, disse, ressaltando que ‘se o desemprego ainda não deslanchou já está pauta’.
O quadro mais desolador na opinião da profissional de RH é o próprio trabalhador que emocionalmente está preocupado, com medo de ser desligado a qualquer momento. Com a economia fluindo normal, comentou Elaine, já acontecem dispensas após as férias coletivas – de parte do mês de dezembro e meados de janeiro -, imagine num clima de crise mundial. “Os colaboradores ficam ansiosos, sem saber direito o que pode acontecer”, mencionou a especialista.
A consultora de recrutamento e seleção de pessoal, Lígia Maria Duque Johnson, admitiu que as contratações do PIM estão suspensas, mas que não existe nenhuma disposição para redução de quadro até dezembro. Como a produção industrial estava aquecida, ela disse que as empresas resolveram desacelerar o ritmo de produção e esperar para ver como vai ficar o quadro econômico mundial. “As empresas estão atentas e preferem aguardar, inclusive brecando algumas despesas”, comentou.
Antes de se instalar o processo de crise econômica, Lígia disse que a indústria do PIM trabalhava com a projeção de manter as linhas de produção funcionando normalmente até meados de dezembro, parando na segunda quinzena por conta das festas de fim de ano, retornando em janeiro. “Infelizmente, o cenário mudou drasticamente com a queda das bolsas e a alta da moeda americana, mudando os planos das fabricantes que estão cumprindo as entregas do que já havia sido encomendado”, disse.
Empregos Industriais
De acordo com indicadores industriais da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), nos primeiros oito meses de 2008 a indústria local gerou 95,93 mil empregos diretos contra 88,96 mil em igual período do ano passado. O incremento foi de 7,82% entre um período e outro. Entre os maiores empregadores estão as empresas dos segmentos eletroeletrônico, duas rodas e o químico.
Commodity dispara
A descompressão do nível de utilização da capacidade instalada da indústria nos próximos meses a partir dos altos preços que as peças metálicas vêm ganhando no mercado parece um caroço difícil de ser engolido. Na passagem de julho para agosto, esse nível de utilização caiu de 83,1% para 81,03%, descontados os efeitos sazonais. Se foi um efeito primário da disparada da commodity no mercado internacional ou não, o resultado deverá ser conhecido no fim de outubro.
Mas a tendência de queda apontada pela metalurgia no Amazonas parece acompanhar o setor em nível nacional, já que, durante o primeiro semestre deste ano, segundo dados do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), na lista de setores com decréscimo na produtividade, a metalurgia básica aparece com queda de 2%, seguida das empresas de produtos de metal, inclusive máquinas e equipamentos (–0,6%), Produtos químicos (–0,5%) e Alimentos e bebidas (–0,2%).
A mesma pesquisa apontou que setores com expansão no produto e nas horas pagas, foram apenas cinco no primeiro semestre, enquanto no ano passado foram oito no mesmo período. O menor número de setores com expansão virtuosa da produtividade reforça a possibilidade de desaceleração no crescimento da produtividade para o segundo semestre em relação ao final de 2007.
Tecnicamente, baixa produtividade não anda lado a lado com a retração na oferta de trabalho. Pelo menos segundo a pesquisa divulgada no último fim de semana pela empresa de consultoria Korn/Ferry, a qual revelou que para 64% dos executivos, apesar da crise financeira mundial em pleno vapor, os países emergentes oferecem as melhores oportunidades de emprego na economia atual. E a tendência é que estagiários e profissionais brasileiros formados percam interesse por EUA e Europa. Apenas 22% dos participantes citaram os Estados Unidos e 9% o Japão e a Europa Ocidental.
De acordo com o estudo, quando questionados se aceitariam mudar de país caso recebessem uma proposta de trabalho, 22% disseram ser mais provável aceitar o convite de mudança de residência e de emprego se o país estivesse vivendo um cenário de desaceleração econômica. Os principais motivos que levariam à recusa de uma proposta internacional seriam, pela ordem, questões familiares (62%), falta de conhecimento ou insegurança quanto ao idioma (13%), dificuldades de retorno ao país de origem (8%), segurança (5%), custo (5%) e padrão de vida (4%).
Intercâmbio profissional
A situação atual da crise econômica também reflete na opinião dos jovens que planejavam fazer intercâmbio. Os que já estavam com a viagem marcada estão temerosos quanto à economia das nações desenvolvidas e a instabilidade do dólar. O diretor de comunicação da Estagiários.com, empresa especializada no encontro de jovens talentos e grandes instituições para a geração de vagas de estágio e trainee, Giuliano Bortoluci, disse em entrevista para o Jornal do Commercio que adiar os planos pode não ser uma escolha errada, mas ponderada. “O Brasil está se destacando quanto ao investimento em oportunidades de estágio e, com a nova lei, o número de vagas pode ser ainda duplicado. O momento é favorável para os estudantes brasileiros, pois, além dos benefícios para os estagiários previstos na nova lei, as empresas estão optando por treinar e capacitar os jovens talentos”, disse em nota.






