“O ano de 2014 tem sido muito duro para as indústrias e o segundo semestre não será diferente”, disse o diretor do Grupo Ciex, Davis Benzecry, durante entrevista exclusiva concedida ao Jornal do Comércio, sobre o mercado da Castanha do Brasil. Ele revela que mesmo com os preços recordes pagos ao produtor, não foi possível fazer o mercado consumidor pagar o preço justo. A expectativa é de gerenciar esse cenário até o fim do ano.
A Castanha do Brasil é um dos principais produtos de exportação do Amazonas. No primeiro semestre, o Estado exportou cerca de US$ 2,7 milhões da castanha com casca, aumento de 6,52% na comparação com o mesmo período do ano passado e sem casca, as vendas externas totalizaram US$ 845 mil, uma queda de 54,15%, em relação a igual período.
Atualmente o mercado brasileiro da castanha descascada responde por mais de um terço das vendas da empresa e paga os melhores preços. O Grupo Ciex é um dos mais tradicionais grupos empresariais na região Norte, exporta seus produtos para os cinco continentes, além de também comercializá-los em várias unidades da federação: Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal.
Jornal do Commercio – A Castanha do Brasil é o principal produto negociado no mercado externo, do ponto de vista da coleta?
Davis Benzecry – Se considerarmos que exploração de madeira e mineração são igualmente coleta, a resposta é não. Se considerarmos uma atividade extrativista sustentável e ecologicamente correta a resposta é sim. A castanha necessita da floresta para estar disponível economicamente. Seu processo de polinização exige a preservação do habitat de várias espécies responsáveis pelo processo em sua plenitude. Projetos de plantio de castanheiras geram árvores de porte semelhante aos daquelas que estão nas florestas nativas. Sua produção, contudo, é limitada por uma polinização que não ocorre de forma plena como as da natureza. Ou seja, para termos castanha em nossas mesas, precisamos não apenas ter castanheira, como também preservar a floresta em seu redor.
JC – Como funciona esse mercado internacional? O produto é mesmo uma Commodity?
Davis – Do ponto de vista de marketing, falar que um produto é uma commodity é a tristeza suprema. Nossa empresa tenta fazer com que nossas marcas comerciais se destaquem e recebam a preferência do mercado. Mercados mais evoluídos, o norte-americano, por exemplo, conseguem fazer a distinção e estão dispostos a pagar, dentro de alguns limites, pela qualidade. Apenas como exemplo, até agora, em 2014, a CIEX teve participação de 88% nas vendas de castanha com casca para o mercado norte-americano. Por outro lado, alguns mercados como o mercado brasileiro, ainda não conseguem distinguir totalmente a qualidade e tratam a castanha, pelo menos parcialmente, como uma commodity. A China, com todo seu enorme potencial, tratou a castanha com casca como commodity, comprou de empresas despreparadas e está com estoques envelhecendo, impedindo vendas novas para aquele mercado. Como eu disse, isso é a tristeza suprema, mas é apenas uma questão de tempo para que também nesses mercados os consumidores consigam distinguir a qualidade, pois tem saído caro para aqueles que se arriscam comprando produtos inferiores, assim como para as empresas aventureiras que vendem esses produtos.
JC – No primeiro semestre o Amazonas exportou US$ 2,7 milhões de castanha com casca, aumento de 6,52% e US$ 845 mil sem casca, queda de 54,15%. O que houve no mercado da castanha sem casca?
Davis – Apesar desse pequeno crescimento, no geral o mercado de castanha com casca está encolhendo no mundo, pois a China voltou a ser apenas uma esperança de grande potencial. Poderíamos falar das razões por várias horas, mas a questão é o que aconteceu com as exportações de castanha descascada e a resposta é simples: o mercado brasileiro paga hoje preços melhores, mesmo sem distinguir qualidade! No passado, a totalidade de nossas vendas eram destinadas a outros países. Hoje, no caso da castanha descascada, o mercado brasileiro já responde por mais de um terço de nossas vendas.
JC – O Grupo Ciex também se destaca na exportação de Castanha? Em que ranking?
Davis – Com as estatísticas disponíveis no Brasil, criar um ranking é uma tarefa bastante complexa. Vejamos o caso da castanha com casca. Até julho de 2014 o Brasil havia exportado 85% desse item da pauta de forma “in natura” para outros países da América do Sul. Esses 85% responderam por apenas 43% da receita. Os 15% restantes responderam por 57% da receita. Nossa empresa participou apenas dos 15% que foram exportados processados e teve quase 60% de participação nessa fatia do bolo. Assim, falar de um ranking complicado como é, não impede de dizer que o Grupo Ciex é bastante respeitado no mercado de castanha, seja ela com casca ou descascada. No dia 7 de novembro deste ano de 2014 a Ciex completará 70 anos com o nome Ciex e isso é motivo de enorme orgulho para todos nós.
JC – A exportação de castanha atingiu US$ 3,6 milhões no primeiro semestre. Barreiras sanitárias bloqueiam a exportação de castanha? Quais são os prejuízos?
Davis – As barreiras sanitárias já causaram danos maiores no passado. Hoje, com os novos mercados (inclusive o brasileiro), os danos já são bem menores. O problema das barreiras não são os limites impostos, mas sim a metodologia adotada para testes que fere a lógica e continuam em vigor para castanha com casca. Essa é uma das razões para o encolhimento daquele mercado. Para se estimar um prejuízo, teríamos que imaginar qual o tamanho do mercado para este produto, que margem deixariam; qual a margem nos mercados que os substituíram; o que aconteceria com as margens se outros entrassem; etc. São tantos “ses” que prefiro não perder tempo com isso.
JC – Como funciona a cadeia de produtiva da castanha?
Davis – Não existe uma, mas várias cadeias produtivas. Compramos de produtores donos dos castanhais e que produzem eles mesmos sua castanha. Nesse grupo estão incluídos produtores que entregam seus produtos em nossos armazéns e outros cuja produção vamos buscar com nossos barcos. Compramos de fornecedores que são os donos das áreas, mas que cedem a terceiros a exploração recebendo uma participação nas vendas. Compramos de produtores que não são donos das áreas, mas que negociam a exploração desvinculando das vendas. Compramos dos chamados regatões que compram de produtores e revendem para nós. No entanto, independentemente da modalidade comercial em que esteja inserida, a produção ainda depende do homem entrar na mata, recolher o ouriço, abri-lo, retirar as castanhas e levar para seu destino, na maior parte das vezes por via fluvial.
JC – E sobre o processo de industrialização, no Amazonas, houve avanço na questão tecnológica, ou continua de forma artesanal?
Davis – Hoje o processo de industrialização está completamente mecanizado, deixou de ser artesanal. Antes era realizado por quase trezentas descascadeiras. Atualmente não há contato manual no processo de descascamento, caso uma castanha não descasque, ela volta automaticamente para a centrífuga.
JC – O que ainda precisa ser feito para o Amazonas ocupar as primeiras posições no ranking internacional com a Castanha do Brasil?
Davis – O principal é impedir que aquele volume enorme de castanha “in natura” continue a sair do Estado e dê oportunidade para que seja processado e tenha valor agregado aqui, e não lá fora. Nós imaginamos que o volume registrado no Siscomex é apenas uma parte do que sai. No entanto, sabemos a hercúlea tarefa que isso representa para os agentes da fiscalização.
JC – Quais as expectativas em relação à Castanha do Brasil, para o próximo semestre de 2014?
Davis – O ano de 2014 tem sido muito duro para as indústrias e o segundo semestre não será diferente. Os preços pagos ao produtor foram recordes e não conseguimos fazer o mercado consumidor pagar o preço que cabia. Vamos tentando gerenciar este cenário.






