Endividamento e inadimplência das famílias com queda em Manaus

Em: 26 de janeiro de 2022

A proporção de consumidores de Manaus endividados com cartões, carnês e outros meios de pagamento caiu pelo segundo mês seguido, entre novembro e dezembro. O percentual de inadimplentes, contudo, foi na direção contrária e subiu com mais força, pelo terceiro mês consecutivo. Em ambos os casos, a capital seguiu trajetória inversa à da média nacional. É o que revela a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Na sondagem, 69,1% das famílias manauenses (443.170) se dizem endividadas, número abaixo do apresentado em novembro de 2021 (70,6% e 452.310), mas ainda acima do dado de 12 meses atrás (68,4% e 432.479). O índice de inadimplência cresceu entre o 11º (25,9% e 166.026) e o 12º (27,6% e 177.250) mês de 2021, assim como em relação à marca de dezembro de 2020 (26% e 164.710). Ao menos 14,4% (92.516) declararam já não ter condições de quitar dívidas em atraso, mais do que no mês anterior (13,9% e 89.363), embora próximo ao patamar do ano passado (14,5% e 91.400).

Em âmbito nacional, 2021 se encerrou com 70,9% das famílias se assumindo endividadas, o maior percentual em 11 anos. Dezembro (76,3%) alcançou o patamar máximo do ano,na 13ª elevação mensal seguida, revelando que as famílias recorreram mais ao crédito para sustentar o consumo. O percentual de inadimplentes, por outro lado, encolheu 0,3 p.p. e pontuou média de 25,2% em 2021 – mas alcançou 26,2% na variação mensal de dezembro. Já a parcela de brasileiros sem condições de pagar as contas andou para trás 0,6 p.p., totalizando 10,5% no ano – e 10% no mês.

Em todo o país, apenas o Centro-Oeste (64,9%) apresentou queda (-0,3 p.p.), enquanto o Norte (69,6%) teve estabilidade e o Sudeste (69,1%) se destacou com aumento de 5,9 p.p. O Sul (81,7% +5,5 p.p.) e o Nordeste (72,78% e +4,5 p.p.) vieram na sequência. A taxa mais elevada de inadimplentes foi verificada no Nordeste (30,6%), enquanto o Norte (13,2%) apresentou a maior a parcela de famílias sem condições de pagar dívidas. No outro extremo, estão o Centro-Oeste (20,6%) e o Sul (7,2%), respectivamente.

Cartão e carnês

Houve uma nova piora relativa e qualitativa no nível de endividamento dos manauenses. A maioria se diz “muito endividada” (38,3%), seguida pelos “mais ou menos endividados” (16,6%) e pelos “pouco endividados” (14,2%). No mês anterior, os respectivos números haviam sido 34,1%, 16,9% e 19,6%. Consumidores com renda superior a dez mínimos (69,2%) superaram a média (69,1%) – puxados pelos “muito endividados” (39,1%).

Assim como na média brasileira, o cartão de crédito foi o maior vilão do endividamento em Manaus, respondendo por 87,3% das dívidas, com nível acima do anterior (80,5%) e novo predomínio das famílias mais ricas (90,9%). Os carnês (50,2%) ficaram na segunda posição, desacelerando ante novembro (50,8%), e sendo impulsionados também pelos que recebem mais (50,9%). Foram seguidos de longe por cheque especial (26,9%), financiamento de carro (21,5%), “outras dívidas” (17,9%), financiamento residencial (16,9%), crédito pessoal (14,6%), crédito consignado (7,5%), e cheque pré-datado (1,7%).

Já entre os consumidores manauenses com compromissos financeiros em atraso, os que ganham mais (45,5%) já superam os que recebem menos (39,5%). Apenas 25,7% garantem que conseguirão pagar a dívida integralmente e 22,1% estimam que conseguirão quitar o compromisso apenas parcialmente. Pelo menos 25,4% devem há mais de 90 dias – especialmente os mais pobres (26,7%). A fatia de manauenses com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (61,8%) ainda é majoritária, enquanto o grupo pendente há menos de um mês responde por somente 12,1% do bolo. 

A situação amenizou nas estimativas de tempo de comprometimento com as dívidas, já que diminuiu o percentual dos que estimam levar mais de um ano para isso – de 47,5% para 45,4%. O oposto se deu nos demais grupos. O dos ‘pendurados’ por até três meses subiu de 13,9% para 14,5%. O mesmo se deu na fatia de devedores comprometidos entre seis meses e um ano, que passou de 20,2% para 21,4%. Já a parcela de consumidores com compromissos de três a seis meses avançou de 16,5% para 17,2%.

O mesmo não se deu no comprometimento de renda. Em média, as famílias manauenses consomem 39,1% de seus ganhos com dívidas, mais do que os 38,1% anteriores. Pelo quarto mês, o grupo das famílias que recebem mais de dez mínimos seguiu preponderante (41,5%). Houve piora também na distribuição por níveis de comprometimento: a maioria gasta gastam mais da metade de seus ganhos mensais com dívidas (48,5%). Na sequência estão os que gastam de 11% a 50% (44%) e os que limitam os dispêndios a 10% de seus ganhos (5,1%). Em novembro, as respectivas fatias foram de 43,4%, 49,2% e 5%.

Juros e pandemia

Ao analisar os dados gerais do indicador da CNC, o presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, lamentou o aumento de inadimplência e assinalou que a tendência ainda é de alta, em razão dos juros, da inflação e do câmbio. “O Banco Central, com certeza vai mexer na taxa Selic, cada vez mais estimulando a especulação, que tira substancia dos negócios. O comércio vai viver momentos difíceis, não só em função da inadimplência, mas também pelas dificuldades que a pandemia está gerando”, lamentou.

O dirigente considera, contudo, que a inadimplência de Manaus segue estável, quando comparada ao dado de dezembro de 2020 e diz que a capital encerrou 2021 em um momento de crescimento, com reação no mercado de trabalho e melhoria na arrecadação. “Mas, agora, passamos por um cenário de pandemia e os órgãos de controle estão pedindo providências que podem restringir a atividade. Mas, nossa expectativa é que vamos superar esse período difícil e vamos ter um pico de apenas cinco ou seis dias. Não é como as variantes anteriores. A mortalidade é praticamente inexistente, apesar de termos a demanda hospitalar no horizonte”, ponderou.

“Desafios financeiros”

Em texto da assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, observa que o brasileiro conseguiu evitar o aumento da inadimplência, até o fim do terceiro trimestre. Mas, lembra que a tendência se inverteu, indicando alta para o início de 2022. “Os consumidores seguirão enfrentando os mesmos desafios financeiros da segunda metade de 2021, principalmente inflação, juros elevados e mercado de trabalho formal ainda frágil. Soma-se a isso o vencimento de despesas típicas do primeiro trimestre, que deverá apertar ainda mais os orçamentos domésticos neste período”, frisou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que, entre as famílias com rendimentos acima de 10 salários mínimos, a demanda represada, em especial pelo consumo de serviços, fez o endividamento aumentar ainda mais – em especial no cartão de crédito. “O processo de imunização da população possibilitou a flexibilização da pandemia, refletindo no aumento da circulação de pessoas nas áreas comerciais, ao longo do ano. Isso respondeu à retomada do consumo, principalmente de serviços”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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