O rio Unini é um tributário do rio Negro, localizado no município de Barcelos. Três unidades de conservação ambiental fazem parte da bacia do Unini: o PNJ (Parque Nacional do Jaú), a RDS Amanã (Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Amanã) e a Resex Unini (Reserva Extrativista do Rio Unini). É nessa última, com o apoio da FVA (Fundação Vitória Amazônica), que está sendo desenvolvido um projeto de coleta, preparo e venda de castanhas como nunca foi feito antes naquela região. “Atualmente moram 188 famílias, que dependem dos produtos da floresta e da agricultura familiar em uma região de grande biodiversidade”, disse Ignácio Oliete, coordenador do Programa de Desenvolvimento Humano Integrado da FVA.
As comunidades do Unini e a FVA iniciaram um trabalho conjunto ainda na década de 1990. Dessa união surgiu a Amoru (Associação de Moradores do Rio Unini), que depois lutou pela criação de uma reserva extrativista, o que aconteceu em 2006. “Após a criação da resex, diversos projetos executados pela FVA têm visado a geração de renda com produtos da região. Entre 2006 e 2013 pelo menos quatro projetos tornaram possível a estruturação da cadeia produtiva da castanha, através da Central Agroextrativista da União dos Moradores do Rio Unini”, explicou Ignácio.
A escolha da castanha deu-se por ser um produto abundante na região, com excelente potencial de mercado e com exigências relativamente baixas de tecnologia para agregação de valor.
“Apesar de a castanha ser explorada comercialmente há décadas, pelos nossos projetos pretendemos ter um diferencial de um empreendimento empresarial convencional: atuamos em uma comunidade ribeirinha, e não numa sede municipal; além da castanha, a comunidade explora a farinha, a borracha e cipós; o gerenciamento é feito pelos próprios moradores”, informou.
Aumento da produção
Nas áreas de castanheiras, que já existiam na região quando ainda era habitada somente por indígenas, são incorporados novos indivíduos. A árvore, uma das maiores da Amazônia, podendo chegar a até 50 metros de altura, também vive muito, atingindo mais de 500 anos e, segundo alguns especialistas, de 1.000 a 1.500 anos de existência.
Atualmente 50 pessoas atuam na Central, entre castanheiros e trabalhadores. Entre os meses de fevereiro e maio, o coletor ou sua família se deslocam até o castanhal e recolhem as castanhas. Nesse período eles se alojam na própria colocação.
De volta à Central, as castanhas são lavadas, descascadas e embaladas à vácuo com uma máquina própria.
“A castanha ‘in natura’ é comprada ao castanheiro por R$ 12, a R$ 18, cada 10 kg (ou uma lata, medida de 20 litros). Depois de beneficiada, o quilo da amêndoa varia de R$ 20, a R$ 50, o quilo, dependendo da categoria da castanha e da venda no atacado ou varejo”, falou Ignácio.
E os membros da comunidade ganham duas vezes. “O retorno financeiro para a comunidade é duplo, primeiro pela coleta da castanha na floresta e venda para a Central, depois pelo beneficiamento dela”.
Números do ano passado mostram o desenvolvimento da produção na Central, divididos em dois ciclos, com quatro dias de trabalho cada um. No primeiro ciclo foram pesados 1.366 kg de castanha e 1.986 kg, no segundo ciclo, totalizando 1.995 pacotes de amêndoas. Foram pagos, no total, R$ 8.136, aos trabalhadores com valor médio de R$ 286, por trabalhador.
“Ainda estamos vendendo as cantanhas, no atacado e no varejo, de forma experimental na sede da FVA em Manaus (3642-4559), ou através do nosso site www.fva.org.br. O objetivo é, a cada safra, aumentar a produção, o número de castanheiras plantadas, o ganho da comunidade e a proteção permanente da reserva”.
Bolívia, o maior exportador
A castanha (Bertholletia excelsa) é um fruto com alto teor calórico e protéico, além disso contém o elemento selênio que combate os radicais livres e muitos estudos o recomendam para a prevenção do câncer.
É nativa da Amazônia e ocorre em árvores espalhadas pelas grandes florestas às margens dos rios Amazonas, Negro, Orinoco, Araguaia e Tocantins. O gênero foi batizado em homenagem ao químico francês Claude Louis Berthollet.
Atualmente é abundante apenas no Acre, no norte da Bolívia (seu maior exportador) e no Suriname. Está incluída na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais como vulnerável. O desmatamento é a ameaça a sua populações. Nas margens do Tocantins foi derrubada para a construção de estradas e de uma barragem. No sul do Pará, por assentamentos de sem-terra. No Acre e no Pará, a criação de gado provoca sua morte, e a caça das cutias, que são os dispersores naturais de suas sementes, ameaça a formação de novos indivíduos.
É altamente consumida pela população amazônica “in natura”, torrada, ou na forma de farinha, doces e sorvetes.







