“Euclides da Cunha,
revelador da realidade brasileira”
(Gilberto Freire)
Voltando à nossa Região, diz Ele em “Clima Caluniado”, criticando a maneira como foi feito o povoamento do Acre: “Em todas as latitudes foi sempre gravíssima nos seus primórdios, a afinidade eletiva entre a Terra e o Homem. Salvam-se os que melhor balanceiam os fatores do clima e os atributos pessoais…. A cada deslize fisiológico ou moral antepõe-se o corretivo da reação física. E chama-se de insalubridade o que é um apuramento, a eliminação generalizada dos incompetentes. Ao cabo verifica-se algumas vezes que não é o clima que é mau; é o homem.”! … “ Neste caso atiremos de lado, de uma vez,um estéril sentimentalismo e reconheçamos naquele clima uma função superior.”! .. “Policiou,saneou ,moralizou.Elegeu e elege para a vida os mais dignos.Eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte.E é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons.”!
Na “ A Transacreana” pugna pela construção das ferrovias na Região, atividade ainda considerada tabu nos dias de hoje! Ao elogiar os varadouros diz: “ O varadouro- legado da atividade histórica dos paulistas compartido hoje pelo amazonense, pelo boliviano e pelo peruano- é a vereda atalhadora que vai por terra de uma vertente fluvial à outra. A princípio tortuoso e breve,apagando-se no afogado da espessura,ele reflete a própria marcha indecisa da sociedade nascente e titubeante, que abandonou o regaço dos rios para caminhar por si.”
Segundo Euclides, os varadouros permitiram o quase total conhecimento da região. “ Deste modo,em pouco mais de um mês de travessia, vencendo-se 907 km por águas e 660 por terra, pode-se vir de Tabatinga à Vila Bela,diagonalmente, de um a outro extremo da Amazônia , naquele itinerário de 250 léguas.” .. “ Deste modo,a grande estrada de 726 km, unindo os três departamentos, e capaz de prolongar-se de um lado até o Amazonas, pelo Javari, e do outro até ao Madeira, pelo Abunã, está de todo reconhecida, e na maior parte trilhada.”
“ A intervenção urgentíssima do Governo Federal impõe-se como dever elementaríssimo de aviventar e reunir tantos esforços parcelados. Deve consistir porém no estabelecimento de uma via férrea- a única estrada de ferro urgente e indispensável no Território do Acre.”
Continuando, Euclides pulveriza os críticos e céticos, ao analisar a colonização inglesa na Índia, que, segundo Ele, tem condições de solo aluvionais e climáticas idênticas à nossa Região.
“ Na Índia, como entre nós, não faltaram profissionais apavorados ante as dificudades naturais- esquecidos que a engenharia existe precisamente para vencê-las.”!
Em entrevista ao Jornal do Commercio, em Manaus, 29 de Outubro de 1905, comenta o esforço sobre-humano que a Comissão Brasileira fez para o reconhecimento do Alto Purus. “… Íamos em canoas, e se considerardes que os seus tripulantes empunhavam pela primeira vez os varejões e os remos, se atenderdes que o rio, esgotado, impunha os máximos resguardos no se evitarem choques em paus e encalhes nos baixios, e se somardes todas as paradas obrigatórias nas estações em que avaliávamos as distâncias com a luneta Lugeal-ajuizareis de todo o nosso desapontamento e quase desânimo resultantes de um confronto da nossa marcha ronceira de três a quatro milhas diárias e o desmedido da distância a percorrer.” “ …E fomos à meia ração. … e os víveres que levávamos, no máximo para 25 dias, reduziam-se à carne-sêca, farinha que se acabou ao fim de 12 dias, um pouco de açúcar que, tenazmente poupado, durou 3, meio garrafão de arroz, uns restos de bolacha esfarinhada, que uma chuva repentina diluiu, e algumas latas de leite condensado.”! “ Propositadamente apresento esta lista. É eloqüente.”!
Ao chegar no ponto culminante do varadouro, para observar o aneróide e verificar a altitude, observa, maravilhado:
“ O sol descia para os lados do Urubamba… Os nossos olhos deslumbrados abrangiam, de um lance, três dos maiores vales da Terra; e naquela dilatação maravilhosa dos horizontes, banhados no fulgor de uma tarde incomparável, o que eu principalmente distingui, irrompendo de quadrantes dilatados e trançando-os inteiramente- ao Sul, ao Norte e a Leste- foi a imagem arrebatadora da nossa Pátria que nunca imaginei tão grande.”!
Assim foi e assim viveu o nosso genial engenheiro e escritor, trilhando o nosso País Continente nos dizeres de Viriato Correia: “ Euclides nunca “se assentou”. A sua vida tem sido uma vida errante, ora aqui, ora ali,numa comissão, noutra, as malas sempre prontas, os livros dentro das malas. Ora em Minas, em São Paulo, no Amazonas, no Acre, em Canudos; de lápis na mão, enchendo de algarismos os livrinhos de notas, como engenheiro.”!
Amaury Veiga é engenheiro civil e estrutural, formado pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas) na Turma Euclides da Cunha, em 1971







