Certificação ambiental é foco das indústrias

Em: 19 de agosto de 2008
Além de agregar ima­gem corporativa de compromisso com a sustenta­bilidade, empresas buscam obter a ISO 14001também para se manterem competitivas no cenário mundial
Além de agregar ima­gem corporativa de compromisso com a sustenta­bilidade, empresas buscam obter a ISO 14001também para se manterem competitivas no cenário mundial

Desembolsar até R$ 50 mil para certificar uma empresa no sistema de gestão ambiental dentro das normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ISO 14001 pode ser um dos motivos do PIM (Pólo Industrial de Manaus) ainda não ter atingido pelo menos 50% do universo das 500 indústrias incentivadas pelo modelo ZFM (Zona Franca de Manaus).
De acordo com dados da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), atualmente, um pouco mais de 50 empresas estão certificadas na ISO 14001, o que representa uma média de apenas 10%.
De acordo com a superintendente da Suframa, Flávia Grosso, independente das exigências legais, o próprio mercado tem demandado um maior compromisso socioambiental por parte das empresas. “Quem detém uma certificação ambiental certamente está à frente de seus concorrentes na disputa pelo mercado, já que, com a iniciativa, agrega valor à sua marca e conquista o consumidor mais exigente”, comentou.

Exigência internacional

O gerente de gestão ambiental/segurança da Moto Honda da Amazônia, Josué Castro Campos, também garantiu que a certificação agrega para a empresa uma imagem corporativa de compromisso e respeito ao meio ambiente perante o mercado e à própria sociedade. Ele disse que muitas empresas são obrigadas a certificar seu sistema, porque o cliente no país importador de destino exigiu. “Muitos exportadores só fecham contrato se o fabricante tiver o sistema de gestão ambiental certificado pela ISO 14001”, informou, ressaltando que, mesmo não tendo uma legislação específica, as empresas findam sendo obrigadas a se certificar para não perder participação no mercado.
No caso da Moto Honda, certificada há dez anos, Campos disse que para exportar para qualquer país, seu departamento de exportação, que fica em São Paulo, recebe cobranças com relação à cópia do certificado autenticado e consularizado no país de destino. “Cobram tanto que, quando o certificado de validade da empresa está prestes a vencer, a auditoria de certificação envia e-mail lembrando”, contou.
Segundo a coordenadora de marketing e publicidade da MB Consultoria, Adriana Fiúza, a demanda pela certificação está crescente, principalmente por empresas do pólo de Manaus. Ela explicou que o custo de implantação do sistema de qualidade ambiental varia de R$ 30 mil a R$ 50 mil, dependendo do porte da empresa, incluindo aí o número de funcionários, assim como de departamentos a serem trabalhados.
Além da indústria, a MB Consultoria atende a empresas dos ramos do comércio e de serviços. “Algumas empresas de alimentos, a exemplo de hotéis, estão procurando se adequar às normas forçadas por seus fornecedores”, disse Adriana, ressaltando que as empresas estão procurando trabalhar programas de conscientização ambiental voltados para coleta seletiva, uso racional de energia, reciclagem, além de oferecerem palestras aos seus funcionários.

Iniciativas empresariais

O anuário Análise Gestão Ambiental 2008 reúne, de forma sistemática e profunda, as principais iniciativas empresariais do Brasil adotadas para reduzir o impacto do processo produtivo sobre o meio ambiente. No total, 767 grandes companhias responderam ao questionário de 60 perguntas proposto pela análise. Entre elas, estão algumas situadas em Manaus como a Moto Honda, Bic Amazônia, Faber Castell, Orsa, Masa, LG Philips Display, Mineração Taboca, Philips do Brasil, Rigesa, Semp Toshiba, Showa, Siemens, Sony, Videolar, White Martins, Xerox, Amazônia Celular, Correios, Embratel, Petrobras e Ambev. O mesmo fizeram 15 dos maiores bancos, entre os quais o Bradesco. De acordo com o anuário, o conjunto de empresas e bancos listados são responsáveis por metade do PIB (Produto Interno Bruto) do país.

Empresas certificadas mantêm área verde

O levantamento aponta que 23% das empresas que responderam ao questionário já fecharam negócios para obtenção de crédito de carbono, 25% mantêm voluntariamente área verde nativa sob seu domínio, 42% utilizam fontes renováveis de energia, 46% só contratam fornecedores que empregam procedimentos de gestão ambiental, 48% têm projetos para reduzir a emissão de gases do efeito estufa, 56% possuem programas de plantio de árvores, 62% têm metas de redução de consumo de água, 68% publicam suas informações sobre gestão ambiental, 76% monitoram com indicadores específicos o consumo de energia elétrica, 98% dão treinamento sobre gestão ambiental para funcionários e 85% utilizam papel reciclado, percentual composto pelos que usam pouco (49%), usam muito (14%) e usam preferencialmente (22%).
Na opinião de Josué Campos, o meio ambiente passou a ser um assunto comum para todos. Segundo ele, não existe barreira, por se tratar de um tema que mexe com a vida das espécies. “Se os cuidados com a água, com os recursos naturais, com a poluição e o ar atmosférico não forem tomados, a nossa espécie não vai durar mais do que 300 anos”, disse.

Razões diferentes

Cada empresa tem um motivo para buscar a certificação. A razão da Honda, por exemplo, certificada desde 1998, foi uma decisão corporativa do grupo em nível mundial, cuja matriz fica no Japão. Campos contou que a organização traçou uma meta e uma diretriz determinando que cada fábrica espalhada no mundo teria um prazo para se adequar e se certificar no sistema de gestão ambiental. “O prazo para a Honda da Amazônia foi até o ano 2000, a empresa conseguiu em 30 de outubro de 1998”, informou.
Novidades é o que não falta nessa área. Segundo Josué Campos, em 2008, a fabricante de motos está trabalhando, entre outras coisas, para reduzir custos de resíduos e de lodo galvânico, com incineração de resíduos, redução de custos com destinação da borra de tinta na abertura de plásticos, consumo de água na estrutura de plásticos, redução do consumo de energia elétrica nas máquinas injetoras de plástico e de consumo de água. “Todos os temas visam à redução de custos, que vão de 20% a 70%”, assegurou.
Josué Campos disse desconhecer tema ambiental que não traga retorno financeiro para a empresa. Ele avaliou que, se não ganhar dinheiro, pelo menos deixa de perder. O gerente disse ainda que há dez anos as caldeiras da Honda queimavam com BPF (borra do petróleo que polui o meio ambiente). A partir da certificação, esse processo passou a ser feito com querosene, que polui menos.

Esforço para reduzir poluentes

Atualmente, ele afirmou que as caldeiras são bicombustíveis (flex), ou seja, tanto recebe o querosene como o gás GLP e já está pronta para receber o gás natural em 2010. “Como o querosene e o GLP estão sempre competindo nos preços, a empresa utiliza o que está mais barato porque nossa meta sempre é reduzir custos”, disse.
Segundo Josué Campos, de cada motocicleta produzida pela Honda no período entre 2000 e 2008, a fabricante reduziu de 26 quilos de resíduos para 19 quilos. O mesmo aconteceu com a matriz energética da empresa. Em 2000, para cada motocicleta produzida gerava 27,5 quilos de CO2, hoje este número caiu para 20 quilos. A meta é chegar o fim do ano com apenas17 quilos.
O tempo e a maturidade mostraram que a preservação ambiental é decorrente da preservação do capital e da pressão sobre ele, externa e interna. Daí porque os números apresentados na pesquisa do anuário podem ser festejados. O gerente de gestão ambiental da Moto Honda avaliou que a questão da qualidade é hoje tema discutido na maioria das empresas que desenvolvem produtos. “É cada dia mais presente a melhoria dos recursos humanos, a diminuição dos custos e desperdícios”, disse.

União preservacionista

No PIM, as empresas certificadas com a ISO 14001 têm deixado a concorrência fabril de lado e se mantido unidas quando o assunto é meio ambiente. A Comissão da Câmara de Comércio Indústria Brasil-Japão, reúne empresas de capital japonês que têm procurado evoluir seus sistemas de gestão ambiental. Uma das associadas é a Honda, que tem em torno de 21 fornecedores, sendo 14 de origem japonesa. Para que o assunto não fique restrito ao seu público fornecedor, a empresa se reúne com os concorrentes. As reuniões não acontecem somente na câmara, mas também nas empresas associadas. Josué Campos disse que já houve reunião na Honda, Yamaha, Denso, Showa, FCC e outras. “Os encontros têm duração de uma hora, logo após é feito um tour na área ambiental”, informou o gerente, ressaltando que a empresa mostra o que está desenvolvendo na área ambiental, tira dúvidas, o mesmo acontecendo com as demais concorrentes.

Em paz com a natureza

Segundo Campos, a experiência ajuda as empresas pertencentes à Câmara a evoluir seus sistemas, a buscar investimentos. “Meio ambiente é um assunto igual para todos. Na parte fabril existem segredos, o que não acontece na parte ambiental, porque o que uma empresa poluir, a outra vai respirar”, assinalou.
As empresas americanas que estão no pólo de Manaus também estão se movimentando neste sentido. No fim do mês passado, a Câmara de Comércio Brasil e Estados Unidos da América no Amazonas lançou um Comitê de Meio Ambiente com algumas empresas como a LG, Paioni, Lanaplast, que visam nesta mesma direção. O presidente da câmara, Cleber Góes, disse que a intenção do grupo é se reunir para trocar idéias sobre meio ambiente, redução de resíduos industriais, economia de água e de energia, entre outros assuntos.
De maneira geral, a busca pela qualidade ambiental iniciou na década de 1980, quando a Comunidade Econômica Européia elaborou uma diretiva específica para embalagens na área de alimentos, o que obrigou as empresas do setor a melhorarem o consumo de matérias-primas, energia e diminuir a geração de resíduos sólidos na fabricação de seus produtos.

Sobre a certificação

Em 1993 foi criado, na International Standardization –ISO, o Comitê Técnico 207 (TC-207), com o objetivo de estudar e elaborar um conjunto de normas que pudessem enfocar a questão ambiental de maneira ampla, tanto nos processos industriais como no de serviços. As primeiras normas aprovadas dessa série foram: ISO -14001 – Sistema de Gestão Ambiental-Especialização e Diretrizes para uso, ISO 14004 – Sistema de Gestão Ambiental- Diretrizes gerais sobre princípios, sistemas e técnicas de apoio, ISO – 14010 – Diretrizes para Auditoria Ambiental – princípios gerais, ISO 14011 – Diretrizes para auditoria ambiental –auditoria de sistemas de gestão ambiental, ISO 14012 – Diretrizes para Auditoria Ambiental – critérios de qualificação para auditores ambientais. Vale ressaltar que tais normas fornecem ferramentas às empresas para busca da melhoria em seus processos industriais e de serviços.
Para Josué Campos, obter a certificação das normas da ABNT ISO 14001 não é tarefa difícil, pois os requisitos exigidos são básicos. O difícil, disse, é a sua manutenção. “A própria norma exige que, uma vez certificada, o sistema deve ser avaliado a cada seis meses e, nesse período, deve ser apresentado o resultado da melhoria contínu”, explicou. caso contrário a empresa perde a certificação”, assegurou

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar