O preço da cesta básica em Manaus sofreu repique em março e registrou o maior aumento do país. O valor médio subiu 7,42%, passando de R$ 628,90 para R$ 675,56. Foi suficiente para eliminar o corte do mês anterior (+2,94%), acompanhando o movimento de reajustes em todas as 27 capitais brasileiras. Os dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do Dieese e da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) mostram encarecimento de 8,89% no trimestre. Em 11 meses, que é o período em que a sondagem voltou a ser feita na cidade, o indicador já trocou de sinal (+0,56%).
Todas as 27 capitais brasileiras registraram acréscimos mensais, principalmente Manaus (+7,42%), Salvador/BA (+7,15%) Recife/PE (+6,97%), Maceió/AL (+6,76%) e Aracaju/SE (+6,32%), entre outras. Apesar da alta, houve recuo na maior parte dos itens da sua cesta básica da capital amazonense (R$ R$ 675,56), mas a cidade passou do sexto para o segundo mais elevado valor da alimentação básica na região Norte, perdendo apenas para Boa Vista/RR (R$ 680,01) e tendo Porto Velho/RO (R$ 623,42) na outra ponta. Manaus ainda passou do oitavo para o 12º preço mais baixo do país, que tem Aracaju/SE (R$ 598,45) e São Paulo/SP (R$ 883,94) nos extremos.
Tomate e carne
O levantamento revela que cinco dos 12 produtos que compõem a cesta básica de Manaus ficaram mais caros entre fevereiro e março. A lista inclui tomate (+37,25%), carne bovina de primeira (+5,65%), feijão carioca (+5,56%), farinha de mandioca (+2,09%) e leite integral (+0,92%). Em contrapartida, açúcar cristal (-3,41%), arroz agulhinha (-2,80%), café em pó (-2,53%), óleo de soja (-0,96%), banana (-0,88%), manteiga (-0,85%) e pão francês (-0,57%) ficaram menos distantes dos bolsos dos consumidores manauaras.
O acumulado do ano confirma que a redução no custo da alimentação básica na cidade começa a ficar mais restrita em 2026. No primeiro trimestre, seis produtos da cesta básica registraram reajustes para cima em Manaus: tomate (+55,12%), carne bovina de primeira (+6,56%), feijão carioca (+5,87%), pão francês (+3,28%), manteiga (+2,21%) e farinha de mandioca (+2,09%). Em contrapartida a outra metade da lista apresentou quedas de preço, principalmente óleo de soja (-10,79%), mas também café em pó (-7.97%), açúcar cristal (-7,86%), arroz agulhinha (-7,20%), banana (-6,38%) e leite integral (-1,49%).
A pesquisa do Dieese só voltou a ser realizada na cidade a partir do ano passado, então ainda não é possível precisar a variação em 12 meses. De abril de 2025 a março de 2026, contudo, foram registradas oito quedas de preços acumuladas na cidade, incluindo arroz agulhinha (-28,18%), açúcar cristal (-16,46%), banana (-14,51%), farinha de mandioca (-14,21%), manteiga (-5,77%), leite integral (-4,77%), óleo de soja (-3,95%) e café em pó (-3,89%). Na outra ponta, os quatro itens que sofreram majoração de preços no mesmo período foram carne bovina de primeira (+13,63%), feijão carioca (+12,99%), tomate (+3,61%) e pão francês (+0,80%).
O Dieese informa que o preço do feijão subiu em todas as cidades, devido à redução de área na primeira safra e expectativa de menor produção na segunda. O mesmo ocorreu com o tomate, em sintonia com menor oferta e perda de parte da produção com as chuvas. A carne bovina ficou mais cara em 23 capitais, graças à demanda aquecida, alta das exportações e número reduzido de bezerros para reposição. O preço do leite aumentou em 20 cidades, em razão da entressafra e maior demanda. Em contrapartida, apesar de também estar na entressafra, o açúcar ficou mais barato em 19 capitais, sendo favorecido pela projeção de maior oferta e alta de produção no Brasil, Tailândia e Índia.
Clima e guerra
A consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, enfatiza que nenhuma das capitais brasileiras apresentou redução de preços, em razão do efeito dos fatores climáticos na maior parte dos itens da na cesta básica. “Produtos oriundos da agricultura e pecuária estão sempre sujeitos a fatores de clima, que afetam a produção. Tomate e carne bovina, por exemplo tiveram baixa produção, e a menor oferta pressionou os preços para cima, de uma forma geral”, reforçou.
A economista salienta que o fator guerra é preponderante nessa dinâmica. “O diesel representa de 5% a 20% nos custos do processo da agricultura. O insumo alimenta as máquinas agrícolas e encarece a logística do frete. Principalmente em Manaus, que está distante dos grandes produtores. Enquanto essa guerra perdurar, a gente vai ter esse mercado dos combustíveis meio inflacionado, e é evidente que isso acaba onerando o custo final da cesta básica e de outros produtos”, sentenciou.
A ex-presidente do Corecon-AM e professora do Departamento de Economia da Ufam, Michele Lins Aracaty e Silva, diz que as condições climáticas adversas, somadas à variação do dólar e à infraestrutura, exercem influência direta sobre a oferta de produtos essenciais, afetando toda a cadeia produtiva. “O câmbio é favorável aos exportadores. No contexto regional, prevê-se uma seca severa como consequência de um super El Niño, o que demandará também planejamento estratégico e a formação de estoques, além de ter impacto significativo na economia local”, frisou.
A economista concorda que os preços dos produtos da cesta básica são afetados principalmente por fatores geopolíticos relacionados à escalada do conflito no Oriente Médio. “O fator determinante é a incerteza gerada pelos conflitos internacionais, que impactam os preços da cesta básica. O ambiente de inflação elevada e o aumento nas taxas de juros também exercem pressão sobre os custos, encarecendo a produção desses itens. Além disso, os problemas de infraestrutura logística representam elementos importantes que não podem ser negligenciados nessa análise”, avaliou.
Salário mínimo
Em março, o trabalhador de Manaus que sobrevive de salário mínimo (R$ 1.621) precisou trabalhar 91 horas e 41 minutos para adquirir a cesta básica. O tempo necessário para bancar o gasto superou o do mês anterior (85 horas e 21 minutos) e ficou aquém da média do país (97 horas e 55 minutos). Considerando o valor líquido, após o desconto de 7,5% da Previdência Social, essa pessoa precisou comprometer 45,05% da renda para esse fim. O Dieese estima que, com base na cesta básica mais cara do Brasil (a de São Paulo), uma família padrão de dois adultos e duas crianças, e a “determinação constitucional de suprir alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte e lazer”, o salário mínimo deveria ser 4,58% maior (R$ R$ 7.425,99).
“O aumento do valor da cesta básica reflete um cenário de volatilidade nos preços dos alimentos, que acaba consumindo parcela expressiva do salário-mínimo. E isso reduz significativamente a margem disponível para o cumprimento de outras obrigações financeiras. Nesse contexto ainda incerto, nos próximos meses, os preços dos produtos devem continuar em alta, exercendo uma pressão adicional sobre o orçamento das famílias assalariadas e a economia regional”, concluiu Michele Lins Aracaty e Silva.







