Apesar de vários analistas assegurarem que será difícil evitar que a economia brasileira desacelere seu crescimento no último trimestre deste ano e no início de 2009 em face ao agravamento da crise internacional, nem por isso o setor real da economia do pólo industrial vem mostrando até agora sinais de que sente o golpe.
Pelo menos para o comércio exterior, cujos resultados, divulgados pela Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) no início desta semana, mostraram-se francamente favoráveis às indústrias locais durante o acumulado de janeiro a setembro deste ano.
Se, por um lado, a região continua mostrando sua vocação de grande compradora com importações atingindo US$ 7.66 bilhões FOB (Free On Board) ou 53,06% de crescimento em relação ao terceiro trimestre de 2007 (US$ 5.006 bilhões FOB), do lado exportador, a Suframa apontou que o Amazonas encerrou com volume de US$ 941.11 milhões FOB, avançando 20,04% sobre o mesmo período do ano passado (US$ 783.96 milhões FOB).
Os números oficiais mostram que, não fosse pela contribuição do comércio exterior, o balanço industrial teria se retraído a um ritmo de 0,5% ao ano, a segunda redução nos últimos três trimestres. China (31,17%), Coréia do Sul (15,06%), Japão (13,69%) e Estados Unidos (9,93%) foram os que concentraram os maiores percentuais de remessas para as indústrias locais, enquanto Argentina (37,70%), Venezuela (13,03%) e Estados Unidos (9,21%) foram os principais destinos das mercadorias ‘made in Amazonas’.
O presidente do Sinaees (Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus), Wilson Périco, considerou a integração comercial dos países como o melhor remédio para amenizar o impacto da instabilidade financeira internacional sobre o continente sul-americano.
O executivo admitiu, porém, ser necessário que os países da região reforcem a vigilância para conter a entrada de produtos artificialmente baratos de países que passaram a exportar menos por conta da crise. “Essa situação poderá ocorrer com a China, que passará a vender para o Mercosul produtos que não conseguir exportar para outros países. Se identificarmos a tendência para dumping, ou seja, de jogar para nosso mercado a preços irrisórios produtos que eram vendidos para outras regiões, é importante sabermos usar os instrumentos que existem e, quem sabe, usar algum mecanismo criado em conjunto”, destacou.
Mas para o diretor executivo da Aceam (Associação de Comércio Exterior da Amazônia), Moacyr Bittencourt, a indústria local está às voltas com os problemas de como redinamizar os setores mais empregadores, que talvez possam vir a se beneficiar com a recém-reiniciada desvalorização da moeda nacional, e de encontrar novas áreas de grande crescimento e com capacidade de puxar outros segmentos industriais.
PIB mostra estabilidade no crescimento
Lembrando dados do Banco Central, Bittencourt avaliou ainda que, do ângulo mais assustador para as autoridades monetárias (as possíveis consequências do crescimento para o equilíbrio inflacionário), os últimos dados do PIB (Produto Interno Bruto) mostram que há uma estabilização do crescimento do consumo das famílias em um nível alto (6,5%) e maior evolução do investimento (16%). “O investimento é um gasto hoje que vai ampliar a produção potencial da economia em um intervalo de seis ou doze meses em média. A adequada e relativamente estável proporção com que vem crescendo o consumo e a inversão no Brasil se constitui na melhor política que existe contra a inflação”, frisou.
No início da semana, o Ministério da Fazenda anunciou previsão de queda no investimento estrangeiro direto (no setor produtivo) nos próximos dois anos e aumento do déficit nas transações correntes com o exterior em 2009. Segundo documento divulgado pelo ministro Guido Mantega, os investimentos estrangeiros devem fechar 2008 em US$ 34 bilhões, para depois caírem para US$ 30 bilhões em 2009 e US$ 28 bilhões em 2010.
Já o déficit em transações correntes, importante indicador da vulnerabilidade externa do país, segundo a nota oficial do Ministério, deve ficar em US$ 24.9 bilhões neste ano, apesar desse déficit já ter batido a cifra dos US$ 17.4 bilhões em junho. Para os próximos dois anos, a previsão é de US$ 32.7 bilhões e US$ 31.8 bilhões, respectivamente.
O Brasil não registra déficit nas transações correntes com o exterior desde 2002, mas a queda no superávit da balança comercial e o aumento das remessas de lucros das multinacionais ajudaram a virar esse resultado. Com isso, a partir de 2009, os investimentos estrangeiros diretos não serão mais suficientes para cobrir os déficits do país na sua conta corrente.







