W. F. Gibson ensina a todos que o “ciberespaço é uma alucinação consensual diariamente experimentada por biliões de operadores legítimos, em cada país, por crianças a quem são ensinados conceitos matemáticos… Uma representação gráfica de dados extraídos de bancos de cada computador do sistema humano. Complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente, clusters e constelações de dados… como luzes de uma cidade, que se afasta do campo visual do viajante”.
Maria do R. G. da Silva ensina que quando W. F. Gibson utilizou pela primeira vez o termo ciberespaço em Neuromancer, a possibilidade de navegação num espaço virtual, que transcendesse as barreiras temporais e geográficas pertencia ao âmbito da ficção científica. O boom tecnológico da última década do século 20 fez com que esse cenário já não pertencesse mais ao reino literário, e da rede mundial de computadores conectados à Internet emerge o ciberespaço como uma nova espacialidade.
O ciberespaço fez com que as atividades passassem a ter um novo âmbito de articulação no qual recebem uma espécie de segunda dimensão de existência: a dimensão virtual. Esta dimensão, ao mesmo tempo em que promove novas maneiras de comunicação e interação que facilitam o exercício da cidadania e da participação social, também gera novas manifestações de exclusão que aumentam ainda mais as assimetrias sociais já existentes no que concerne ao acesso à informação, à educação, à tecnologia etc..
O ciberespaço não apenas possibilita a comunicação mais sofisticada, como principalmente alteram as maneiras pelas quais os indivíduos interagem com o mundo e moldam sua identidade… a consequência disso é que estamos cada vez mais impelidos às relações virtuais, que prescindem da presença física (face a face) e que se articulam num mundo multimídia que dilui as coordenadas espaciais e temporais que, ao longo de toda a história humana, serviram de referência para os povos e suas organizações políticas.
Os que são otimistas quanto às possibilidades do ciberespaço, professam que essa inovação relaciona-se ao que Pierre Levy identifica como “ciberdemocracia exercitada por meio de uma prática de cidadania virtual que conectaria toda a humanidade, permitindo uma cartografia em tempo real e cada vez mais transparente dos fluxos de interesses, ideias, negócios e de tudo aquilo que comporia a chamada inteligência coletiva”, mas o ciberespaço não pode ser entendido só dessa maneira.
O conhecido filósofo da comunicação acredita (e, por isso, postula) que o ciberespaço representa um ganho democrático tanto em âmbito local, quanto em âmbito global, uma vez que propicia: “a expressão e a elaboração dos problemas da cidade pelos próprios cidadãos, a auto-organização das comunidades locais, a participação nas deliberações por parte de grupos diretamente afetados pelas decisões, a transparência das políticas públicas e sua avaliação pelos cidadãos (Cibercultura, 2000, p. 186)”.
O pensamento de Pierre Levy está ligado, por sua vez, ao que Manuel Castells identifica como “ciberativismo”. Segundo ele “essas ações coletivas visam à transformação de valores e instituições da sociedade, manifestam-se na e pela Internet. O mesmo pode ser dito dos vários movimentos pelos direitos humanos, movimentos de identidade étnica, movimentos religiosos, movimentos nacionalistas e dos proponentes de uma lista infindável de projetos culturais e causas políticas”.
Manuel Castells, Pierre Levy e outros postulam que “o ciberespaço tornou-se uma ágora eletrônica global em que a diversidade da divergência humana explode numa cacofonia de sotaques”, mas Peter A. Levine sumarizou em cinco questões que contrariam os postulados anteriormente mencionados: (1) desigualdade de acesso; (2) fragilização dos laços sociais fracos; (3) diminuição da deliberação pública; (4) cultura consumista; e, por fim, (5) perda da privacidade. Vejamos por quê.
(1) o acesso ao ciberespaço parece não é uma prioridade para os governos, que, na melhor das hipóteses, estão apenas começando a desenvolver políticas de inclusão digital. O ciberespaço ainda é um espaço social restrito a determinados grupos socioeconômicos.
(2) o ciberespaço não potencializa tendências de engajamento e desengajamento típicas da contemporaneidade, moldando assim novas manifestações de articulação social, política, econômica, cultural etc..
(3) o ciberespaço é um espaço seletivo no qual os indivíduos vêm criando mundos virtuais fechados, restritos à imagem de seus próprios interesses e ideias, deixando pouca ou nenhuma margem para a recepção de perspectivas divergentes das suas.
(4) o ciberespaço faz com que o comércio solape a possibilidade de intercambio e confronto de ideias, fazendo com que a ênfase sai da política e dos princípios democráticos e recai na relação custo/benefício.
(5) o ciberespaço possibilita podem gerar perdas significativas para os setores cuja produção possui natureza autoral ou intelectual; perdas que podem refletir em desemprego e diminuição de recursos para a produção intelectual e artística.
Maria do R. G. da Silva ensina, ainda, que os teóricos do ciberespaço permanecem divididos entre os que celebram seus efeitos positivos para uma prática democrática transnacional, bem na direção dos efeitos positivos da teoria da ação comunicativa concebida pelo filósofo e sociólogo Jürgen Habermas, e os que são céticos quanto à capacidade concreta de o ciberespaço representar um espaço de cidadania global. Uma questão nos parece inequívoca: a compreensão do ciberespaço está esgotada?
O ciberespaço é também um espaço de descarte porque jogamos fora qualquer possibilidade de resolvermos a crise de identidade do indivíduo e que, por conta de diversos fatores biopsicossociais, está bem exacerbada nesse início de século 21. O que é muito pior! Consumimos o ciberespaço e, também, por e com ele somos conduzidos a cometer as maiores barbaridades possíveis… Um pequeno exemplo: os discentes não querem mais saber da exposição de um professor por conta dos famosos “bate-papo” nas redes sociais.
Quando perguntarmos a qualquer discente ele provavelmente dirá: “a aula do professor não é nenhum pouco interessante”. Ele acredita que já possui conhecimentos suficientes para avaliar que o conteúdo da aula não lhe serve para nada. O ciberespaço lhe possibilita “papos” mais interessantes com pessoas muito mais interessantes que as aulas de seus professores. Ele descarta o professor como se o mesmo fosse um objeto sem uso algum, uma coisa que deve (e pode) ser jogada fora, jogada no lixo.
O comportamento dos novos representantes da ciberdemocracia, que só Pierre Levy consegue conceber, corrobora o que já havia sintetizado J. B. L. de Andrade em seus estudos sobre a “Cultura do Lixo”: “estamos submersos numa cultura do lixo, na qual o crime, o vício, a indigência mental, o obscurantismo, a desinformação, o mau gosto e a corrupção – inclusive de nosso interior – têm se colocado como objetos de desejos das massas e das elites” (fragmento da Tese de Pós-Doutorado, 2012, p. 23).
J. B. L. de Andrade nos ensina, ainda, que “dentro de tal cultura são várias as modalidades do ou no lixo e que proliferam (e se conectam)… se tem o lixo na política, na exclusão social, do crime organizado, da mídia, da religião, da cultura, da poluição (da água, do ar e do solo), dentre tantos outros. Evidentemente, é na poluição, esta apenas uma das modalidades da cultura sobre a qual falamos até aqui, que também está parte, por vezes considerável, da problemática do lixo”. O que fazer?
Consumo, consumismo e lixo (PARTE 3)
Em: 21 de dezembro de 2012
W. F. Gibson ensina a todos que o “ciberespaço é uma alucinação consensual diariamente experimentada por biliões de operadores legítimos, em cada país, por crianças a quem são ensinados conceitos matemáticos…
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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