Manaus começou a conhecer a bela arquitetura vinda da Europa a partir dos últimos anos do século 19, resultado da economia pujante do comércio da borracha. Nos primeiros dez anos do século seguinte várias outras edificações foram sendo construídas na cidade, principalmente no atual centro antigo, mas também nos, então, bairros existentes: Aparecida, São Raimundo, Cachoeirinha e Vila Municipal (Adrianópolis). Aí veio a debacle e o estilo rococó, rebuscado e caro, foi sendo substituído por outro mais simples e barato. Andar pelo centro da cidade e nos bairros citados, olhando em volta e observando as edificações de alto a baixo, é a forma de se verificar que aquele passado de mais de um século, teima em continuar de pé, ainda que em muitos casos, casarões tenham sido demolidos, outros modificados e boa parte simplesmente abandonados à própria sorte.
Autor de dois livros que se tornaram a ‘Bíblia’ dos engenheiros e arquitetos manauaras: ‘Manaus, história e arquitetura’ e ‘La Belle Vitrine, uma cidade entre dois tempos’, o historiador Otoni Mesquita é um desses observadores. “Alguns poucos se mantêm tão belos como no dia em que ficaram prontos, em algumas áreas específicas, principalmente no centro antigo, mas o que vem ocorrendo ao longo dos anos é a descaracterização dessas edificações”, disse Mesquita, que continua: “Diria até que já estamos vivenciando um terceiro tempo, com a arquitetura de Manaus sofrendo novas transformações”, acrescentou.
E essa atividade de observar as transformações de Manaus já vem de outros tempo, diz Mesquita. “Comecei a prestar mais atenção na arquitetura da cidade, na minha juventude, no final da década de 1960. Com a chegada da Zona Franca, em 1967, as lojas de importados também vieram com força e precisavam de espaço, encontrado nos casarões do centro, alguns tendo suas fachadas e interiores modificados, outros sendo simplesmente demolidos”, lembrou.
“Nos primeiros anos da década de 1970, começaram a surgir os pioneiros edifícios, na Eduardo Ribeiro, todos em lugares de antigos casarões, como o Maximino Corrêa, o Palácio do Comércio e o Manaus Shopping Center. Foram ‘saudados alegremente’ pela população, que nunca havia visto aquilo e os recebia como uma grande e boa novidade”, disse.
Adrianópolis é um exemplo
Mesquita aponta um dos oásis dessa antiga arquitetura. “Diria que um dos bairros onde a arquitetura antiga está mais bem preservada é em Aparecida. As famílias são tradicionais e conseguem manter um modo de vida que praticamente não se altera”, garantiu. Em Aparecida, por sinal, existe uma casa residencial possivelmente a única na cidade com o registro do ano mais antigo estampado no alto de sua fachada: 1895, ao lado de outras que foram sendo construídas posteriormente.
Já em Adrianópolis, bairro que foi criado em 1900, um prédio que se destaca é o famoso castelinho, de 1906, que foi do Adolpho Lisboa, o prefeito idealizador do bairro. “Também tem um casarão, na rua Fortaleza, que eu não sei a história, mas que chama a atenção de quem passa pela sua frente.
Adrianópolis é o melhor exemplo de um bairro cuja modernidade, com suas mansões da década de 1970, foi se impondo ante a arquitetura do início do século passado e mais recentemente os condomínios tomaram o lugar das mansões e, da mesma forma que os casarões do centro, existem mansões resistindo aos condomínios e prédios que vão surgindo no seu entorno”, contou o historiador.
No Centro, uma das ruas que mais possui casarões convivendo com prédios mais recentes é a Joaquim Nabuco, conta Mesquita.
“Desde o seu começo, na beira do rio, até o seu final, no entroncamento com a Getúlio Vargas, a Joaquim Nabuco apresenta belos exemplos da arquitetura da belle époque, alguns ocupados, outros abandonados, e muitos descaracterizados”, esclareceu.
Muito se fala do porque tantos belos casarões estão abandonados, principalmente nas ruas do centro e Mesquita enumera alguns motivos. “São vários os motivos, como por exemplo os herdeiros em questões na Justiça que se arrastam por anos, e até décadas; tem também os proprietários que simplesmente foram embora e deixaram a casa para trás; há ainda as questões financeiras. Restaurar e manter um casarão desses custa muito dinheiro.
Se o Estado tem dificuldades para fazer isso com seus prédios, imagine uma família que não tenha tantas posses, muita embora tenham muitos desses casarões que pertençam a famílias prósperas, e também estão abandonados, por que, eu não sei”, citou o historiador.







