Os resultados do balanço de pagamentos em setembro, divulgados no dia 23 de outubro pelo Banco Central, trazem informações relevantes sobre os impactos do aprofundamento da crise financeira internacional sobre as contas externas brasileiras. Uma análise detalhada desses resultados revelou que, se por um lado, esses impactos se fizeram sentir tanto nas transações correntes como na conta financeira, de outro lado, algumas modalidades de recursos externos ainda não foram totalmente contaminadas por esse aprofundamento, tendo apresentado ingresso líquido de capitais.
No caso da conta de transações correntes, que foi deficitária em US$ 2.7 bilhões, o efeito da crise transparece no aumento das remessas de lucros e dividendos pelas empresas transnacionais, que atingiram US$ 2.96 bilhões, segundo maior valor do ano, inferior apenas ao registrado em março (US$ 3.76 bilhões). Num contexto de retração das vendas, queda dos lucros e escassez de crédito nos países de origem, as matrizes recorreram às filiais brasileiras como fonte de obtenção de recursos. A indústria foi responsável por 94% dessas remessas. Três setores, que têm apresentado elevada rentabilidade no país no corrente ano, destacaram-se: automobilístico, metalúrgico e produtos alimentícios.
A conta financeira, por sua vez, teve uma performance mais favorável do que em agosto, em razão, principalmente, do ingresso excepcional de investimentos diretos externos. Mesmo que esses investimentos tenham uma natureza distinta dos demais fluxos de capitais, sendo menos vulneráveis às intempéries financeiras, não seria de se esperar, no mês de acirramento da crise, o valor mensal recorde em 2008, de US$ 6.3 bilhões. Esse valor foi inflado pela entrada de US$ 2.7 bilhões numa empresa do setor de varejo e pela cifra atípica e também recorde neste ano de empréstimos intercompanhias (US$ 3.56 bilhões frente à média de US$ 1.1 bilhão entre janeiro e agosto).
O desempenho das outras duas principais modalidades de recursos externos foi divergente. Os investimentos estrangeiros de portfólio registraram o primeiro valor negativo desde janeiro devido, principalmente, ao retorno líquido de US$ 1.87 bilhão da Bovespa – que foi o segmento do mercado financeiro doméstico mais atingido pela crise em setembro. Já as aplicações em títulos de renda fixa no país (essencialmente títulos públicos) mantiveram-se positivas, mas seu valor (US$ 1.18 bilhão) não foi suficiente para contrabalançar aquele retorno. A emissão de papéis de renda fixa no exterior também apresentou resultado negativo (US$ 550 milhões), como reflexo da incapacidade dos tomadores brasileiros de rolarem suas dívidas securitizadas no mercado financeiro internacional.
Já a subconta “Outros investimentos estrangeiros”, que inclui as diversas modalidades de empréstimos bancários no exterior, fechou o mês com um saldo positivo de US$ 1.57 bilhão. A principal pressão negativa foi exercida pela modalidade “Empréstimos e financiamentos – demais setores Curto prazo”, na qual são registradas as linhas externas que os bancos captam no exterior, seja para fazer arbitragem, seja para obter funding para as operações de ACC (Adiantamento de Contrato de Câmbio). Esta modalidade registrou déficit de US$ 1.019 bilhão em setembro, valor inferior aos observados em março, abril e agosto (nos demais meses do ano, houve superávit). A modalidade “Créditos de fornecedores”, por sua vez, apresentou ingresso líquido de recursos (US$ 850 milhões), após dois meses de resultados negativos.
Saída de recursos
Os dados preliminares do movimento de câmbio em outubro, todavia, sugerem que esse comportamento divergente não persistiu nesse mês. Eles mostram uma intensificação da saída de recursos no segmento financeiro, que registrou déficit em torno de US$ 5 bilhões até o dia 17, frente à cifra de US$ 4.2 bilhões em setembro. Segundo informações do BCB, parte desse resultado decorreu do retorno de investimentos estrangeiros de portfólio não somente em ações (estimado em US$ 4.4 bilhões, superior ao observado em setembro), mas também em renda fixa (pela primeira vez desde novembro de 2007).
Essa saída também deve estar associada à deterioração da sub-conta “Outros investimentos”, que já tinha transparecido, parcialmente, no movimento de câmbio contratado de setembro.
Foi em meados desse mês que ocorreu a virtual interrupção das linhas bancárias de crédito comercial, que levou o governo a instituir leilões de moeda estrangeira a partir das reservas “casadas” com o fornecimento dessa modalidade de crédito pelos bancos.







