O custo da construção civil do Amazonas acelerou novamente em fevereiro e, mais uma vez, superou a média nacional. O preço do metro quadrado saltou de R$ 1.696,73 para R$ 1.721,54 em relação ao mês anterior, o que correspondeu a uma elevação de 1,46%. A taxa de reajuste estadual superou os de janeiro de 2023 (+1,07%) e dezembro de 2022 (+1,08%) e voltou a ser o segundo mais alto em todo o país, deixando para trás a média nacional (+0,08%) e o IPCA do período (+0,84%). Os dados são da pesquisa mensal do Sinapi (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil), do IBGE.
Assim como no mês anterior, a alta se concentrou unicamente no custo dos materiais, que pontuou 2,31% de acréscimo, índice ainda mais ‘salgado’ do que a de janeiro (+1,91%). Com isso, os dispêndios médios das construtoras amazonenses para esse fim passaram de R$ 1.073,36 para R$ 1.098,17. Em contraste, o custo da mão de obra (R$ 623,37) estabilizou, após ter retrocedido 0,35% no levantamento de janeiro. Segundo o IBGE, todas as unidades federativas da região Norte sofreram altas do indicador, puxadas principalmente pelos valores dos insumos.
Vale notar que os recuos nos custos médios das empresas com mão de obra ocorreram em paralelo com saldos negativos de empregos com carteira assinada. Os dados mais recentes do ‘Novo Caged’ mostram que o setor emendou um terceiro mês consecutivo de cortes e amargou a maior queda proporcional (-1,65%) entre os setores econômicos do Estado, ao extinguir 385 postos de trabalho. A extinção de vagas foi a regra em obras de infraestrutura (-270) e serviços especializados (-300), mas não na construção de edifícios (+185).
Diferente do ocorrido com a média nacional, a taxa regional do Sinapi superou mais uma vez a inflação oficial, conforme o mesmo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pressionado pelos reajustes de alimentação e bebidas, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo subiu 0,84% em fevereiro, em alta ainda mais fraca do que a de janeiro (+0,62%). A inflação oficial acumulada no bimestre (+1,37%) e em 12 meses (+5,60%) também voltou a perder por uma larga margem para as respectivas variações estaduais (+2,55% e 16,37%) do custo da construção civil.
Acima da média
Com o índice de reajuste mensal do custo do metro quadrado novamente acima da média brasileira, o Amazonas se manteve no segundo lugar do ranking nacional. Só perdeu para o Amapá (+2,04%), ficando com boa vantagem sobre o Acre (+0,78%). Na outra ponta estão Minas Gerais (-0,2%), Mato Grosso do Sul (-0,36%) e Pernambuco (-0,57%). No bimestre, o Estado já aparece em primeiro lugar, em uma lista encerrada por Pernambuco (-0,66%). Em 12 meses, já saltou da quarta para a segunda colocação, em um rol liderado pelo Mato Grosso (+19,54%) e encerrado pela Bahia (+5,63%).
Com os aumentos mensais consecutivos, o custo por metro quadrado no Amazonas (R$ 1.721,54) abriu uma vantagem ainda maior sobre a média brasileira (R$ 1.685,74). Mas permaneceu na 11ª posição do ranking brasileiro e é apenas o sexto maior da região Norte. Os maiores valores estão em Santa Catarina (R$ 1.906,26), Rio de Janeiro (R$ 1.840,63) e Acre (R$ 1.816,23). No outro extremo, os dispêndios médios mais baixos se situaram em Sergipe (R$ 1.485,95), Alagoas (R$ 1.513,87) e Espírito Santo (R$ 1.539,20).
O preço médio dos insumos (R$ 1.098,17) levou o Estado a avançar da sexta para a quinta posição do ranking, mantendo-se à frente da média nacional (R$ 1.001,94). Acre (R$ 1.186,90), Tocantins (R$ 1.112,72) e Mato Grosso (R$ 1.111,73) seguiram no topo, enquanto Alagoas (R$ 925,44), Espírito Santo (R$ 938,14) e Sergipe (R$ 938,17) ficaram na base. Com a estabilização no custo da mão de obra, o Amazonas (R$ 623,37) perdeu novamente para o dado brasileiro (R$ 683,80) e desceu do 16º para o 17º lugar. Santa Catarina (R$ 863,48) e Sergipe (R$ 547,78) ficaram nos extremos.
Cenários diferentes
Em entrevista recente à reportagem do Jornal do Commercio, o supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, ressaltou que os reajustes no custo da construção civil do Amazonas vêm ocorrendo, “em maior ou menor escala”, desde fevereiro de 2020 – mês da chegada da pandemia ao Brasil. Segundo o pesquisador, a aceleração nos reajustes mais recentes também sinaliza um cenário ainda inflacionário para o setor, nos próximos meses.
“Pode-se notar que a variação percentual entre janeiro e fevereiro de 2023 foi de 0,39 pontos percentuais, indicando uma elevação no ritmo de aumento do custo médio da construção no Estado. Com isso, o indicador já acumula quase 3% de aumento somente nos dois primeiros meses do ano. A perspectiva para próximo mês não é boa, uma vez que a média móvel trimestral está em alta, indicando tendência de mais aumentos”, analisou.
Em texto postado na Agência de Notícias IBGE, o gerente da Sinapi, Augusto Oliveira, observou que o cenário é diferente na média brasileira. “Há uma estabilidade com variações para cima em alguns estados e para baixo em outros, mas, no agregado geral, há estabilidade. Apesar do índice ter subido em relação a janeiro, ele saiu da situação atípica que ocorreu durante a pandemia. Desde meados de 2022, os preços passaram a apresentar variações mais consoantes com um cenário sem influência da pandemia”, analisou, acrescentando que é difícil fazer previsões.
De acordo com o pesquisador, não é possível fazer previsões, em um cenário em que os preços já se comportam de forma semelhante à do período pré-pandemia. “Em fevereiro, vários produtos apresentaram aumentos durante a pandemia, agora apresentaram quedas. Com destaque, nesta situação, para cabo flexível (condutor elétrico), peças estruturais de madeira para telhado e tubos de PVC, que tiveram queda em Minas Gerais e São Paulo, contribuindo para a variação negativa nestes Estados e na Região Sudeste”, comparou.
Ágio e incertezas
O presidente do Sinduscon-AM (Sindicato da Indústria da Construção do Estado do Amazonas), Frank Souza, estima que diversos fatores podem ter contribuído para o novo aumento reforçado no custo da atividade, com destaque para os dispêndios com insumos. Um deles estaria no reajuste dos fretes. Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o dirigente mencionou que a estiagem prolongada e atípica de 2022 gerou uma ‘taxa de seca’ cobrada pelos navios, “de até R$ 9.500 por contêiner”.
“Creio que esse seja um dos componentes, na cesta. Nas outras regiões, quanto mais distante, mais caro o frete, como no caso do Acre e Roraima. Atribuo esse aumento também à fase das obras, já que o estágio de acabamento usa materiais mais caros. Além disso, tivemos reajustes nos custos do cimento e do aço. Analisando os dados gerais, vemos uma estabilidade na mão de obra, que deve sofrer mudança apenas em junho, com a convenção coletiva de trabalho”, concluiu.







