Custo do metro quadrado do Amazonas subiu três vezes mais do que média nacional

Em: 16 de julho de 2023

Em um ano, o custo do metro quadrado da construção civil do Amazonas já aumentou quatro vezes mais do que a média nacional. A alta foi de 12,09% por aqui e de 4,82%, em todo o Brasil. É o que revelam os dados mais recentes da pesquisa da Sinapi (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil), realizada pelo IBGE. Em ambos os casos, os aumentos superaram com folga a inflação do IPCA. Medida também pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a inflação oficial anualizada não passou de 3,16% e ficou abaixo da meta do Banco Central (3,25%).

O indicador do Amazonas teve acréscimo de 0,62%, entre maio e junho, elevando o valor médio do metro quadrado de R$ 1.739,91 para R$ 1.750,62. A taxa veio pouco abaixo da anterior (+0,66%), mas superou novamente o Sinapi nacional (+0,39%). Também seguiu na contramão da deflação de 0,08% marcada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo, que neste mês foi puxado opara baixo pelos preços da alimentação e transportes. A mesma dinâmica se deu no semestre, com os dispêndios das construtoras locais escalando 4,28%, mais que o dobro da média brasileira (+1,62%). 

Diferente do mês anterior, o aumento veio exclusivamente pelos insumos para construção, cujos preços ficaram 0,97% mais caros e passaram de R$ 1.105,88 para R$ 1.116,59. Em contrapartida, a média dos passivos com mão de obra (R$ 634,03) ficou rigorosamente estável. “De abril a junho, o material de construção vem apresentando variação inflacionária de preços no Amazonas. Subiu 0,20% em abril; 0,75% em maio; e 0,97% em junho. Já o preço da mão de obra teve alta de 1,71%, e isso ocorreu apenas em maio de 2022”, comparou o IBGE-AM, no texto de divulgação da pesquisa.

Para as construtoras, essa foi uma má notícia, que se soma à permanência das taxas de juros em patamares elevados, para inibir o potencial de crescimento. O Sinduscon-AM (Sindicato da Indústria da Construção do Estado do Amazonas) destaca para a reportagem do Jornal do Commercio, contudo, que as mudanças institucionais promovidas pelo governo federal no âmbito do Minha Casa Minha Vida, assim como a maior disposição do Estado e do município em investir em habitações populares, se aliam à sazonalidade para reequilibrar o jogo em favor dos negócios, em um mercado de déficit habitacional alto.

Abaixo da média

Mesmo com a taxa de expansão mensal acima da média brasileira, o Amazonas caiu do sexto para o décimo lugar do ranking nacional. Espírito Santo (+2,54%), Santa Catarina (+2,38%) e Pernambuco (+2,18%) dividiram o pódio. Na outra ponta estão Minas Gerais (-0,50%), Mato Grosso do Sul (-0,41%) e Bahia (-0,36%), em meio a sete deflações e uma estabilidade. No semestre, o Estado subiu do segundo para o primeiro lugar, com o Mato Grosso do Sul (-0,68%) no extremo oposto. Em 12 meses, desceu da primeira para a segunda colocação, perdendo apenas para Rondônia (+12,42%).

Os aumentos mensais consecutivos mantiveram o custo por metro quadrado no Amazonas (R$ 1.750,62) acima da média brasileira (R$ 1.706,50). O Estado permanece na 11ª posição do ranking brasileiro, sendo o quinto com valores mais caros em toda a região Norte. Os maiores valores estão em Santa Catarina (R$ 1.973,18), Acre (R$ 1.861,64) e Rio de Janeiro (R$ 1.840,77). Em sentido contrário, os dispêndios médios mais baixos se situaram em Sergipe (R$ 1.528,82), Alagoas (R$ 1.528,83), e Piauí (R$ 1.558,49).

O preço médio dos insumos (R$ 1.116,59) fez o Estado se segurar na quarta posição, batendo com folga a média nacional (R$ 1.001,63) – que voltou a recuar no mês (-0,28%). Acre (R$ 1.181,56), Tocantins (R$ 1.117,75) e Rondônia (R$ 1.117,06) ficaram no topo, enquanto Sergipe (R$ 928), Alagoas (R$ 935,90) e Espírito Santo (R$ 951,34) permaneceram na base. Com a estagnação no custo da mão de obra, o Amazonas (R$ 634,03) ainda perde para o dado brasileiro (R$ 704,87) e desceu do 18º para o 20º lugar. Santa Catarina (R$ 893,60) e Rio Grande do Norte (R$ 584,01) ficaram nos extremos.

“Mais reajustes”

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatiza que junho marcou o sexto aumento consecutivo no custo médio da construção civil amazonense, somente neste ano. “No mês, apenas os materiais de construção tiveram seus preços reajustados, enquanto a mão de obra manteve-se sem alteração de valores. Em junho, no custo de cada metro quadrado construído 64% correspondia aos materiais; e 26% à mão-de-obra. A média móvel trimestral está positiva, indicando que mais reajustes podem vir a ocorrer nas próximas divulgações”, ponderou.

Em texto postado na Agência de Notícias IBGE, o gerente da Sinapi, Augusto Oliveira, assinala que indicador apresentou comportamento oposto ao do Amazonas na maior parte do país. “Os materiais apresentam desaceleração com índices negativos em janeiro, maio e junho. Muitos Estados tiveram variações negativas de preços em diversos produtos. É o mercado retornando a um cenário mais comportado, sem a influência de uma situação atípica como a pandemia, em que houve uma alta expressiva. Uma prova é que os índices acumulados têm caído constantemente”, comparou.

O pesquisador assinala ainda que a média brasileira também seguiu em trajetória oposta à do Amazonas, no que se refere ao custo do trabalho nas construtoras. A parcela de mão de obra pontou aumento de 1,36% no Sinapi nacional, sendo impactado por oito acordos coletivos firmados no mesmo mês: Rondônia, Acre, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Espírito Santo, Santa Catarina e Goiás. Com relação a junho de 2022, no entanto, houve queda de 0,99 ponto percentual (2,35%) para esse tipo de dispêndio. 

“Custos logísticos”

O presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, enfatizou que, enquanto o Estado conta com uma das mãos de obra mais baratas do país, “perdendo apenas para o Pará, o mesmo não pode ser dito dos insumos. No entendimento do dirigente, a escalada dos preços do setor em âmbito estadual se deve exatamente aos materiais, sendo que essa variação ocorre em função principalmente aos diferencias do Estado em termos de custos logísticos. 

“O preço do combustível, por exemplo, é mais caro na região Norte do que no restante do país. E, no Amazonas, é mais caro ainda. Está bem sacramentado que os materiais são mais altos aqui. No Brasil, o saco de cimento custa R$ 36, em média. Aqui, sai por R$ 56. A conjuntura internacional até tem favorecido que esses preços não subam muito, dadas as cotações do aço e do cobre, além dos valores médios dos tubos de PVC”, avaliou.

Apesar dos dispêndios mais caros, e da permanência das taxas de juros em um patamar elevado, Frank Souza salienta que o cenário para a construção civil do Amazonas segue favorável. “O governo do Estado e a prefeitura de Manaus querem executar habitações imobiliárias, que são 60%, 70% do mercado. Estamos no verão, que é fase boa para construção. O governo federal, por outro lado, estabeleceu as definições para as regras do Fundo de Arrendamento Residencial do programa MCMV, que deve trazer mais ânimo e segurança para quem quer construir moradias”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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