Depois que a tempestade passa

Em: 28 de agosto de 2025
O sofrimento pela perda do filho fez despertar em Miguel Lima de Aguiar o escritor que estava adormecido.

Um vazio que não tem nome, um luto sem fim, uma saudade que nunca se esvai e a sensação de um pedaço da própria alma arrancado. Essas são as sensações que um pai, ou uma mãe, sentem ao perder um filho, ou uma filha. No seu livro de estreia, ‘Além da tempestade – uma jornada de amor, esperança e recomeço’, Miguel Lima de Aguiar vai a fundo nesses sentimentos, inspirado na perda de seu próprio filho.

O livro será lançado no próximo dia 29, sexta-feira, às 19h, no Palácio Rio Negro.

“Este livro é a materialização do meu processo de luto pela perda de meu filho Miguel Neto. A dor da perda de um filho é um vazio que palavras jamais poderiam preencher. É uma jornada solitária que ressignifica o tempo, os sonhos e até a própria existência. Em 2022, vivi essa experiência ao perder meu amado filho em um trágico acidente e isso repercutiu de maneira avassaladora em minha vida”, recordou.

“Comecei a escrever as primeiras frases, ao chegar da missa de Sétimo Dia do Miguel Neto. Inicialmente, eram palavras e trechos soltos com o único intuito de extravasar aquele sofrimento. Se não fosse isso, teria enlouquecido. Após dois anos desse processo, reli as páginas e senti a necessidade de transformar essa dor em uma história. Pesquisei sobre como publicar esse material e nesse processo, também encontrei uma mentoria sobre escrita que foi um divisor de águas em minha vida”, completou.

Na sua profissão de técnico em química e engenheiro de produção, Miguel passa longe do escritor, “no entanto, meu coração sempre pertenceu aos sonhos, à magia das histórias e à beleza da esperança e do amor em sua forma mais pura”, disse.

A morte do filho, despertou nele o escritor que estava adormecido.

 

Força da fé

A perda de um filho é uma dor que acompanha os pais para sempre. O sofrimento diminui, com o tempo, pois a vida continua, mas suas vidas nunca mais serão as mesmas. Casado com Keila, Miguel tem outros três filhos: Jessie, Gabriella e Rafael.

“Mas o ‘anjo’ Miguel sempre estará conosco. Foi ele quem me fez encontrar na escrita uma maneira de eternizar sentimentos, vivências e uma visão encantada do mundo, uma porta aberta para compartilhar narrativas que tocam a alma e inspiram corações. Este primeiro romance marca o início de uma jornada literária que reflete minha alma criativa e apaixonada”, falou.

No romance, o leitor encontrará mais do que a expressão de um luto profundo em suas diversas fases e nuances. Descobrirá, também, a força transformadora da fé, da esperança que nasce da resiliência e o poder do amor em reconstruir caminhos.

“O título do livro carrega em si um simbolismo profundo. A tempestade é o luto: escura, barulhenta, devastadora. No entanto, nenhuma tempestade dura para sempre. Há um depois, um céu que se reabre, ainda que marcado por cicatrizes. Esse livro retrata esse momento, a coragem de atravessar o vendaval, sobre o amor que permanece mesmo na ausência e sobre a esperança que, teimosamente, insiste em nascer. É um convite a caminhar, apesar da dor, através dela, até encontrar a luz de um recomeço”, explicou.

“O luto não tem prazo de validade. Ele aparece em momentos cotidianos: uma música, uma comida, um cheiro, uma frase dita por outra pessoa, cujos trejeitos nos remete à lembrança da pessoa que partiu. O livro nos incentiva a celebrar a vida de quem se foi e não há apenas lamentar o evento trágico”, ensinou.

 

Para enfrentar o luto

Cada página de ‘Além da tempestade – uma jornada de amor, esperança e recomeço’ carrega o eco das lágrimas, mas também o brilho discreto da retomada da jornada pelos personagens. Em cada texto, a dor não é negada, mas acolhida; o sofrimento não define a história, mas impulsiona a busca por sentido; o reencontro com o amor, seja por meio da espiritualidade, do conforto que as boas lembranças trazem, da saudade, de novas relações ou de um profundo mergulho interior, se torna um farol na escuridão.

“Meu livro é um convite para aqueles que enfrentam o luto a acreditarem que, mesmo após a tempestade mais devastadora, ainda é possível recomeçar. O indico para pessoas em luto, especialmente luto parental; profissionais e voluntários que lidam com o luto; e pessoas em busca de propósito e sentido diante das perdas da vida. Por ser um tema tão sensível e inevitavelmente presente na vida de todos nós, esta obra se apresenta como um abraço apertado que acolhe um público vasto. Longe de ser um livro triste, ele revela que até da dor podem brotar amor, esperança e novos horizontes”, concluiu.

Trecho do livro

‘Este jardim é um espaço de cura, onde a dor se transforma em vida, onde cada flor e cada folha contam uma história de amor, esperança e renovação. Aqui, planto não apenas plantas, mas também memórias que nos conectam a quem amamos, ao sagrado, nos tornando mais fortes’.

 

 

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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