Desabastecimento para o Natal preocupa comércio do Amazonas

Em: 5 de outubro de 2021

Entidades empresariais do comércio no Amazonas divergem se as entregas de mercadorias para o Natal devem ficar comprometidas em razão da crise mundial de desabastecimento. Os entraves como as filas enormes de navios cargueiros esperando nos portos de vários países para atracar, logística de entrega e distribuição que não está dando conta e o aumento no valor do frete, seriam os fatores para que produtos básicos possam vir a faltar. 

O presidente da CDL-Manaus (Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus) Ralph Assayag, prefere não dar qualquer prognóstico sobre o cenário. “Um dos problemas hoje é que temos poucos navios na nossa costa. E aí nós temos o problema exatamente de trazermos essa carga até aqui. Quando pensamos em trazer a carga por via rodoviária tem a questão do diesel que fica muito mais caro que trazer de navio, por isso que era muito importante a liberação da BR-319, nesse momento seria a saída para diminuir esse custo”. 

Mas para o Natal, Assayag afirma que apesar de todos os esforços, é difícil saber os desdobramentos desse panorama. “Estamos perdendo o poder aquisitivo por causa da inflação e se comprar muito vai ficar pendente para pagar, se comprar pouco pode faltar então é uma dúvida muito grande. Todo mundo está no chamado vou arriscar porque ninguém tem uma situação concreta. Alguns estão arriscando para cima, outros para baixo e outros vão ter problemas para trazer a carga de outros países para São Paulo para ser distribuída. Infelizmente está complicado dar um diagnóstico porque toda hora surge uma notícia diferente e sempre ruim”, declara o dirigente. 

Para o presidente Ezra Azury Benzion da FCDL-AM (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Amazonas),  o que está ocorrendo é que o custo do frete aumentou muito e muitas empresas não vão importar da China para Manaus, mas São Paulo continua com bastante oferta. “É possível que venha faltar alguns produtos vindos da China sim. Algumas empresas estão antecipando as compras, mas não é nada desesperador. Não deve chegar a escassez. Se faltar, outra marca vai cobrir, porque a nossa produção interna está de acordo com a nossa demanda”. 

“Eu não acredito que vá ter desabastecimento nem vá haver aumento de preços por conta disso. Um outro produto pode vir a faltar  mas uma coisa pontual. O Natal não está comprometido. Se não houver uma explosão de consumo, o comércio está preparado para as vendas do fim de ano”, conclui. 

O presidente da FCDL-AM, destaca ainda que o fator inflação atinge diretamente o bolso do consumidor reduzindo o poder de consumo. O que deve trazer ainda uma queda no volume de vendas do fim de ano. 

Jorge Lima, presidente da ACA (Associação Comercial do Amazonas) também demonstra preocupação. De acordo com ele, os fatores que afetam o atual quadro trazem muita insegurança. “Em certos locais da China não tem containers e quando tem, há falta de navios e vice-versa. Em virtude dessa paralisação a demanda triplicou. Toda a classe teme porque não tem como normalizar e adequar a situação de atraso em tempo hábil.

Os efeitos

Alexandre Pimenta é CEO da Asia Shipping, maior integradora logística da América Latina explica que quando o desembarque de contêineres sofre algum tipo de interferência, há um desbalanceamento global do inventário de equipamentos que atinge o maior trade do mundo: o fluxo entre Ásia e a Europa. Na sequência, o restante do globo é afetado. Por conta desse incidente específico, fato ocorrido no Canal de Suez, mais de 600 navios ficaram parados e milhões de contêineres não chegaram a seu destino. Após a liberação, não é possível atracar tudo no dia seguinte porque não existe infraestrutura capaz de repor o atraso em pouco tempo. “O motivo é que todos os navios e armadores têm uma janela portuária para chegar num dia determinado. Devido ao congestionamento e acúmulo, perderam-se essas janelas e meses serão necessários para recuperar aquela semana de bloqueio do canal”. 

De acordo com ele, o modal marítimo é todo interligado e há grande dificuldade para conseguir mais navios em operação numa tentativa de suprir o tempo perdido porque simplesmente não existem unidades disponíveis para serem colocadas em operação: todas já estão operando. Além disso, o segmento é bastante consolidado com seis armadores sendo os detentores de aproximadamente 70% de todo o market share global. “Para chegar a melhores resultados em meio ao atual caos logístico, os armadores executam um planejamento estratégico que consiste em uma oferta extra”. Isso significa que os navios regulares dos armadores seguem suas rotas e schedules habituais e navios a mais, que não estejam fixos nos trades em que eles atuam, passam a atuar nos maiores trades do mundo e que pagam mais Ásia-Estados Unidos e Ásia-Europa. “Neste caso, é importante ressaltar que os armadores não visam somente aumentar seus lucros, mas precisam receber o que é adequado para executar a estratégia necessária e ainda manter o funcionamento do sistema regular, cobrindo os gastos altíssimos ligados ao funcionamento dos navios, armazenagem e tempo ocioso”. 

Para ele, a perspectiva é que ainda este ano toda a cadeia produtiva global continue enfrentando graves problemas de logística e os valores do frete se mantenham elevados. A torcida é para que os preços se estabilizam conforme o mercado vai se normalizando, o que deve acontecer após 2023, porque novos navios só devem ficar prontos ao final de 2022 e início de 2023, o que resultará numa capacidade adicional no mercado, em torno de 17%, que mudará essa dinâmica global. “Todo esse custo é repassado ao frete que, de acordo com estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deve seguir escalando ainda nos próximos meses. Como o consumo ainda não está em seu melhor momento no Brasil, isso se reflete no volume e demanda do mercado que, apesar desse cenário, ainda se mantém aquecido. Outro componente deste triste contexto, é que o País ainda tem pouca participação no total de contêineres movimentados em todo o mundo e, por isso, não é uma prioridade dos grandes players”.

Foto/Destaque: MARCIO SILVA /ACRITICA

Andréia Leite

é repórter do Jornal do Commercio
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