Vendas de veículos no Amazonas aceleram em setembro

Em: 5 de outubro de 2021

As vendas de veículos automotores do Amazonas aceleram, entre agosto e setembro, mas ainda estão aquém do dado 2020. O desempenho seguiu em sintonia com o impacto da crise de abastecimento e as altas dos juros e do IOF, mas o desempenho da média nacional foi ainda pior. No total, foram comercializadas 5.178 unidades no Estado, 23,49% a mais do que em agosto de 2021 (4.193) e 9,62% abaixo de agosto de 2020 (5.729). Em nove meses, as vendas ainda seguem positivas em 10,46%, com 38.365 (2021) contra 34.731 (2020). 

Os dados regionais referentes ao Amazonas foram disponibilizados pelo portal da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), nesta terça (5). As informações foram amparadas pelos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores), base de dados que leva em conta todos os tipos e veículos, incluindo automóveis convencionais, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas.

O Amazonas seguiu em trajetória inversa à da média brasileira, que alcançou resultados piores. O setor como um todo registrou retração de 4,43%, na comparação de setembro (281.054 unidades) com agosto (294.068), em âmbito nacional. Em relação no mesmo período do ano passado (328.203), a retração foi de 14,37%. Segundo a entidade, o total de veículos emplacados coloca setembro de 2021 na 15ª colocação do ranking histórico, entre todos os meses de setembro, desde 1957. O acumulado do ano ainda se manteve positivo em 21,34%, com 2.587.379 (2021) contra 2.132.408 (2020) veículos.

Automóveis e motocicletas

Cinco das sete categorias listadas pela Fenabrave conseguiram subir, na variação mensal – contra duas, em agosto. O melhor resultado proporcional veio dos caminhões, que expandiram as vendas em 65,74%, com 179 unidades comercializadas. Foram seguidos de longe por “outros veículos”, que incl22uem tratores e máquinas agrícolas (+33,33% e +32 veículos), além de motocicletas (+31,58% e +2.696), automóveis (+24,21% e +1.462), implementos rodoviários (+14,29% e 32). Os únicos dados negativos vieram de ônibus (-41,18% e 30) e comerciais leves (-1,19% e 747).

Pelo segundo mês seguido, os carros convencionais deixaram de ser a categoria mais vendida, cedendo lugar para veículos de duas rodas. Em paralelo com a desaceleração mensal, os automóveis voltaram reduzir sua participação no bolo de vendas do Estado, no confronto dos acumulados de 2020 (41,79%) e de 2021 (34,96%). Com isso, as motocicletas se mantiveram na primeira posição, avançando na comparação dos dados de janeiro a setembro deste ano (44,32%) com igual intervalo do exercício anterior (39,89%). 

Vale notar que os números também refletem, em parte, a dinâmica do mês anterior, em virtude dos entraves logísticos do Estado. Em matérias anteriores como a reportagem do Jornal do Commercio, o Sincodiv-AM (Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos do Estado do Amazonas) reforçou que os números locais devem ser levados sempre sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento, um hiato de tempo que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado do veículo entre a fábrica e o Estado.

Escassez e IOF

Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o sócio diretor da Kodó Veiculos, Diogo Augusto Maia da Silva, já havia assinalado que o problema de estrangulamento de oferta por desabastecimento de mercado veio acompanhado por um leve recuo na procura por automóveis zero, na categoria de “carro popular”. O oposto ocorreria nos produtos de luxo, como SUVs, onde a oferta é comprometida por um tempo acional de espera de 15 a 30 dias, já que não é incomum a venda ocorrer com o veículo ainda em trânsito. 

O empresário avaliou que, em paralelo com a escalada dos juros e os maiores rigores na concessão de financiamentos bancários, o encarecimento do crédito por um IOF mais encorpado deve contribuir para uma  aceleração dessa tendência e redução das vendas globais. Por conta disso, a empresa já corrigiu sua projeção de crescimento anual, de 30% para 10%. “Acho que, até meio de 2022, ainda sofreremos com a falta dos carros. Teoricamente, a procura sobe nos meses de outubro, novembro e dezembro. Mas, vamos sentir com esse aumento o que vai acontecer”, ponderou.

A situação não é diferente no segmento de usados e seminovos, que vinha sendo beneficiado pelo estrangulamento na oferta de automóveis zero. O sócio e diretor administrativo da Daniel Veículos, Yuri Barbosa, contou à reportagem do Jornal do Commercio que, depois de um agosto “atípico”, com vendas na casa dos 30%, setembro amargou refluxo no caixa, com vendas “abaixo do esperado”. De acordo com o empresário, os reajustes da Selic, assim como o aumento do IOF contribuíram para a desaceleração, e também está revendo suas projeções para 2021.

 “Esperávamos um crescimento de 20% a 25% em relação ao segundo semestre de 2020. Mas, já reduzimos para 15%. Acredito que, para o segmento mais popular, a tendência seja equilibrar. Mas, para os produtos voltados ao consumidor de alta renda, é mais difícil que isso aconteça, porque grande parte desses clientes não recorre a financiamentos e costuma pagar à vista. A produção deve se manter assim até final do ano e, a partir do segundo trimestre de 2022, deve começar a haver equilíbrio entre oferta e demanda”, lamentou. 

“Ponto crítico”

Em comunicado à imprensa, a Fenabrave informa que, embora as vendas de veículos em todo o país sigam em terreno positivo no acumulado do ano, apenas o segmento de motocicletas apresentou alta em relação a agosto. “A falta de veículos novos, em função da escassez de componentes na indústria, é um fenômeno global. Vivemos hoje, possivelmente, o ponto mais crítico dessa crise de abastecimento de veículos. Mas, acredito que, nos primeiros meses de 2022, teremos uma clareza maior sobre a resolução do problema”, ponderou o presidente da entidade, Alarico Assumpção Júnior.

Por conta da piora do cenário, a Fenabrave corrigiu suas expectativas de crescimento para baixo. Na análise divulgada em julho, havia expectativa de expansão de 13,6% sobre 2020, mas as empresas esperam agora uma alta mais modesta para todo o setor, de 11,1%. “Estamos diante de muitas incertezas e da maior crise de abastecimento de veículos já vivida nos últimos anos. Isso nos fez reduzir as expectativas de crescimento para o ano, infelizmente”, finalizou.

Foto/Destaque: Divulgação

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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