Dia dos Pais foi tímido no Amazonas

Em: 8 de setembro de 2022
Dia dos Pais foi tímido no Amazonas - 0909 A2a

Reportagem: Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori

O crescimento alcançado pelas vendas do varejo amazonense no Dia dos Pais ficou aquém do esperado pelos comerciantes. A alta foi de 2,8% em relação ao ano passado, gerando receita bruta de R$ 93,28 milhões. A pesquisa da CDL-Manaus (Câmara dos Dirigentes Lojistas de Manaus) havia projetado, no entanto, um incremento de 3% faturamento nominal de superior a R$ 95,91 milhões. Ainda assim, o resultado foi substancialmente maior do que o do Dia dos Namorados (R$ 60,87 milhões), embora muito inferior ao do Dia das Mães (R$ 150 milhões) – considerado o “segundo Natal” do setor.

Embora o valor médio aguardado para as vendas (R$ 105) fosse também bem mais baixo do que o das datas comemorativas anteriores – R$ 155 e R$ 160, respectivamente –, a realidade trouxe um número ainda mais tímido. O ticket médio efetivamente alcançado fechou em R$ 97. Em síntese, o Dia dos Pais deste ano gerou um crescimento global nas vendas superior ao obtido em 2021 (+2,5%), embora o valor médio das compras tenha sido um pouco menor do que o de 12 meses atrás (R$ 100).

Na análise da CDL-Manaus e da FCDL-AM (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado do Amazonas), contudo, as vendas do varejo amazonense seguem em escalada crescente gradual, apesar das dificuldades impostas pela inflação e pelos juros. As entidades assinalam que o resultado não mostra necessariamente uma sinalização de inflexão negativa para o curto prazo, já que o efeito dos estímulos econômicos federais ainda não havia sido sentido pelos consumidores no fim de semana do Dia dos Pais. 

Embora os lojistas ainda apostem em crescimento real para as vendas nos próximos meses, lembram também que o ambiente muito polarizado das eleições ainda traz incertezas que não permitem projeções mais acuradas a respeito do desempenho das vendas. Uma sinalização desse cenário, conforme relato das lideranças do comércio do Amazonas, é a virtual discrição na qual está sendo realizada a Semana do Brasil deste ano, com um número menor de lojas participantes e um marketing mais acanhado nos estabelecimentos.

Calçados e vestuário

Vale lembrar que a pesquisa da CDL-Manaus já mostrava um apelo mais reduzido para o Dia dos Pais, em relação às datas comemorativas imediatamente anteriores. De acordo com a entidade, 66,6% dos entrevistados confirmaram intenção de compras, indicando que pelo menos um em cada três consumidores locais fugiria das compras, neste ano. A título de comparação, os respectivos índices de intenção de compras para o Dia dos Namorados, e o Dia das Mães foram 75% e 77%. Pesaram nessa decisão 

O peso da crise econômica brasileira se faz sentir na decisão dos que evitaram os gastos. De acordo com a CDL-Manaus, 19% dos consumidores ouvidos estavam desempregados e outros 4% alegaram estar simplesmente “sem dinheiro”, enquanto uma parcela de 3% informou que usaria os poucos recursos disponíveis para pagar dívidas. Mas, fatores emocionais também contribuíram para o resultado, uma vez que 40% contaram que o pai já faleceu, e 19% comentaram que não tinham contato com o homenageado. 

As vendas efetivas, por outro lado, confirmaram a predominância dos segmentos de calçados (17%), vestuário (15%), almoço/jantar (14%) e perfumaria e cosméticos (10%) na lista de compras dos consumidores locais. Com a diferença de que os três primeiros mostraram recuo de ao menos um ponto percentual. No caso dos produtos de beleza, a diferença foi maior e chegou a 4 p.p. Itens de maior valor agregado, como joias e relógios (8%) e eletroeletrônicos (4%) também ficaram devendo. O mesmo não pode ser dito de artigos esportivos (7%), que cravaram o número aguardado, e smartphones (8%) e viagens (2%), que superaram as expectativas em termos de participação. 

A CDL-Manaus não informou quais métodos de pagamento usados pelo consumidor e locais mais frequentados, no Dia dos Pais. Em virtude da escalada dos juros e dos indicadores de endividamento e inadimplência, a sondagem preliminar reforçava a preferência pelos pagamentos à vista, seja em dinheiro (30%), seja em Pix (16%) ou cartão de débito (12%). Mas, em virtude do carregamento de dívidas anteriores, ou mesmo pela maior facilidade do meio, 27% confirmaram que comprariam no cartão de crédito e parcelado. 

Em sintonia com as restrições orçamentária, e com a prioridade nas “promoções e descontos” (18%) entre os critérios de compras, o consumidor manauense aponta o Centro (35%) – que costuma ser mais procurado por aqueles que buscam preços mais baixos – como escolha preferencial para as compras. Em contraste, os shoppings (30%) – usualmente mais afinados com os critérios localização (8%) e comodidade (7%) – já haviam caído para a segunda posição, seguidos pelos comércios de bairros (14%), supermercados (7%) e internet (7%).  

Deflação e eleições 

O presidente da FCDL-AM, e vice-presidente da CDL-Manaus, Ezra Azury, avalia que as diferenças de desempenho por segmento no comércio, entre as projeções e os resultados, podem ter ocorrido mais por fatores subjetivos da clientela do que restrições nos orçamentos familiares. “A pesquisa captura um momento do mercado. Mas, nada impede que o consumidor mude de ideia, quando chegar à loja. Pode acontecer de ele não gostar do produto, por qualquer motivo, e decidir comprar outra coisa”, justificou. 

O dirigente reforça que o crescimento alcançado pelo setor comercial do Amazonas não deixa de ser uma boa notícia e avalia que o desempenho ficou aquém do projetado em razão principalmente de fatores pontuais. “Na época do Dia dos Pais, ainda não estávamos sentindo plenamente os efeitos da deflação causada pela redução dos preços dos combustíveis. Ainda há uma pressão da inflação sobre a renda familiar, mas ela ficou menor. Por outro lado, algumas categorias, como o próprio comércio, estão conseguindo reposicionamento salarial. E os serviços, pelo menos os considerados mais essenciais, continuam em recuperação”, ponderou.

Um dos maiores entraves, entretanto, seria mais político do que econômico, dadas as atuais turbulências eleitorais, que já impactaram em uma Semana do Brasil mais modesta neste ano. Criado pela atual gestão no governo federal, o evento visa movimentar comércio e serviços em um mês sem datas comemorativas. Mas, a iniciativa ainda não teve o alcance esperado, em razão das restrições sanitárias nos dois anos iniciais de pandemia e, agora, pelo temor de alguns empresários de o marketing em torno das promoções ser confundido com propaganda eleitoral.   

“Os shoppings optaram por não fazer e temos menos empresas oferecendo as promoções, neste ano. É uma pena, pois isso ajuda a movimentar um mês que costuma ser muito fraco para o setor. Por isso fica difícil até fazer uma projeção para o evento, ou mesmo para os próximos meses. Mas, com o PIB crescendo, dificilmente poderíamos esperar algo diferente para o comércio. Esperamos que as vendas subam acima do IPCA acumulado em 12 meses, que está em 10,7%”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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