Com pouco mais de 56% dos votos válidos, a petista Dilma Rousseff é eleita presidente da República do Brasil. O dia 31 de novembro de 2010 vai marcar, para mais de 190 milhões de pessoas, “a primeira vez” em muitos aspectos, mas o mais importante de todos: o Brasil elegeu, pela primeira vez, uma mulher para governar o país.
Apesar de nunca ter sido eleita diretamente para exercer nenhum cargo ou função, Dilma Rousseff conseguiu chegar ao topo da política brasileira, alçada pelo poder e prestígio de um governo que abraçou as causas sociais e dirigiu o país ao rumo do crescimento econômico. Testada pela primeira vez nas urnas, Dilma saiu do 1º turno como a mulher mais votada da história do Brasil, com 47.651.434 votos e, diante da batalha travada com o representante do PSDB, José Serra, no 2º turno, conseguiu manter o desempenho e conquistar o direito de governar por quatro anos.
Em meio a uma campanha dura e marcada por escândalos e denúncias de irregularidade, Dilma chega à cadeira de presidente pelas mãos de Lula, considerado como o mais popular da história e um dos homens mais influentes do mundo.
O tucano José Serra fechou sua participação nas eleições com 44% dos votos. A abstenção foi em torno de 21%. O eleitorado brasileiro é totalizado com 135 milhões de pessoas.
Candidatura construída por Lula
Dilma credenciou-se para disputar o cargo ao assumir o posto de ministra-chefe da Casa Civil, em junho de 2005, após a queda de José Dirceu no escândalo do mensalão.
No comando da Casa Civil, Dilma travou uma intensa disputa com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, por causa da política econômica do governo. Enquanto ele defendia aperto fiscal, ela pregava aceleração nos gastos e queda nos juros.
Dilma acabou assistindo à queda de Palocci, em março de 2006, devido à quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Com a reeleição de Lula e sem grandes rivais à altura no PT, Dilma tornou-se, depois do presidente, o grande nome do governo.
Apesar do poder acumulado e do protagonismo que passou a exercer ao lado de Lula, até outubro de 2007 Dilma negava que seria candidata.
Sua atuação à frente do Ministério de Minas e Energia rendera-lhe a simpatia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que enxergou na subordinada, de perfil discreto e trabalhador, a substituta ideal para o posto de Dirceu.
Ex-ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, Dilma foi alçada já em 2008 à condição de candidata pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que começou então a dar as primeiras indicações de que gostaria de ver uma mulher ocupando o posto mais importante da República.
Em 31 de março deste ano, Dilma deixou a Casa Civil para entrar na pré-campanha. Cresceu nas pesquisas e chegou a ter mais de 50% dos votos válidos em todas elas, mas começou a oscilar negativamente dias antes do primeiro turno, após a revelação dos escândalos de corrupção na Casa Civil e da entrada do tema do aborto na campanha.
Logo no primeiro debate do segundo turno, reagiu aos ataques que vinha sofrendo e contra-atacou Serra. A partir daquele momento, a diferença entre os dois candidatos nas pesquisas parou de cair.
Mais uma vez, brilha a estrela de Lula
A eleição presidencial de 2010 vai entrar para a história do país como a primeira do gênero na qual alguém que não participou do pleito como candidato – o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – teve papel fundamental na escolha do novo dirigente, a ex-ministra Dilma Rousseff, sua afilhada política, estreante na seara de uma disputa eleitoral. Dono de uma popularidade recorde, Lula não só fez sua sucessora, como também levou um dos nomes mais fortes da oposição, o tucano José Serra, a mais uma derrota nas urnas em uma campanha para o Palácio do Planalto, a primeira foi contra Lula em 2002.
Cientistas políticos consultados pela Agência Estado admitem que nunca na história deste país um presidente conseguiu transferir tamanho porcentual de intenção de votos para seu candidato e influenciar o pleito regionalmente. E mais uma vez, a sucessão de escândalos envolvendo figuras importantes de sua administração, como a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra, não foram suficientes para abalar os seus elevados índices de popularidade. É o que o cientista político e pesquisador da PUC e FGV de São Paulo Marco Antônio Carvalho Teixeira classifica de “efeito teflon”, onde nada de negativo gruda na imagem do presidente. E, neste pleito, valeu também para a sua afilhada política e nova presidente do país.
Segundo Carvalho Teixeira, o fator predominante que ancorou toda essa popularidade do presidente resume-se a um só: a economia brasileira em alta. “Isso leva comida à mesa do brasileiro e dinheiro no bolso, motivos suficientes para o eleitorado, sobretudo das camadas mais populares, terem apostado na continuidade e na candidata de Lula”. Apesar do fator predominante da economia em alta, o sociólogo Carlos Melo, professor de Sociologia e Política do Insper, faz um alerta de que a popularidade de Lula, ancorada na economia, não será suficiente para garantir o grande desafio que o Brasil enfrentará nas próximas décadas.
Carlos Melo destaca que o Brasil precisa dar um salto qualitativo nos próximos anos e isso exigirá planejamento e bons projetos de infraestrutura, inteligência, coesão, liderança e instituições sólidas. E, no seu entender, esse debate ainda não ocorreu no país, principalmente numa campanha presidencial que teve como foco principal os escândalos e discursos vazios. “O desenvolvimento econômico e a inclusão social, que até aqui apenas ensaiamos, dependerão muito da condução política que se dê ao Brasil, incluindo reformas, boas escolhas, articulação de qualidade e visão de futuro”, reitera Melo.
Para os analistas, a estrela do presidente Lula tem que brilhar também na administração de Dilma, pois o sucesso de sua gestão vai depender muito da sua capacidade de articulação política.







