Dilma terá que mexer no rendimento da poupança

Em: 8 de novembro de 2010
Além do debate sobre a volta da CPMF, o governo terá de trazer outro tema bastante impopular à pauta econômica
Além do debate sobre a volta da CPMF, o governo terá de trazer outro tema bastante impopular à pauta econômica

Além do debate sobre a volta da CPMF, o governo terá de trazer outro tema bastante impopular à pauta econômica. Para que o Brasil consiga ter juro real próximo de 2%, como deseja a presidente eleita, Dilma Rousseff, será preciso mudar regras para diminuir o rendimento da mais tradicional e popular aplicação financeira: a poupança. Essa é a avaliação de analistas ouvidos pela Agência Estado.
Segundo eles, reduzir a rentabilidade obrigatória dessas contas é necessário para que a taxa Selic possa cair sem que haja desarranjo nas aplicações financeiras e na gestão da dívida pública. Mas, o próprio Ministério da Fazenda admite, nos bastidores, que o tema é impopular e, por isso, o assunto é tratado com muito cuidado, até porque remexe traumas da população após o desastre gerado pelo confisco no governo Collor
Deverá ser longo o caminho para o Brasil atingir o patamar de juro real desejado por Dilma. Números do Banco Central mostram que a redução da chamada taxa neutra foi bastante gradual nos últimos anos. Taxa real é o patamar do juro que não deprime, nem acelera o ritmo da economia. Esse número é considerado ideal pelos economistas, já que a política monetária não exerce pressão contracionista, nem expansionista na atividade. Por isso, também é chamado de “juro neutro”.
Nos oito anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, esse patamar caiu de aproximadamente 15,5% no começo de 2003 para o atual nível entre 5,5% e 6% ao ano. Mesmo com a redução, seria necessário cortar o patamar em mais da metade para chegar ao nível esperado pela presidente.
No meio desse caminho até os 2%, será preciso superar grandes obstáculos. Economistas afirmam que o principal deles é o ajuste fiscal – algo necessário para que o governo gaste menos, seja reduzida a pressão de alta na inflação causada pelo gasto público e, assim, o Banco Central teria espaço para cortar juros
Mas há outro desafio: a remuneração da poupança. Atualmente, essas contas pagam obrigatoriamente 6% ao ano acrescido da variação da TR (Taxa Referencial). Dessa forma, se o juro real – que é a principal referência da taxa paga nos títulos da dívida pública – ficar abaixo desse patamar de 6%, é provável que haja migração de aplicações para as cadernetas, que passariam a ficar mais rentáveis que os títulos da dívida pública. Isso prejudicaria a gestão da dívida pública.
“É um debate que precisa voltar em breve. É impopular, mas necessário para que o Brasil possa efetivamente ter juros reais mais baixos. A poupança é, na prática, uma das maiores indexações da economia brasileira”, diz fonte do Ministério da Fazenda. Por enquanto, o assunto ainda não foi retomado completamente pela atual equipe econômica, mas há percepção de que o tema deve ser tratado como umas das prioridades no novo governo.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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