O consenso entre os economistas é que o Copom deve promover um novo corte de 0,50 ponto percentual na taxa Selic, nesta quarta (20). O último corte promovido pelo Comitê de Política Monetária, determinado na reunião de 1º e 2 de agosto, demorou, mas chegou aos bancos. Os dados da pesquisa da Anefac (Associação Nacional de Executivos) confirmam redução de 0,43% para empréstimos a pessoas físicas, e de 0,98%, para as jurídicas. A taxa média para as famílias ficou em 6,98% ao mês (124,71% ao ano) –a menor desde fevereiro de 2023. Para as empresas, o custo médio do crédito é de 4,05% mensais (61,03% anuais), o mais baixo desde janeiro deste ano.
A diminuição do preço do dinheiro é aguardada pelos agentes econômicos, diante das constatações de que a economia enfrenta dificuldades para continuar andando. Pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), divulgada nesta terça (19), aponta redução de 2,5% no “consumo aparente de bens industriais”, na passagem de junho para julho. O indicador, que leva em conta a parcela da produção industrial brasileira e das importações voltadas ao mercado doméstico, também teve quedas de 5,2% na comparação com julho de 2022 de 2,6% no acumulado do ano; e de 1,1% no aglutinado de 12 meses.
A queda foi puxada pelos bens nacionais (-3,5%). Já o consumo de bens importados subiu 0,2%. A demanda caiu 16,6%, na indústria extrativa mineral, e 1,8%, na indústria da transformação. Dos 22 subsetores da indústria da transformação, 13 recuaram, com destaque para máquinas e equipamentos (-7,1%). Entre as nove atividades com alta estão os equipamentos de transporte (+22,5%) e produtos alimentícios (+2,2%). Bens de capital (-5,7%) e bens intermediários (-2,4%), também tropeçaram, sinalizando problemas na cadeia produtiva. Já os bens de consumo tiveram alta, tanto os duráveis (4,6%), quanto os semi e não duráveis (1,4%).
Para conseguir fechar as contas, as famílias continuam recorrendo às suas reservas. O mesmo BC informa que os saques de recursos na caderneta de poupança voltaram a superar os depósitos, em agosto. Desta vez, o saldo ficou negativo em R$ 10,1 bilhões, dada a prevalência da saída de recursos (R$ 331,7 bilhões) em detrimento das entradas (R$ 321,6 bilhões). No mês passado, o estoque dos valores depositados na poupança ficou em R$ 969,1 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto, as retiradas superaram os depósitos em R$ 80,3 bilhões.
Já os dados do Indicador de Demanda dos Consumidores por Crédito, da Serasa Experian, obtidos com exclusividade pela Agência Brasil, indicam que o consumidor brasileiro tem diminuído a procura por empréstimos. Entre junho e julho, houve uma queda de 2,4% na procura das famílias pelo crédito, em sintonia com a progressão dos juros bancários –a despeito da estabilidade da Selic neste ano. No confronto com o mesmo mês de 2022, a retração foi de 10,9%, marcando o 14º resultado negativo nesse tipo de comparação. Ao longo de 2023, a perda de vigor da demanda por financiamentos é de 12,3%. Já no acumulado de 12 meses, a queda é maior ainda, 14%.
“Crédito caro”
A ex-vice-presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Estado do Amazonas), e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, lembra que a taxa de juros definida pelo Copom influencia de forma significativa no consumo dos agentes econômicos, via aquisição de bens e serviços. A economista acrescenta que taxas mais elevadas encarecem o valor final dos produtos em função da cobrança de juros.
“O crédito também tende a ficar mais caro, mas também é impactado pela possibilidade dos ‘calotes’. Em relação à taxa de juros a ser definida na próxima reunião do BC, tanto o mercado, quanto os investidores esperam a continuidade da queda para este ano de 2023 e para os primeiros meses de 2024”, resumiu.
A consultora empresarial, professora e conselheira do Cofecon (Conselho Federal de Economia), Denise Kassama, concorda que o custo do dinheiro ainda está “bem salgado” e avalia que as quedas graduais sinalizadas pelo BC tendem a demorar para produzir efeitos no consumo e na atividade dos setores produtivos, mesmo em um período favorecido pela sazonalidade das festas de fim de ano.
“Isso acaba desestimulando a demanda, daí a queda na oferta. A queda [promovida pelo Copom] é bastante sutil, mas precisa acompanhar a série histórica. Enquanto os juros estiverem assim draconianos, vamos ter uma alteração muito pequena na economia. A tendência é que a atividade industrial tenha melhoras, por conta das produções para fim de ano. Mas, não estou otimista. Se houver uma queda, ele será de, no máximo, 0,5 p.p. Não estou vendo boa vontade do BC, até porque, realmente o risco de inflação continua aparecendo”, lamentou.
“Decisão precificada”
Especialista em mercado de capitais e sócio da GT CAPITAL, Dierson Richetti, aposta que o Copom deve prosseguir com o ciclo de quedas nesta quarta (20), com um corte de 0,50 p.p. na Selic, e outros cortes semelhantes nas próximas reuniões. Um dos motivos apontados é a “diminuição da pressão política”. Outro fator vem dos dados do Boletim Focus, que trouxeram a Selic já no final de 2023 em 11,75% “perante os 12% que tínhamos há um tempo”. Ele aponta também que a inflação subiu menos que o esperado, abrindo espaço e “indícios técnicos” para haver uma redução, embora mostre ressalvas de médio prazo.
“O que começa a chamar a atenção, e que pode influenciar, é o aumento da energia elétrica e dos combustíveis. Como o Brasil é um país rodoviário, o aumento nesse custo é repassado para a população como um todo e isso faz com que a inflação suba. Mas, perto dos números que foram apresentados nas últimas duas semanas, eu ainda acredito que esses 0,50% serão dados pelo Banco Central em virtude dos dados e também por conta de uma boa comunicação entre Planejamento e Fazenda, o que dá um sinal de certa forma positivo para o Legislativo e o Senado continuarem a fazer as devidas aprovações que são necessárias com o BC fazendo a sua parte” afiançou.
Em sintonia, a planejadora financeira e sócia da AVG Capital, Ana Paula Carvalho, também estima que a redução deve ficar em 0,50 p.p., situando a Selic em 12,75% ao ano, em “decisão já precificada pelo mercado”, após os indícios da última reunião do Copom. A especialista também aponta os dados de inflação apresentados nas últimas medições para amparar a sua análise, embora também aponte senões para as próximas decisões do colegiado do Comitê.
“Não vejo um motivo para acontecer uma decisão diferente disso. Mas apesar desses dados favoráveis, o BC está olhando de perto questões como as novas incertezas fiscais em torno da capacidade do governo entregar a meta fiscal do próximo ano e as projeções de IPCA para 2024 e 2025, que podem apresentar alta após depreciação do real, alta nas commodities e hiato do produto mais elevado, variáveis que influenciam nas projeções de inflação do BC”, concluiu.







